Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Fisiopatologia da Enxaqueca

FIGURA 13-2

 

Fisiopatologia da Enxaqueca A fisiopatologia da enxaqueca não é bem compreendida. No momento, a

enxaqueca é vista como um distúrbio complexo, geralmente de base

genética, que confere uma suscetibilidade ao início de uma cascata de

eventos no sistema nervoso central (SNC), que resulta em um ataque clínico

de enxaqueca.

Até a metade da década de 1980, a explicação aceita para ataques de

enxaqueca consistia na teoria vascular da enxaqueca, que sugeria que a dor

de cabeça da enxaqueca era causada pela dilatação dos vasos sanguíneos

cranianos, enquanto a aura da enxaqueca resultava da vasoconstrição. A

teoria vascular era baseada em quatro observações: (1) o único tratamento

efetivo da enxaqueca aguda naquela época, ergotamina, era um

vasoconstritor potente; (2) nitroglicerina, um agente vasodilatador, causava

cefaleia; (3) a observação clássica de que ramos das artérias carótidas

externas muitas vezes ficavam distendidos e pulsavam durante um ataque

de enxaqueca e (4) a descoberta de que a estimulação de estruturas

vasculares intracranianas (mas não do encéfalo) em pacientes conscientes

submetidos a procedimentos cirúrgicos produzia cefaleia. Contudo, esta

teoria vascular não parecia explicar todos os elementos da fisiopatologia da

enxaqueca.

Uma teoria neurogênica evoluiu a seguir, sugerindo que a aura da

enxaqueca era causada por uma onda cortical de despolarização neuronal e

glial, referida como depressão cortical alastrante (DAC). A partir de sua

origem cortical encefálica, esta onda DAC espalha-se pelo córtex em uma

velocidade de 3 a 5 mm/min, uma velocidade semelhante à velocidade

estimada da aura visual da enxaqueca, conforme ela progride pelo córtex

visual primário. Em DAC experimental, existem alterações características

do fluxo sanguíneo encefálico, com um aumento inicial do fluxo sanguíneo

(hiperemia), seguido por uma diminuição no fluxo sanguíneo (oligemia) e

relativa hipóxia tissular. Estudos de imagem usando ressonância magnética

(RM) funcional parecem corroborar estas alterações hemodinâmicas

enxaquecosas durante a aura visual. Além de contribuir para a aura, DAC

também pode agir como gatilho na cefaleia. Evidências experimentais

demonstram que DACs podem resultar na ativação de neurônios de segunda

ordem nociceptivos na porção caudal do núcleo espinal do nervo trigêmeo

e em alterações do calibre dos vasos da dura-máter, inervados por neurônios

sensíveis à dor. Este mecanismo certamente poderia explicar a ativação da cefaleia em pacientes que apresentam a aura de enxaqueca, mas não

explicaria a cefaleia em pacientes de enxaqueca sem aura. Foi sugerido que

a enxaqueca sem aura ocorra quando a DAC acontece em áreas não

eloquentes do encéfalo (como o cerebelo), onde a despolarização não é

percebida conscientemente; contudo, existem evidências insuficientes para

confirmar esta possibilidade no momento.

A cefaleia da enxaqueca provavelmente surge após a ativação de

neurônios nociceptivos no sistema trigeminovascular (TVS). O TVS

consiste em neurônios sensoriais pseudounipolares de pequeno calibre

originando-se no gânglio trigeminal e nas raízes dorsais cervicais altas, que

se projetam para inervar os vasos da pia-máter, dura-máter, grandes vasos

encefálicos e seios venosos. Uma vez ativados, os neurônios transmitem as

informações nociceptivas para a porção caudal do núcleo espinal do nervo

trigêmeo, onde fazem sinapses com neurônios de segunda ordem.

A partir da porção caudal do núcleo espinal do nervo trigêmeo, os

neurônios que estão envolvidos na localização da dor projetam-se para o

tálamo e então para o córtex sensorial, onde a dor chega à consciência.

Sinais centrais podem ser modulados por projeções de várias fontes,

incluindo a substância cinzenta periaquedutal, o núcleo magno da rafe no

bulbo ventromedial rostral e pelos sistemas inibidores corticais

descendentes. Outros neurônios de segunda ordem ativados na porção

caudal do núcleo espinal do nervo trigêmeo projetam-se para inúmeros

núcleos subcorticais e para as áreas límbicas do encéfalo envolvidas nas

respostas emocionais e vegetativas à dor.

Existe um debate contínuo se a ativação inicial dos neurônios aferentes

primários é necessária para a ocorrência das cefaleias da enxaqueca. O fato

de que aumentos nos níveis medidos de CGRP, um neuropeptídeo

sabidamente liberado por neurônios de primeira ordem ativados, são

observados no sangue venoso jugular externo durante a enxaqueca em seres

humanos implica em ativação dos neurônios aferentes primários. Contudo,

pela lógica, pareceria que a ativação anormal ou a ausência de um tônus

inibidor regulatório poderia resultar na propensão de um ataque de

enxaqueca em alguns indivíduos.