Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
AVE Lacunar
FIGURA 9-26
AVE Lacunar As artérias penetrantes são ramos que suprem as porções mais profundas do
encéfalo. Elas têm origem em cerca de 90 graus a partir de suas artérias
parentes. Os mais proeminentes destes vasos são: ramos lenticuloestriados
das artérias cerebrais médias, ramos das artérias de Huebner das artérias
cerebrais anteriores, ramos talamogeniculados das artérias cerebrais
posteriores e ramos da artéria basilar paramediana. Estas artérias suportam
muito do impacto da hipertensão. A oclusão destas artérias penetrantes
causa lacunas – pequenos infartos profundos.
Infartos lacunares
Infartos lacunares são lesões diminutas, discretas, variando de 1 a 2 mm de
tamanho. Os locais mais comuns são o putâmen e o pálido, seguidos pela
ponte, tálamo, núcleo caudado, cápsula interna e coroa radiada. Mais raras
são as lacunas nos pedúnculos encefálicos, pirâmide e substância branca
subcortical. Lacunas não são encontradas nos córtices encefálico e
cerebelar.
As duas patologias mais comuns que afetam as artérias penetrantes são
lipo-hialinose e doença ateromatosa do ramo. Cortes seriados de artérias
penetrantes que suprem o território dos infartos lacunares muitas vezes têm
alargamentos focais e extravasamentos pequenos através das paredes das
artérias. Um aumento de células subintimais algumas vezes oblitera o
lúmen e um material fibrinoide de coloração rosa repousa dentro das
paredes dos vasos. Os segmentos arteriais são frequentemente substituídos
por espirais, emaranhados e tufos de tecido conjuntivo que obliteram as
camadas vasculares habituais. Esta patologia vascular tem sido chamada de
desorganização arterial segmentar, degeneração fibrinoide e lipo-hialinose.
A hipertensão é o mecanismo patofisiológico predominante. A distribuição
de hemorragias hipertensivas profundas é a mesma que a localização das
lacunas (putâmen, cápsula, tálamo, ponte). Artérias com lipo-hialinose
podem ocluir causando infarto lacunar, ou sofrer ruptura, causando
hemorragia intraencefálica.
A doença ateromatosa do ramo intraencefálico também tem efeito no
tecido encefálico suprido pelas artérias penetrantes. Nesta condição, os
orifícios das artérias penetrantes são bloqueados por ateroma na artéria
principal. O ateroma pode ter origem na artéria principal e se estender até o ramo, ou um microateroma pode surgir na origem do próprio ramo. O
trombo é por vezes sobreposto aos ateromas. Esta vasculopatia é algumas
vezes referida como doença microateromatosa. Infartos pontinos são as
lesões neuropatológicas mais frequentes encontradas em necropsias de
diabéticos e, na maioria dos casos, são causados por doença ateromatosa do
ramo.
Duas condições genéticas também são conhecidas por afetar
predominantemente estes pequenos vasos penetrantes: arteriopatia
encefálica dominante autossômica com infartos subcorticais e
leucoencefalopatia (CADASIL) e COL 4, mutações A1. No CADASIL as
artérias penetrantes contêm um material granular na camada média que se
estende até a adventícia. Células musculares lisas na camada média estão
inchadas e frequentemente degeneradas, e o endotélio pode estar ausente e
ser substituído por fibras colágenas. Esta condição hereditária causa infartos
lacunares no núcleo da base e na substância branca encefálica, similares
àqueles encontrados em pacientes hipertensos.
Uma condição angiopática hereditária associada a mutações em um gene
que codifica o pró-colágeno tipo 4 alfa 1 (COL 4, A1) tem efeitos sobre as
pequenas artérias encefálicas assim como em grandes artérias encefálicas e
retinianas. Os achados clínicos incluem hemorragias perinatais e
porencefalia, tendência a hemorragias encefálicas após trauma, tortuosidade
da artéria da retina, aneurisma encefálico, infartos relacionados com a
artéria penetrante, gliose da substância branca e doenças renais.
FIGURA 9-27
Diagnóstico A imagem da doença ateromatosa do ramo intraencefálico pode ser feita
usando ressonância magnética de alta resolução (RM). Placas na artéria
cerebral média podem ser mostradas incidindo sobre ou ocluindo ramos
penetrantes através de técnicas de RM que mostram secções axiais das
origens dos ramos a partir das artérias principais.
Diferencial
A condição mais importante para separar destas “micropatologias” é a
oclusão de artérias principais bloqueando o fluxo nos ramos das artérias
penetrantes. Em pacientes de origem asiática, especialmente do Japão,
Coreia e China, pequenos infartos profundos são geralmente causados por
doença oclusiva das artérias principais intracranianas grandes. Quando
pequenos infartos profundos são causados por doença oclusiva grave das
grandes artérias principais intracranianas, os infartos são um pouco maiores
e a recorrência é mais comum do que em infartos causados por doença
intrínseca das artérias penetrantes.
Apresentações clínicas
As síndromes clínicas mais comuns causadas por infarto lacunar são
hemiparesia motora pura (fraqueza da face, braço e perna em um lado do
corpo sem anormalidades sensitivas, visuais ou cognitivas), AVE sensitivo
puro (perda hemissensitiva sem outros sinais), síndrome da mão desajeitada
— disartria e hemiparesia atáxica.
Doença vascular subcortical crônica
Lacunas múltiplas, gliose da substância branca e atrofia quase sempre
ocorrem em conjunto e são acompanhadas por anormalidades generalizadas
de pequenas artérias penetrantes. Quando grave e clinicamente evidente,
esta microvasculopatia crônica é frequentemente chamada de doença de
Binswanger. Nesta condição, a substância branca encefálica tem áreas
confluentes de tecido mole, enrugado e granulado. Estas áreas são desiguais
e predominam nos lobos occipitais e na substância branca periventricular,
especialmente anteriormente e próximo à superfície ventricular. A
substância branca cerebelar também está frequentemente envolvida. Os
ventrículos estão aumentados e por vezes, o corpo caloso é pequeno. O volume da substância branca está reduzido, mas o córtex é geralmente
poupado. Há quase sempre algumas lacunas. Um estudo microscópico
mostra palidez mielinínica. Normalmente, a palidez mielínica não é
homogênea, mas ilhas de diminuição da mielinização estão rodeadas por
tecido normal. A gliose é proeminente em zonas de palidez mielínica. As
paredes das artérias penetrantes são espessas e hialinizadas, mas a oclusão
das pequenas artérias é rara. Pacientes ocasionais com Binswanger, com
mudanças na substância branca tinham angiopatia amiloide e CADASIL
como patologia vascular subjacente. Nestes pacientes, as artérias dentro do
córtex encefálico e as leptomeninges estão espessadas e contêm uma
substância congofílica. O quadro clínico em pacientes com anormalidades
na substância branca de Binswanger é variável. A maioria dos pacientes
tem função cognitiva e comportamento anormais. Perda da memória,
alterações afásicas e disfunção visual-espacial também são encontradas.
Paralisia pseudobulbar, sinais piramidais, reflexos extensores plantares e
anormalidades na marcha são comuns. Os achados clínicos muitas vezes
progridem gradualmente ou passo a passo com pioras durante o período de
dias a semanas. Muitas vezes, há períodos de platô com relativa estabilidade
clínica. Muitos pacientes também têm AVEs lacunares agudos e se
apresentam clinicamente com hemiparesia. A RM define toda a extensão do
envolvimento da substância branca e tem uma resolução espacial que
permite a detecção de lesões lacunares pequenas. A imagem com sequência
de difusão pode mesmo até mostrar pequenos infartos agudos e subagudos
com grande precisão.