Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Êmbolo Encefálico
FIGURA 9-24
Êmbolo Encefálico Existem três principais participantes no processo da embolia encefálica. A
artéria destinatária que capta e recebe o material embólico, mesmo
temporariamente, o material embólico em si – a matéria que compõe o
êmbolo, e a fonte de doação a partir da qual o material embólico se origina.
As artérias receptoras
A artéria receptora é a principal determinante dos sinais e sintomas
clínicos. Quando uma artéria receptora do pescoço ou intracraniana é
obstruída, o fluxo sanguíneo para a área do encéfalo suprida pela artéria
bloqueada subitamente torna-se insuficiente e a função normal é
interrompida. Os sintomas neurológicos que resultam do bloqueio arterial
dependem da área do encéfalo que foi subperfundida. Se um êmbolo
bloqueia uma artéria cerebral posterior que supre o córtex visual, pode re-
sultar em perda da visão no campo visual oposto. Se um êmbolo bloqueia a
artéria cerebral média esquerda, os membros direitos podem tornar-se
fracos e entorpecidos e o paciente pode tornar-se afásico. Um êmbolo em
uma artéria vertebral intracraniana pode causar perda da função cerebelar e
ataxia. Os sintomas não dependem da natureza do material embólico. A
artéria receptora não define o material que a está bloqueando ou de onde o
material veio.
Se os sintomas são transitórios ou persistentes depende do tamanho e do
destino do êmbolo. O êmbolo muitas vezes se move através das artérias
receptoras tão rapidamente que nenhuma obstrução ou que uma obstrução
muito transitória ocorre. Estes êmbolos passando podem ser identificados
como os chamados HITS (sinais transitórios de alta intensidade) que
passam rapidamente sob uma sonda de ultrassom que monitora a artéria
intracraniana. Os êmbolos podem não causar sintomas, AITs ou infartos
persistentes.
A maioria dos êmbolos que vai a uma artéria carótida interna a partir do
coração ou da aorta, ou que surge a partir da artéria carótida, desloca-se
para a artéria cerebral média ipsilateral. O êmbolo pode parar primeiro
dentro da artéria carótida no pescoço ou na cabeça e então passar dentro da
artéria cerebral média proximal ou suas divisões inferiores e superiores ou
em um dos ramos menores corticais. Ocasionalmente, o êmbolo pode entrar em outros ramos da artéria carótida intra-craniana, na artéria cerebral
anterior ou na artéria corióidea anterior.
Se um êmbolo entra em uma artéria vertebral no pescoço ou surge a
partir de uma artéria vertebral extracraniana mais frequentemente ele irá
dirigir-se rostralmente dentro da artéria vertebral intracraniana ipsilateral ou
irá ainda mais longe para alcançar a bifurcação da artéria basilar ou uma ou
ambas artérias cerebrais posteriores, ou das artérias cerebelares superiores
localizadas no topo da artéria basilar. Se o êmbolo for grande o suficiente,
ele pode obstruir a própria artéria basilar, levando à isquemia ou infarto
encefálico grave. Uma chuva de êmbolos pode bloquear múltiplas artérias
simultaneamente ou sequencialmente.
Fontes doadoras e seus materiais embólicos
A natureza do material embólico determina a profilaxia ou o tratamento
mais provável.
Fontes Cardíacas
Os êmbolos que surgem a partir do coração muitas vezes consistem de
trombos vermelhos de fibrina e eritrócitos que se formam no átrio ou na
superfície dos infartos miocárdicos ou dentro dos aneurismas ventriculares.
As fontes mais comuns de embolia a partir do coração são arritmias,
especialmente fibrilação atrial. Os trombos vermelhos se formam na
contração ineficiente, átrio esquerdo dilatado e apêndice atrial esquerdo;
doenças valvulares também são fontes comuns. Trombos brancos de
plaqueta e fibrina se formam ao longo de superfícies valvulares irregulares
e válvulas protéticas. Muitas vezes, os trombos brancos formam um ninho
para uma sobreposição de trombos vermelhos de modo que ambos estão
envolvidos no tromboembolismo. Em pacientes com lúpus eritematoso
sistêmico, síndrome do anticorpo fosfolipoide e câncer, uma valvulite
fibrinoide não trombótica se desenvolve e serve como ninho para coágulos
brancos. O cálcio presente nas válvulas aórticas calcificadas e as
calcificações no anel mitral podem libertar-se e embolizar o encéfalo.
Bactérias e fungos localizados em válvulas em pacientes com endocardite
infecciosa podem viajar pela corrente sanguínea e para dentro do crânio,
causando meningite, abscessos encefálicos e infartos, assim como artérias infectantes, causando aneurismas micóticos. O tecido tumoral presente em
mixomas e fibroelastomas cardíacos pode formar o material dos êmbolos.
FIGURA 9-25
Em alguns pacientes, os trombos vermelhos se originam em veias dos
membros e da pelve e embolizam para o coração direito. Então, passam através de defeitos no septo atrial ou do forame oval patente para dentro do
átrio esquerdo. Em seguida, eles então embolizam o encéfalo. Este processo
é chamado de embolia paradoxal. Um processo semelhante de trânsito
(shunt) da direita para a esquerda ocorre também em pacientes com fístulas
arteriovenosas nos pulmões.
Similarmente, êmbolos provenientes da aorta são compostos de
diferentes substâncias. Trombos brancos de plaquetas e fibrinas se formam
em fendas e superfícies irregulares. Estes coágulos brancos ativam a cascata
de coagulação e promovem a formação de trombos vermelhos em sua
superfície. Os trombos vermelhos frequentemente se formam dentro de
úlceras ou regiões de ruptura da placa. Trombos brancos e vermelhos
muitas vezes se rompem e alcançam o encéfalo. Placas protuberantes e
móveis grandes muitas vezes contêm trombos vermelhos. Cristais de
colesterol dentro das placas aórticas ou outros componentes complexos da
placa podem atingir o encéfalo. O cálcio também pode ser um componente
de êmbolo aortogênico.
Os êmbolos de artéria para artéria têm os mesmos componentes básicos
dos que surgem a partir da aorta: cálcio, fragmentos de colesterol, coágulos
vermelhos e brancos e assim por diante. Ocasionalmente ar, gordura e
corpos estranhos penetram na corrente sanguínea e embolizam para o
encéfalo e outras vísceras.
Tratamento
A seleção do tratamento para isquemia encefálica embólica aguda deve
considerar a natureza do material embólico. Fármacos trombolíticos, tais
como o ativador de plasminogênio do tecido recombinante (rt-PA), podem
levar à lise de coágulos vermelhos, mas são ineficazes contra coágulos
brancos. Os inibidores de glicoproteína IIB/IIIA que são ativos contra
pontes de plaqueta-fibrina podem potencialmente lisar coágulos brancos.
Estes tratamentos podem ser ineficazes contra cálcio, cristais de colesterol,
fragmentos de tumor, agentes infecciosos e materiais estranhos. Os métodos
mecânicos para a recuperação da embolia podem capturar diferentes
materiais.
Da mesma forma, a profilaxia contra a reembolização (prevenção
secundária) deve considerar a natureza do material embólico. As profilaxias mais eficazes contra a embolia em pacientes com endocardite infecciosa são
agentes antibacterianos e antifúngicos.
A prevenção secundária também depende da natureza das fontes
doadoras. A fibrilação atrial pode responder a antiarrítmicos ou a
procedimentos de ablação da via de condução cardíaca. As anormalidades e
defeitos septais intra-atriais podem ser reparados. Os aneurismas
ventriculares podem ser ressecados. Válvulas anormais podem ser reparadas
ou substituídas por válvulas protéticas. Tumores cardíacos podem ser
removidos. Cirurgiões têm operado ateromas aórticos protusos e no futuro
estas lesões podem ser atacadas por técnicas endovasculares. Lesões
arteriais são muitas vezes reparadas cirurgicamente ou usando tecnologia
endovascular na forma de angioplastia e/ou implante de stent.