Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Neuroimunologia: Síndromes Paraneoplásicas e Outras Síndromes Autoimunes
Neuroimunologia: Síndromes
Paraneoplásicas e Outras Síndromes
Autoimunes
Córtex encefálico e sistema límbico
A encefalite por NMDAR (receptores para N-metil-d-aspartato) se
caracteriza por manifestações clínicas iniciais psiquiátricas ou
neuropsiquiátricas fora do comum, com frequência associadas a convulsões,
evoluindo em algumas semanas para o rebaixamento da consciência,
ocorrendo em associação a anticorpos à subunidade NR1 do receptor para
NMDA. Os pacientes são com frequência do sexo feminino,
predominantemente adultos jovens e crianças. Períodos de acinesia
catatoniforme se alternam a agitação, respostas paradoxais a estímulos,
ecolalia, discinesias (especialmente orofaciais) e instabilidade autonômica.
É comum a hipoventilação central, tornando necessário um suporte
ventilatório prolongado. Em quase 60% dos casos há um teratoma,
especialmente ovariano, incluindo a reatividade do tecido nervoso ao soro
do paciente e anticorpos NMDA. O diagnóstico e a imunoterapia podem
ocasionar melhoras drásticas.
A encefalite límbica se caracteriza por alterações cognitivas, convulsões
e anormalidades de comportamento e pode ocorrer como uma condição
autoimune primária ou paraneoplásica. A neoplasia mais comumente
associada é o câncer de pequenas células do pulmão (CPCP). Múltiplos
autoanticorpos marcadores se associam a essa síndrome; o perfil específico
de autoanticorpos séricos pode predizer o risco de um câncer específico.
Outros níveis do neuroeixo são frequentemente envolvidos em associação a
alguns autoanticorpos marcadores paraneoplásicos, como, por exemplo,
Ma2, autoanticorpo antionuclear neuronal tipo 1 (ANNA-1), anticorpo
antinuclear neuronal glial 1 (AGNA-1), o que não ocorre na mesma escala
com outros anticorpos (canais de cálcio sensíveis à voltagem [VGKC],
LG11). O envolvimento autoimune paraneoplásico isolado do córtex
encefálico é raro; os autoanticorpos marcadores atuais são encontrados em
uma frequência baixa. Já foram relatados casos de encefalite cortical em
associação a anticorpos ao receptor para acetilcolina (AClR), e/ou ao VGKC, à proteína mediadora da resposta à colapsina 5 (CRMP-5) ou à
ácido glutâmico descarboxilase (GAD-65) e timoma.
Diencéfalo
Uma disfunção hipotalâmica com sonolência excessiva e algumas
características da cataplexia ocorrem em pacientes apresentando
autoanticorpos Ma2. Os níveis de hipocretina no líquido cefalorraquiano
(LCR) se mostram baixos ou não detectáveis. Características de
envolvimento diencefálico também são bastante proeminentes na encefalite
por NMDA.
Núcleos da base e sistema extrapiramidal
A coreia paraneoplásica ocorre com grande frequência no CPCP em
associação a um anticorpo a CRMP-5. Transtornos de movimento variáveis
ocorrem em associação a anticorpos a NMDA. A discinesia orofacial pode
ocorrer no câncer de pulmão e em associação a anticorpos ANNA-2. O mais
frequente dos raros transtornos de movimento paraneoplásicos é a
mioclonia, incluindo a opsoclonia. Ela ocorre em várias neoplasias
diferentes, incluindo o neuroblastoma da infância; o transtorno carece de
marcadores sorológicos sindrômicos específicos. A localização anatômica é
difícil; ela se origina potencialmente do tronco encefálico ou da medula
espinal, tal como na rigidez, que se manifesta por distonia e por fenômenos
de “pessoa rígida.”
Cerebelo
A ataxia cerebelar subaguda é a manifestação mais comum em pacientes
soropositivos para autoanticorpos ao citoplasma de células de Purkinje tipo
1 (PCA-1) ou PCA-Tr. Isso pode ocorrer com outros anticorpos marcadores,
incluindo o anticorpo a canais de cálcio sensíveis à voltagem do tipo P/Q e
o anticorpo AGNA-1. No caso dos anticorpos PCA-Tr, o diagnóstico de um
linfoma de Hodgkin precede frequentemente a síndrome cerebelar. Em
outros casos o perfil de anticorpos dirige a pesquisa do câncer. O anticorpo
PCA-1 é fortemente sugestivo de uma origem ginecológica, especialmente um câncer ovariano oculto; o anticorpo AGNA-1 prediz fortemente o
CPCP.
FIGURA 10-22
Tronco encefálico Um tremor de início subagudo, rigidez, opsoclonias, mioclonias,
oftalmoplegia, náuseas, vômitos, vertigens, nistagmo, ataxia ou paralisia
bulbar podem indicar uma inflamação do tronco encefálico. A encefalite do
tronco encefálico é frequente em associação a anticorpos ANNA-2 ou Ma2,
porém em menor grau na presença de outros autoanticorpos paraneoplásicos
e cânceres associados.
Nervos cranianos
Um quadro de neurite óptica associada a perda de visão, retinite e
inflamação do vítreo é sindrômico em relação à IgG a CRMP-5 e ao CPCP.
Embora a retinopatia autoimune não apresente infiltrados inflamatórios, a
perda visual pode ser grave. Ela pode ser paraneoplásica, associada
predominantemente ao CPCP ou ao melanoma, ou idiopática. Já foram
identificados anticorpos a recoverina e a outras proteínas da retina; todavia,
a fisiopatologia da perda visual não foi suficientemente esclarecida.
Múltiplas neuropatias cranianas, incluindo perda auditiva, ocorrem em
um contexto paraneoplásico. A associação mais frequente é com a IgG a
CRMP-5 e o CPCP. É difícil diferenciar-se uma patologia de nervos
cranianos de uma patologia do tronco encefálico.
Medula espinal
Uma mielopatia de início subagudo se associa a vários cânceres e
autoanticorpos de cânceres específicos diferentes. Clinicamente ela é
tipicamente simétrica, com alterações longitudinalmente extensas dos tratos
longos ou específicas da substância cinzenta à aquisição de imagens por
ressonância magnética (RM). O envolvimento motor pode ser grave,
especialmente no caso da variante necrosante apresentando um nível
espinal.
A síndrome do “homem rígido” (SHR), síndrome de Moersch-Woltman,
evidencia tipicamente um enrijecimento ou endurecimento muscular
doloroso grave progressivo, afetando de maneira proeminente a
musculatura paraespinal e/ou os músculos das pernas, por vezes
unilateralmente. Níveis séricos elevados de anticorpos a GAD-65
(geralmente >> > > 20 nmol/L) auxiliam no diagnóstico da SHR não paraneoplásica. Ironicamente, a SHR raramente ocorre em associação ao
timoma, em contraste com a miastenia gravis. Títulos mais baixos de GAD-
65 podem ser vistos na tireoidite de Hashimoto, na anemia perniciosa e no
diabetes tipo 1.
O anticorpo antianfifisina é um marcador da síndrome da pessoa rígida
(SPR) paraneoplásica associada ao câncer de mama ou de pulmão.
Síndromes da pessoa rígida não paraneoplásicas atípicas, especialmente a
encefalomielite progressiva com rigidez e mioclonias (EPRM), ocorrem em
associação a anticorpos a receptores para glicina (GliR). É difícil distinguir-
se as variantes de SPR de outras síndromes de hiperexcitabilidade
neuromuscular, rigidez ou distonia. Os testes eletrofisiológicos podem ser
úteis. O envolvimento concomitante de múltiplos níveis do neuroeixo e
perfis de autoanticorpos específicos, ou seja, a anfifisina, ajudam a
identificar os pacientes com SHR paraneoplásica.
Síndromes do neurônio motor ou de nervos
motores
Essas síndromes são raras em contextos paraneoplásicos. O envolvimento
concomitante de regiões não motoras do neuroeixo e perfis de
autoanticorpos específicos distinguem essas neuronopatias motoras da
esclerose lateral amiotrófica (ELA). Todavia, a ELA ocorre ocasionalmente
coincidindo com neoplasias; não é possível se discernir qualquer relação
fisiopatológica entre as duas condições. A evolução clínica é
inexoravelmente progressiva, independentemente do prognóstico da
neoplasia.
Em contraste, as síndromes paraneoplásicas de nervos motores podem ter
sua evolução retardada ou remitir ao tratamento da neoplasia subjacente. É
importante distinguir-se as síndromes neuropáticas inflamatórias
desmielinizantes, como, por exemplo, a neuropatia motora multifocal com
bloqueio da condução, porque elas respondem à imunoterapia,
especialmente a imunoglobulina intravenosa (IGIV).
Mononeuropatias, plexopatias, polirradiculopatias e neuropatias de
pequenas fibras ocorrem isoladamente ou com manifestações clínicas
iniciais multifocais em associação ao câncer. A autoimunidade paraneoplásica raramente explica essas síndromes; é importante que o
clínico procure condições, tais como doenças metastáticas, efeitos da
radioterapia, deformidades anatômicas e transtornos metabólicos tóxicos
relacionados com medicações, que respondem mais tipicamente aos
tratamentos.
Neuropatias sensitivas
Uma neuronopatia sensitiva subaguda afetando os gânglios da raiz dorsal e
os gânglios autonômicos é um protótipo de manifestação neurológica do
CPCP com autoimunidade por ANNA-1. Ela se distingue clinicamente por
afetar a face, o tronco e os membros, em contraste com a neuropatia
periférica (NP) sensitiva clássica, predominantemente distal. Déficits
sensitivos proprioceptivos de grandes fibras associados predispõem à ataxia
sensitiva. A eletromiografia (EMG) demonstra que os potenciais de ação
em nervos sensitivos periféricos (PANS) estão ausentes.
A neuropatia sensitiva, distinta de neuronopatia, é um acompanhamento
paraneoplásico doloroso e comum. O envolvimento motor concomitante
varia. Ocorrem múltiplos autoanticorpos, relacionados basicamente com o
câncer. Muitos cânceres são tratados por quimioterapia neurotóxica
periférica. Além disso, os pacientes com neuropatia evidenciam com
frequência insuficiência de múltiplos órgãos, tornando problemático
determinar-se a etiologia. A EMG demonstra PANS de amplitude baixa.
O mieloma e a macroglobulinemia de Waldenström se associam a
imunoglobulinas monoclonais. Essas condições apresentam manifestações
neuropáticas periféricas iniciais variáveis, por vezes graves, com
características desmielinizantes distintas.
Sistema nervoso autônomo
A neuropatia ou ganglionopatia autonômica ocorre habitualmente como um
transtorno multifocal associado ao câncer, apresentando por vezes múltiplos
autoanticorpos marcadores. Hipotensão ortostática, anidrose, boca seca,
disfunção erétil, alteração da resposta pupilar à luz, frequência cardíaca fixa
e disfunção gastrointestinal estão variavelmente presentes. Sintomas
atribuídos ao câncer, incluindo caquexia, anorexia, saciedade precoce, dores abdominais e vômitos pós-prandiais, podem estar relacionados com uma
gastroparesia ou a uma constipação intestinal grave.
As disautonomias autoimunes não paraneoplásicas primárias, associadas
a títulos elevados de anticorpos ao AClR neuronal, são com frequência
graves e incapacitantes.
Junção neuromuscular
A síndrome miastênica de Lambert-Eaton (SMLE) é um transtorno da
transmissão neuromuscular colinérgica periférica pré-sináptica que causa
classicamente fraqueza proximal dos membros e por vezes disfunção dos
músculos bulbares e extraoculares. Tipicamente a fraqueza melhora em
segundos da ativação muscular voluntária; os sintomas superam com
frequência os achados do exame físico. As características eletromiográficas
e a soropositividade a autoanticorpos aos canais de cálcio (Ca2+) neuronais
distinguem a SMLE pré-sináptica da miastenia gravis pós-sináptica. O
anticorpo ao canal de Ca2+ do tipo P/Q é especificamente patogênico,
mediando uma perda de canais da superfície pré-sináptica que distingue a
SMLE de muitos transtornos paraneoplásicos em que anticorpos neuronais,
nucleares gliais ou citoplasmáticos são marcadores sorológicos, porém não
são claramente patogênicos.
O CPCP ocorre em 60% dos pacientes portadores da SMLE. A SMLE
afeta clinicamente de 1% a 2% dos pacientes portadores de CPCP, ainda
que seja mais alta a frequência do anticorpo a canais de Ca2+ do tipo P/Q.
Outros anticorpos, especialmente anticorpos a canais de cálcio do tipo N,
coexistem frequentemente. É característica uma disautonomia limitada.
Uma disautonomia profunda, especialmente quando a motilidade
gastrointestinal está alterada, indica habitualmente um mecanismo
paraneoplásico imunologicamente mediado concomitante adicional,
frequentemente associado a anticorpos ANNA-1, a anfifisina ou do tipo IgG
de CRMP-5.
A miastenia gravis (MG) é um transtorno pós-sináptico da transmissão
neuromuscular colinérgica periférica. São características a ptose fatigável, a
diplopia e a fraqueza de músculos bulbares/dos membros. Anticorpos
dirigidos ao domínio do AClR de músculos extraoculares são patogênicos
na MG. Um timoma ocorre em 10% a 15% dos casos. Aqui são por vezes também identificados anticorpos modulando (internalizando) o AClR,
assim como anticorpos dirigidos a músculos estriados, a GAD-65, a VGKC,
a CRMP-5 e ao AClR neuronal. A MG raramente ocorre em associação a
outras neoplasias.
Transtornos de hiperexcitabilidade neuromuscular, incluindo a
neuromiotonia ou síndrome de câimbras-fasciculações, ocorrem
frequentemente como transtornos autoimunes idiopáticos adquiridos e, em
raras ocasiões, paraneoplásicos. São identificados frequentemente
anticorpos a VGKC ou à proteína associada à contactina 2 (CASPR2).
Músculos
O câncer coexiste em 15% dos pacientes apresentando dermatomiosite,
mais raramente na polimiosite. Ele pode geralmente ser identificado por
ocasião do diagnóstico da miopatia. Os sinais e sintomas são indistinguíveis
nas formas paraneoplásicas e não paraneoplásicas, embora lesões de
necrose cutânea, início rápido e idade mais avançada constituam indicações
quanto à dermatomiosite paraneoplásica; não foram identificados
autoanticorpos marcadores.
A miopatia necrosante aguda se associa em raras ocasiões a vários
cânceres. É importante reconhecer-se a associação coincidente ao uso de
estatinas. Não há autoanticorpos marcadores nas variedades
paraneoplásicas, mas anticorpos à partícula de reconhecimento de sinais
(PRS) foram relatados nas variantes autoimunes idiopáticas.
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