Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Tratamento para Transtornos por Uso de Álcool

Tratamento para Transtornos por Uso de

 

Álcool

Nos Estados Unidos, transtornos por uso de álcool tinham uma taxa de

prevalência em 12 meses de 4,65% de uso abusivo de álcool e 3,81% de

dependência de álcool entre 2001 e 2002. O uso relatado de bebidas

alcoólicas (2010) entre pessoas acima de 12 anos de idade indica que 23%

consomem grandes quantidades de álcool de uma só vez (mais de cinco

drinks de uma só vez por dia, ou “porres”) e quase 7% são consumidores

pesados (consumo excessivo de álcool em cinco ou mais dias por mês);

contudo, menos de 2% da população que precisa de tratamento para uso

abusivo de substâncias recebem tratamento.

A triagem de transtornos por uso de álcool identifica indivíduos em risco

de desenvolver problemas relacionados com o álcool e os que já atendem

aos critérios de um transtorno por uso de álcool. Triagem baseada em

evidência, intervenção breve e encaminhamento a tratamento (SBIRT) é

uma estratégia recomendada para todos os pacientes e resulta em

intervenções mais precoces para consumidores em alto risco e menos

consumo de bebida alcoólica entre os portadores de um transtorno por uso

de álcool.

O tratamento para usuários de álcool em alto risco geralmente envolve

educação a respeito dos fatores de risco para desenvolver transtornos por

uso de álcool e problemas relacionados com o álcool, uma revisão das

diretrizes do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA)

ao consumo de “baixo risco” e uma intervenção breve consistindo em

aconselhamento para reduzir o consumo ou abster-se de beber e

encaminhamento a ferramentas de autoajuda, como manter um calendário

de consumo, escrever as razões para reduzir ou parar, estabelecimento de

metas semanais de redução que são revisadas com um médico ou uma

pessoa de apoio, redução do estresse, adoção de atividades de lazer

saudáveis e apoios sociais sóbrios e consideração de grupos de ajuda mútua,

como os Alcoólicos Anônimos (AA) ou o programa de recuperação

SMART Recovery.

O tratamento para transtornos por uso de álcool começa com uma

avaliação da necessidade de desintoxicação médica em virtude da dependência fisiológica para pessoas em risco de sofrer síndromes de

abstinência de álcool perigosas; trata-se de algo especialmente importante

para pacientes com condições concomitantes como hipertensão, diabetes

melito, transtornos convulsivos e história de risco de suicídio. A

desintoxicação pode ser monitorada em bases ambulatoriais, porém muitos

pacientes precisarão de desintoxicação com internação para prevenir a

recaída. Pacientes clinicamente estáveis com transtornos por uso de álcool

são encaminhados a aconselhamento profissional para reduzir o consumo e

prevenir recaídas e a grupos de apoio (a participação no AA dobra a

eficácia do aconselhamento profissional). Para indivíduos dependentes de

álcool, a abstenção de álcool é mais efetiva em manter os ganhos da

recuperação.

Médicos de atendimento primário têm um papel importante no

tratamento da dependência de álcool usando modelos de abordagem clínica

aos cuidados. Esse tipo de abordagem consiste em (1) consultas frequentes

para avaliar o progresso e a saúde, (2) educação a respeito dos transtornos

por uso de álcool, (3) prescrição e monitoramento da tolerância e da

adesão a uma medicação para alcoolismo, (5) estimulação da participação

em grupos de apoio ou aconselhamento especializado, se indicado, e (6)

triagem e tratamento de transtornos que comumente concorrem com

transtornos por uso de álcool (p. ex., doença clínica ou mental, violência

doméstica). Existem três medicações aprovadas pela FDA e uma não

aprovada pela FDA para tratar a dependência de álcool. Essas medicações

estão rapidamente revisadas a seguir.

 

Naltrexona

Um antagonista mu dos receptores opioides centrais, a naltrexona atenua a

recompensa mediada por opioide da bebida e reduz clinicamente a ânsia,

relapsos e dias de bebida, além de aumentar a probabilidade de conter o

consumo recorrente de álcool em um episódio breve em vez do relapso

completo. A naltrexona está disponível em uma dosagem oral diária e em

uma formulação intramuscular mensal de liberação estendida que melhora a

adesão. A medicação acarreta risco de hepatotoxicidade e é contraindicada

aos portadores de doença hepática e aos que precisam de analgesia narcótica. A naltrexona é atualmente a única medicação baseada em

evidência para a dependência geriátrica de álcool.

 

Acamprosato (Acetilhomotaurinato)

Um neuromodulador do glutamato, o acamprosato é uma medicação

promotora da abstinência apropriada a pacientes que conseguiram a

abstinência primária. Ele aumenta o tempo até o próximo relapso alcoólico.

O agente é metabolizado no rim, oferecendo uma boa escolha para os

portadores de doença hepática. Entretanto, ele tem uma biodisponibilidade

desfavorável, e o esquema posológico em três doses diárias divididas pode

pôr em risco a adesão.

 

Dissulfiram

Esse inibidor de aldeído desidrogenase impede a conversão metabólica

final de etanol em água; seu uso resulta no acúmulo de metabólitos tóxicos

de acetaldeído, levando a rubor, cefaleia, hipertensão, sudorese e

náuseas/vômitos. O dissulfiram é mais efetivo em reduzir as recompensas

antecipadas do álcool e, assim, reduz os dias de etilismo. A adesão é

problemática, e há um risco de 1 em 50.000 de hepatotoxicidade fulminante

idiopática; dessa forma, o monitoramento hepático atento é necessário. O

agente é contraindicado aos portadores de instabilidade autonômica (p. ex.,

diabetes). É o tratamento preferencial para profissionais prejudicados e pais

em risco de perder a custódia dos filhos.

 

Topiramato

O topiramato é um medicamento não aprovado pela FDA, porém baseado

em evidências, que reduz o alcoolismo em pacientes dependentes de álcool

que buscam tratamento.

Esse potencializador GABaérgico pode ser administrado a pacientes que

buscam tratamento para dependência de álcool que estejam bebendo

ativamente, mas desejam reduzir e estão dispostos a se empenhar em metas

para reduzir o etilismo e aderir à medicação. O topiramato reduz os dias de

etilismo pesado e promove a abstinência. Em virtude do seu metabolismo

renal, é contraindicado no contexto de cálculos renais ou glaucoma.