Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Hemorragia Subaracnoide e Aneurismas Intracranianos
Hemorragia Subaracnoide e Aneurismas
Intracranianos
A ruptura de um aneurisma intracraniano é a principal causa de hemorragia
subaracnoide não traumática (HSA), que responde por aproximadamente
5% de todos os casos de AVE. A incidência de HSA não diminuiu; ela
ocorre em aproximadamente 30.000 americanos anualmente. Além do
sangramento no espaço subaracnoide (HSA) uma ruptura de aneurisma
também pode produzir hemorragia intraventricular ou hemorragia
intraencefálica. Pacientes com HSA estão em estado crítico, a mortalidade
em 1 mês se aproxima de 50% e muitos pacientes morrem antes de chegar
ao atendimento médico. Muitos sobreviventes têm sequelas neurológicas
graves, incluindo deficiências cognitivas e redução da qualidade de vida.
Aneurismas saculares são as causas mais comuns de HSA espontânea.
Aneurismas não saculares incluem fusiforme (dolicoectásicos), dissecante,
infeccioso (micótico), neoplásico e lesões pós-traumáticas. Os aneurismas
dolicoectásicos e dissecantes que estão associados a HSA estão geralmente
na circulação posterior. Aneurismas infecciosos micóticos e neoplásicos
geralmente são encontrados em ramos distais das artérias. A hemorragia
perimesencefálica, que é confirmada pela presença de sangue nos espaços
em torno do tronco encefálico detectada por tomografia computadorizada
(TC) é um diagnóstico alternativo para a ruptura de um aneurisma.
Aneurismas saculares são encontrados em cerca de 2% a 5% dos adultos,
e na maioria dos casos, pessoas vivem suas vidas inteiras sem ter sintomas
secundários a estas lesões de aneurismas. As localizações de aneurismas
saculares são locais com predileção para estresse hemodinâmico, ou seja,
nas bifurcações das grandes artérias intracranianas. Aproximadamente 85%
dos aneurismas saculares surgem adjacentes ao círculo de Willis; as
localizações mais comuns são a artéria comunicante anterior, a bifurcação
da artéria cerebral média, ou a junção da artéria carótida interna e da artéria
comunicante posterior.
A ausência de uma segunda camada de lâmina elástica interna em artérias
intracranianas provavelmente desempenha um papel na evolução do
aneurisma. A parede de um aneurisma sacular contém a íntima, a média e a
adventícia e a espessura da parede pode ser muito fina, particularmente na cúpula. Embora os aneurismas sejam muitas vezes bastante grandes, o colo
do aneurisma (área adjacente à artéria principal) pode ser bastante pequeno.
Há crescimento do aneurisma durante a idade adulta.
FIGURA 9-40
HSA e aneurismas afetam homens e mulheres de todos os grupos étnicos.
A frequência de uma HSA por aneurisma é baixa em crianças. Apesar da ruptura de um aneurisma poder causar HSA em adultos de qualquer idade, o
pico de idade para a doença é a sexta década. O risco de hemorragia
subaracnoide é maior em indivíduos que fumam ou têm hipertensão; a
associação com o tabagismo é especialmente forte em mulheres e naquelas
que usam contraceptivos orais. O uso de fármacos simpaticomiméticos
pode incitar a ruptura do aneurisma, presumivelmente através de um
repentino aumento da pressão arterial. O risco de HSA também pode ser
aumentado durante períodos de aumento da atividade física ou estresse
emocional. Estas lesões em formas globulares são classificadas como
pequenas (< do que 10 mm de diâmetro), grandes (10 a 25 mm) ou gigantes
(>25 mm) (Fig. 9-40). O risco de hemorragia aumenta com o crescimento
do aneurisma. Aproximadamente 25% dos pacientes terão mais de um
aneurisma.
Aproximadamente 10% dos pacientes com HSA relatam um parente que
tenha tido a doença e assim o risco de hemorragia aumenta quando há
história familiar conhecida de hemorragias aneurismáticas. Aneurismas
saculares têm associação clínica significativa com doença renal policística
dominante. Algumas vezes a presença de um aneurisma está associada à
doença/síndrome de moyamoya, coarctação da aorta, displasia
fibromuscular, malformações vasculares encefálicas, síndrome de Ehlers-
Danlos e síndrome de Marfan. Atualmente, estudos estão sendo
direcionados para procurar uma ligação genética que predisponha
indivíduos a desenvolver aneurismas intracranianos, mas até esta data,
nenhum loco genético está estabelecido. Tal achado seria útil para seleção
dos familiares. Devido à alta prevalência de aneurismas intracranianos na
população em geral, a recomendação atual é apenas realizar triagem
hereditária (no momento, com exames de imagem vascular como
angiografia por ressonância magnética [ARM] ou angiografia por
tomografia computadorizada [ATC]), quando pelo menos dois parentes de
primeiro grau têm história de aneurismas. O paciente potencialmente
afetado precisa ser aconselhado sobre as implicações da detecção de outra
forma assintomática de aneurisma intracraniano.
Embora a HSA seja a apresentação clínica mais temida e mais comum de
um aneurisma sacular, há outras configurações em que um aneurisma pode
ter atenção médica. Uma lesão assintomática pode ser detectada por
imagem do encéfalo ou vascular realizada para outra indicação, como, por exemplo, para avaliação de dores de cabeça crônicas. Raramente, um
aneurisma gigante pode ser uma fonte de trombos que migram para uma
artéria intracraniana distal e causam um AVE isquêmico ou um ataque
isquêmico transitório. Ocasionalmente aneurismas gigantes podem causar
compressão das estruturas neurológicas adjacentes; o quadro clínico mais
comum é a compressão do nervo oculomotor (III) por um aneurisma situado
na bifurcação da artéria basilar ou da artéria comunicante posterior (Fig. 9-
40). Um aneurisma gigante intracavernoso pode causar múltiplas paralisias
de nervos cranianos, provocando uma oftalmoplegia ipsilateral e perda da
sensibilidade facial.
FIGURA 9-41
O reconhecimento imediato da HSA é fundamental para o tratamento ter
sucesso. Infelizmente, a demora do diagnóstico pode ocorrer em aproximadamente 5% a 15% dos casos, e tais diagnósticos errados são mais
comuns entre as pessoas menos seriamente afetadas em quem o prognóstico
é mais favorável uma vez diagnosticado. Diagnósticos alternativos comuns
incluem sinusite, cefaleia tensional, enxaqueca, meningite viral, hérnia de
disco cervical, abuso de drogas ou álcool e AVE isquêmico. Infelizmente, a
demora subsequente no atendimento tem sérias implicações, incluindo
deixar o paciente em risco de hemorragia recorrente ou outras grandes
implicações neurológicas. Estes atrasos no diagnóstico ocorrem apesar de
uma apresentação relativamente estereotipada.
A HSA é geralmente um evento muito sério. O sintoma principal é o
início cataclísmico de uma dor de cabeça extremamente grave, muitas vezes
descrita como absolutamente a pior dor que o paciente já experimentou
(Fig. 9-39). Às vezes a dor de cabeça está associada à perda transitória de
consciência, convulsões, ou um período prolongado de apatia. Outros
sintomas incluem náuseas, vômitos, fotofobia, fonofobia, e dor no pescoço.
Alguns pacientes podem parecer levemente doentes enquanto reclamam de
dor de cabeça intensa. Outros pacientes podem parecer criticamente
doentes. Frequentemente, os sinais vitais estão instáveis, com pulso
irregular e pressão sanguínea volátil. Deficiências neurológicas focais
podem ser sutis, e na maioria dos casos, sem sinais localizatórios
encontrados. A paralisia do nervo oculomotor (III) com pupila não reativa é
o sinal diagnóstico mais comum e clinicamente útil (Fig. 9-41). Outros
sinais oculares incluem hemorragias intraoculares (sub-hialoides) que são
mais comumente observadas em pacientes gravemente doentes. A presença
de hemorragia intraocular em um paciente comatoso aponta para o
diagnóstico de hemorragia intracraniana e, em particular, a ruptura de um
aneurisma. Se o sangramento do aneurisma está associado a um grande
hematoma localizado ou extensão intraencefálica da hemorragia, o paciente
deve ter uma paraparesia, hemiparesia ou afasia. Embora a rigidez da nuca
geralmente seja encontrada, pode levar várias horas para este sinal aparecer.
FIGURA 9-42
O advento da TC com sua atual disponibilidade generalizada tem
revolucionado a avaliação de pacientes com suspeita de HSA. É um teste diagnóstico extraordinariamente sensível. Ele não é invasivo e é
relativamente barato. O estudo será anormal em quase todos os pacientes
com HSA.
Em raras ocasiões, uma varredura de TC pode não demonstrar
hemorragias menores, particularmente em um paciente alerta cuja
hemorragia está restrita à fossa posterior ou em alguém cuja hemorragia
ocorreu dias ou semanas antes. O intervalo de tempo entre a HSA e o
desempenho do teste também afeta o rendimento; o exame irá mostrar
sangue subaracnóideo em aproximadamente 95% dos casos verificados no
dia do evento, mas a frequência da detecção do sangramento cai
rapidamente após alguns dias. Além de detectar sangue no espaço
subaracnoide, a TC também pode demonstrar hemorragia intraventricular
ou intraencefálico, hidrocefalia, edema encefálico ou um efeito de massa. A
localização e o padrão da hemorragia podem ser úteis para determinar o
local específico do aneurisma roto, e estes resultados podem ser usados para
prever o desenvolvimento de vasoespasmo. Sempre que há agravamento
neurológico, uma segunda TC é indicada para buscar a evidência de
hemorragia recorrente.
A ressonância magnética também pode ser utilizada para buscar por
HSA. A imagem vascular, como a ATC ou a ARM, é realizada para mostrar
a lesão arterial. A angiografia por subtração digital geralmente é realizada
para definir o aneurisma e a vasculatura adjacente, particularmente para
rastrear a presença de vasoespasmo.
O papel da punção lombar diminuiu com o advento da imagem
encefálica. Se a TC demonstra HSA, não há necessidade de exame do
líquido cerebroespinal (LCE)/líquido cefaloraquidiano (LCR) (Fig. 9-39).
No entanto, se há suspeita diagnóstica de HSA e a TC é negativa, a
avaliação do LCR está definitivamente indicada. Quando a HSA se
desenvolve, há sangue no LCR e a sua pressão está muitas vezes elevada.
Com a centrifugação, o LCR parece xantocrômico, o que é um importante
componente de estudo, porque este achado ajuda a diferenciar uma
verdadeira HAS de uma punção lombar traumática. No primeiro caso, a
xantocromia é evidente; no último caso, não há xantocromia. Estudos
adicionais de diagnóstico incluem eletrocardiograma, coagulograma,
hemograma completo, estudo da função renal e eletrólitos. Estes testes são
feitos para buscar por comorbidades ou complicações médicas da HSA.
FIGURA 9-43
Muitas das causas de morte ou invalidez ocorrem nos primeiros dias da
HSA, incluindo as consequências clínicas e neurológicas da hemorragia inicial. Complicações iniciais incluem arritmias cardíacas, edema pulmonar,
distúrbios eletrolíticos, hidrocefalia aguda e convulsões. O risco de
hemorragia aneurismal recorrente pode ser tão alto quanto 4% nas primeiras
24 horas e 20% nos primeiros 10 dias. A hemorragia recorrente tem um
grande impacto negativo no prognóstico. O vasoespasmo, que é uma
síndrome constritiva arterial grave tem seu pico em aproximadamente 1
semana após a HSA e geralmente afeta artérias intracranianas adjacentes,
podendo causar infarto encefálico secundário.
O tratamento precoce de pacientes com HSA envolve uma equipe
integrada e multidisciplinar de neurologistas, neurocirurgiões, médicos
neurointervencionistas e médicos de unidade de terapia intensiva. Os
pacientes devem ser hospitalizados em uma unidade de AVE ou em uma
unidade de terapia intensiva com monitoração frequente dos sinais vitais e
do estado neurológico. Aqueles indivíduos que tenham um declínio na
consciência ou vias respiratórias comprometidas são entubados. São
instituídas medidas para prevenir e tratar arritmias cardíacas, hipertensão,
distúrbios metabólicos ou eletrolíticos ou outras complicações médicas. O
aumento da pressão intracraniana é controlado com a colocação de um
dreno ventricular ou com medicamentos como solução salina hipertônica ou
manitol. Sintomas como dor, náuseas, vômitos ou agitação devem ser
tratados clinicamente.
Tanto o clipamento cirúrgico do aneurisma quanto a oclusão
endovascular (colocação de molas) são realizados assim que a condição do
paciente permita. O objetivo é prevenir a hemorragia recorrente. A
nimodipina é aprovada para a prevenção de isquemia encefálica secundária
ao vasoespasmo. Pacientes que desenvolvem sintomas isquêmicos são
tratados com hemodiluição hipervolêmica e hipertensão induzida;
administração de vasodilatadores intra-arteriais ou angioplastia,
dependendo da gravidade do vasoespasmo.