Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Isquemia da Circulação Anterior
FIGURA 9-10
Isquemia da Circulação Anterior
Etiologia
A etiologia mais comum da doença da artéria carótida interna é a
aterosclerose que ocorre mais predominantemente em caucasianos e em idosos. Outras etiologias incluem dissecção arterial, displasia fibromuscular
e arterite de células gigantes.
A aterosclerose provoca estenose ou oclusão das artérias extracranianas e
intracranianas e é diretamente responsável por uma porcentagem
significativa dos eventos encefálicos sistêmicos. A formação do ateroma
envolve a deposição progressiva de lipídios circulantes e por fim, tecido
fibroso na camada subíntima das grandes e médias, artérias ocorrendo mais
frequentemente em pontos de ramificação. A formação da placa é reforçada
por fatores inflamatórios associados ao sangue, assim como um aumento da
lesão de cisalhamento vinda da pressão arterial não controlada. A
hemorragia intraplaca, a necrose subíntima com formação de úlceras e a
deposição de cálcio podem causar aumento da placa aterosclerótica com
consequente agravamento do grau de estreitamento arterial.
A interrupção da superfície endotelial provoca a formação de trombo
dentro do lúmen arterial através da ativação das plaquetas próximas da
matriz subendotelial. Quando as plaquetas são ativadas, elas liberam
tromboxane A causando agregação plaquetária adicional. O 2,
desenvolvimento de uma rede de fibrina estabiliza o agregado plaquetário,
formando um “trombo branco”. Em áreas de fluxo turbulento ou retardado
dentro ou em torno da placa, o trombo se desenvolve mais, emaranhando as
células vermelhas do sangue (RBCs) no agregado de fibrina-plaquetas para
formar os “trombos vermelhos”. Este continua a ser mal organizado e frágil
por até duas semanas e apresenta um risco significativo de propagação e
embolização. Tanto o trombo branco quanto o vermelho, no entanto, podem
se desalojar e embolizar os ramos arteriais distais.
Os principais fatores de risco para doença aterosclerótica da artéria
carótida são hipertensão arterial, diabetes, hipercolesterolemia e tabagismo.
Locais frequentes de aterosclerose da circulação anterior são a origem da
artéria carótida interna (ACI), o sifão carotídeo e os ramos principais da
artéria encefálica média (AEM) e da artéria encefálica anterior (AEA) (Fig.
9-10). A artéria carótida interna, na bifurcação ou próxima a ela, está
geralmente afetada em populações caucasianas, enquanto em asiáticas,
latino-americanas, afro-americanas, a aterosclerose intracraniana é mais
comum do que a doença da artéria carótida no pescoço.
A dissecção da ACI extracraniana geralmente ocorre em pacientes com
idade entre 20 e 50 anos e comumente envolve seus segmentos distais e
faríngeos. A dissecção ocorrendo entre a íntima e a média geralmente
provoca estenose ou oclusão da artéria afetada, enquanto a dissecção entre a
média e a adventícia está associada a dilatação aneurismática (Fig. 9-11, A e
B). Anormalidades congênitas na camada média ou elástica das artérias
como vistas na síndrome de Marfan, displasia fibromuscular, osteogênese
imperfeita, e necrose cística medial podem predispor pacientes à dissecção
arterial. Embora muitas vezes associada ao trauma agudo, a dissecção
arterial pode resultar de incidentes aparentemente inócuos, como de uma
queda durante uma caminhada ou esqui, atividades esportivas
(particularmente lutas ou mergulhos em ondas) e paroxismos de tosse que
estiram a artéria.
Dissecções intracranianas espontâneas da ACI são incomuns quando
comparadas com dissecções da sua porção cervical. Embora os primeiros
relatos descrevam prognósticos muito ruins com AVEs extensos e taxas de
mortalidade muito altas, estudos mais recentes têm mostrado resultados
relativamente melhores com pacientes que sobrevivem com pouco déficit
ou déficit moderado. Estudos de imagem geralmente mostram estreitamento
da ACI supraclinoidea, com extensão para a AEM ou AEA e, menos
comumente, formação de aneurisma (Fig. 9-11, C-F).
FIGURA 9-11
A displasia fibromuscular é uma angiopatia não aterosclerótica, não
inflamatória, caracterizada por mudanças fibrodisplásicas de etiologia obscura. Ela ocorre predominantemente em mulheres em idade fértil, e
muitas vezes afeta as artérias do pescoço, a maioria das vezes a porção
faríngea da artéria carótida interna. A doença intracraniana é muito mais
rara. As lesões têm a característica de um aspecto em contas que podem ser
detectadas por angiografia por ressonância magnética (ARM), angiografia
por tomografia computadorizada (ATC) ou angiografias convencionais (Fig.
9-11, G). A displasia fibromuscular é um fator predisponente para
dissecções carótidas cervicais espontâneas e consequentes AVEs; no
entanto, AVEs também podem ser causados por tromboembolismo
secundário à displasia fibromuscular.
A artrite das células gigantes é uma forma comum de vasculopatia
sistêmica que afeta pacientes com mais de 50 anos de idade. Embora ela
tipicamente envolva as artérias temporal, maxilar e oftálmica, raramente
pode afetar o sifão da artéria carótida interna, algumas vezes produzindo
estenose bilateral.
Manifestações clínicas
AITs em pacientes com doença da artéria carótida normalmente precedem o
início de um AVE por alguns dias ou meses. AITs causados por embolia
intra-arterial de uma fonte carótida, não são estereotipados e os sintomas
variam dependendo de qual ramo da ACI está envolvido. Em contraste,
AITs hemodinâmicos que “agitam os membros” são muitas vezes
estereotipados e posturalmente relacionados e são geralmente vistos em
pacientes com alto grau de estenose ou oclusão ACI. Neste clássico
exemplo de isquemia hemodinâmica, pacientes têm movimentos
recorrentes, involuntários e irregulares do braço ou perna contralateral, ou
de ambos, geralmente desencadeados por alterações posturais e duram
alguns minutos.
Outro indício importante para a doença da ACI é o desenvolvimento de
episódios de cegueira monocular transitória (CMT) (Fig. 9-12). A CMT se
refere à ocorrência de perda ou obscurecimento temporário visual
unilateral, que é descrita por observadores cuidadosos como “uma sombra
sendo desenhada sobre um olho” na horizontal ou na vertical, mas mais
frequentemente descrita como “névoa” ou “borrão” em um olho com
duração de 1 a 5 minutos. Ela muitas vezes ocorre espontaneamente, mas muitas vezes é desencadeada por mudanças de posição. Fenômenos
positivos, como brilhos, luzes, ou cores evoluindo ao longo de minutos, são
típicos do fenômeno da enxaqueca e ajudam a diferenciar tais alterações
visuais benignas da mais séria CMT, um prenúncio frequente de infarto
encefálico dentro do território da artéria carótida interna. Raramente, pode
ser relatado escurecimento ou perda de visão gradual com a exposição à luz
brilhante, como um brilho da neve com um fundo iluminado pelo sol, na
estenose crítica da carótida interna ipsilateral e é decorrente da limitação do
fluxo vascular em face ao aumento da demanda metabólica da retina.
FIGURA 9-12
AVEs de embolia intra-arterial a partir da doença da ACI são geralmente
localizados corticalmente (Fig. 9-12). Os sintomas dependem de que ramos
são envolvidos: AEM, AEA ou ambas (Fig. 9-13). O território da artéria
encefálica posterior (AEP) raramente pode ser afetado por êmbolos intra-
arteriais de estenose ou oclusão da ACI ipsilateral em pacientes com ACP
fetal persistente originada da ACI.
Os achados neurológicos variam com a localização da oclusão e a
adequação da circulação colateral. Um AVE com grande território em AEM
é geralmente observado em pacientes com oclusão do tronco principal da
AEM sem boa circulação colateral, enquanto AVEs profundos ou
parasylvianos são as apresentações mais comuns quando a suficiente do
fluxo colateral está presente ao longo das convexidades. A fraqueza motora
contralateral envolvendo o pé mais do que a coxa e o ombro, com relativa
preservação da mão e da face, é a manifestação típica da oclusão do ramo
distal da AEA. Por outro lado, mudanças cognitivas e comportamentais
proeminentes associadas a hemiparesia contralateral predominam em
pacientes com oclusões proximais de AEA, devido ao envolvimento da
artéria recorrente de Huebner.
AVEs hemodinâmicos geralmente envolvem o território limite entre a
AEA e a AEM (zona de limite anterior), a AEM e a ACP (zona da borda
posterior), ou entre perfuradores superficiais e profundos (zona de limite
subcortical) e causam os sintomas clínicos típicos descritos na Figura 9-12.
Embora AITs possam ocorrer em doenças oclusivas intrínsecas da AEM
e da AEA, elas não são tão comuns quanto em pacientes com doença da
ACI e geralmente ocorrem em um curto período de horas ou dias. Quando
os AVEs ocorrem, os sintomas iniciais são geralmente notados ao despertar
e muitas vezes oscilam durante o dia, sustentando um mecanismo
hemodinâmico.
O infarto isolado no território da artéria corioide anterior não é comum.
O quadro clínico clássico inclui hemiplegia, hemianestesia e hemianopsia
homônima, mas formas incompletas desta síndrome são mais
frequentemente vistas. A negligência espacial do lado esquerdo e as
dificuldades suaves na fala podem acompanhar as lesões do lado direito e
do lado esquerdo, respectivamente. A doença dos pequenos vasos é o
mecanismo mais comum de AVEs corioideas anteriores; no entanto,
grandes AVEs neste território também têm sido associados a
cardioembolismo e doença da artéria carótida intracraniana ipsilateral.
A dor ipsilateral envolvendo o olho, a têmpora ou a fronte e a síndrome
de Horner ipsilateral secundária ao envolvimento de fibras simpáticas ao
longo da parede da artéria carótida interna são comuns em pacientes com
dissecção da artéria carótida extracraniana e sua presença ajuda com o
diagnóstico clínico. Os AITs e/ou os AVEs geralmente ocorrem vários dias
após o início dos sintomas e são geralmente causados por embolia intra-
arterial.
FIGURA 9-13
Graves dores de cabeça retro-orbitais ou temporais também são
frequentes em pacientes com dissecções intracranianas; no entanto, os sinais neurológicos, mais comuns na hemiparesia contralateral, tendem a se
seguir quase que imediatamente ao aparecimento da dor de cabeça. Os
déficits neurológicos tendem a flutuar nas duas primeiras semanas do início
dos sintomas, provavelmente refletindo a hipoperfusão encefálica.
Diagnóstico
O diagnóstico da isquemia da circulação anterior é frequentemente feito por
métodos não invasivos, incluindo técnicas de ultrassom, tomografia
computadorizada e técnicas de imagem por ressonância magnética (Figs. 9-
14 e 9-15). A angiografia digital continua sendo o padrão-ouro para a
avaliação da vasculatura supra-aórtica. Porém, devido aos seus potenciais
riscos de complicações neurológicas, esta técnica é reservada para pacientes
selecionados quando o diagnóstico ainda não ficou claro após um teste não
invasivo.
O ultrassom das artérias carótidas em sua bifurcação no pescoço pode
determinar a presença de doença crítica estenótica da artéria extracraniana,
assim como pode caracterizar as placas carótidas como “moles” consistindo
de depósitos de colesterol e coágulos. As placas “moles” são mais
propensas à ulceração e causam embolia de artéria-para-artéria. As placas
“duras” são aquelas que fibrosaram e calcificaram com o tempo; elas são
uma fonte menos comum de êmbolos. O papel da ultrasonografia na
detecção da dissecção da artéria carótida interna, displasia fibromuscular ou
arterite das células gigantes é mais limitado, porque lesões frequentemente
ocorrem em suas porções faríngeas ou distais a ela, e apenas sinais indiretos
da oclusão carótida distal são encontrados. O Doppler transcraniano pode
avaliar a permeabilidade das artérias intracranianas; os padrões de fluxo
colateral através do círculo de Willis também podem ser usados para
monitoração de êmbolos (Fig. 9-14).
Avanços tanto na ATC quanto na ARM com contraste permitem a
avaliação de toda a árvore supra-aórtica, a partir do arco aórtico até o
círculo de Willis. Cada uma destas técnicas é extremamente valiosa na
avaliação do grau de estenose em pacientes com doença aterosclerótica
intra e extracranianas, assim como na caracterização da placa (Figs. 9-14 e
9-15). Estudos recentes têm demonstrado que a ATC multidetectora tem
uma sensibilidade de 98% a 100% e especificidade de 96% a 100% para a detecção de estenose grave da carótida comparada com a angiografia,
enquanto a ARM com contraste tem uma sensibilidade de 93% a 98% e
uma especificidade de 96% a 100%. Em relação à caracterização da placa, a
RM é capaz de definir qualitativa e quantitativamente a morfologia da placa
carotídea, assim como identificar características de placas vulneráveis, tais
como hemorragia intraplaca. Já a ATC é capaz de identificar com precisão a
presença de calcificações e ulcerações na placa.
FIGURA 9-14
Em pacientes com dissecção da circulação anterior, a RM e a ARM do
pescoço podem fornecer detalhes morfológicos, assim como documentar o fluxo sanguíneo intraluminal, respectivamente, e são frequentemente as
primeiras escolhas nos estudos de imagem na propedêutica. A aparência
típica da RM de uma artéria dissecada em secção transversal é de diâmetro
aumentado da artéria com um lúmen excêntrico estreitado causado pela
presença de um hematoma intramural. O hematoma pode ser detectado
pelas imagens ponderadas em spin-echo T1 e T2 e técnicas com supressão
de gordura ponderada em T1 (Fig. 9-15). O lúmen contendo ausência de
sinal, indicando permeabilidade, é geralmente o lúmen verdadeiro. A ARM
com tempo tridimensional de voo pode mostrar a presença de um lúmen
duplo, sinal de cadeia dupla, irregularidade da parede e dilatação
aneurismática. As principais limitações desta técnica são artefatos da
deglutição, movimentos do paciente, tendência a superestimar o grau de
estenose e as dificuldades em distinguir o fluxo lento do trombo
intraluminal. A ATC é alternativa não invasiva para o diagnóstico da
dissecção arterial e porque é independente dos fenômenos de fluxo, mesmo
um pequeno lúmen residual e pseudoaneurismas causando fluxo lento ou
turbulento, podem ser detectados (Fig. 9-11, A e B). No entanto, trombos
sutis nas camadas íntima e intramural podem escapar à detecção com ATC.
A presença de dispositivos de marca-passo e insuficiência renal limitam
os estudos de imagem realizados em pacientes com doença da ACI. A RM
não pode ser realizada em pacientes com marca-passos e a insuficiência
renal é contraindicação tanto para a ATC quanto para a ARM com
gadolínio. Os agentes de contraste baseados em gadolínio têm sido
associados ao desenvolvimento de fibrose sistêmica nefrogênica e
dermopatia nefrogênica fibrosante, muitas vezes com patologias de pele ou
órgãos sérias e irreversíveis em pacientes com doença renal moderada ou
em estágio final.
Tratamento
Doença Aterosclerótica da Artéria Carótida
Todos os pacientes com doença aterosclerótica da artéria carótida devem
ser rastreados para fatores de risco modificáveis, como a hipertensão e o
diabetes, e apropriadamente tratados de acordo com as diretrizes de 2011 da
AHA/ASA (American Heart Association/American Stroke Association) que incluem mudanças na dieta, aumento da atividade física e tratamento
farmacológico. A cessação do tabagismo é recomendada, e evitar o
ambiente de fumo do tabaco deve ser considerado em todos os pacientes
para a prevenção de AVE. As estatinas foram aprovadas para a prevenção
de AVEs isquêmicos em pacientes com hipercolesterolemia e doença
arterial coronariana. Mais recentemente, desde a publicação do ensaio da
SPARCL (Stroke Prevention by Aggressive Reduction in Cholesterol
Levels/Prevenção de AVE através da redução agressiva dos níveis de
colesterol), foi recomendado pela AHA/ASA 2011 para pacientes com AVE
isquêmico aterosclerótico ou AIT sem doença cardíaca coronária conhecida
para reduzir o risco tanto de AVEs subsequentes quanto de eventos
cardiovasculares. Este ensaio demonstrou uma redução absoluta do risco
em cinco anos de 2,2% para a combinação de AVE fatal e não fatal e de
3,5% do risco absoluto para eventos cardiovasculares maiores em pacientes
recebendo 80 mg de atorvastatina comparado com placebo.
FIGURA 9-15
Tratamentos antiplaquetários como a aspirina, clopidogrel e uma
combinação de aspirina e dipiridamol, são frequentemente utilizados para prevenção de AVE e AIT em pacientes com estenose não significativa das
artérias carótidas. Tanto o clopidrogel (ensaio de eventos isquêmicos em
pacientes de risco com clopidrogel versus aspirina [CAPRIE]), quanto a
combinação entre aspirina e dipiridamol (estudo 2 europeu de prevenção de
AVE [ESPS-2]) demonstraram que a aspirina é superior para a prevenção de
isquemia encefálica recorrente, enquanto nenhuma diferença estatística foi
vista entre o clopidrogel e a combinação de aspirina e dipiridamol (ensaio
de regime de prevenção para efetivamente evitar um segundo AVE
[PROGRESS]).
A endarterectomia da carótida (EAC) para a prevenção do AVE
isquêmico tem sido realizada desde o início da década de 1950 (Fig. 9-16),
mas foi somente na década de 1990 que vários ensaios em larga escala
foram realizados comparando-se este tipo de cirurgia contra o melhor
tratamento clínico em pacientes com estenose da carótida interna
assintomáticos e sintomáticos.
Para pacientes com estenose assintomática da artéria carótida interna de
60% a 99%, a evidência do estudo de aterosclerose assintomática da
carótida (ACAS) e do ensaio da cirurgia carótida assintomática (ACST)
mostraram um modesto benefício favorecendo a EAC, com uma redução
absoluta do risco de AVE em cinco anos de 5,9% e 5,4%, respectivamente.
A redução do risco de AVE foi mais proeminente em homens e
independente do grau de estenose ou doença contralateral. Portanto,
concluiu-se que o EAC deve ser considerado para pacientes com estenose
assintomática de 60% a 99% se os pacientes tiverem uma expectativa de
vida de pelo menos 5 anos e a taxa de AVE ou óbito pré-operatório da
instituição ou do cirurgião particular possa ser mantida com segurança em
menos do que 3%. Desde então, outros estudos mostraram que o tratamento
clínico mais intensivo pode diminuir risco de AVE ipsilateral para menos de
1%. É possível que o benefício absoluto da endarterectomia carótida seja
ainda menor do que o relatado pelos ensaios anteriores. Um subgrupo de
pacientes com doença assintomática da artéria carótida e microembolismo
no Doppler transcraniano sendo monitorados ou fazendo exames de
imagem à procura de marcadores de placa vulnerável ou reatividade do
fluxo sanguíneo encefálico reduzido pode potencialmente se beneficiar da
intervenção vascular; no entanto, estudos adicionais serão necessários para
responder a esta questão.
FIGURA 9-16
Para pacientes com doença sintomática da artéria carótida, as evidências
dos ensaios de endarterectomia carótida sintomática norte-americana (NASCET) e dos ensaios de cirurgia carótida europeia (ECST) apoiam a
EAC para estenose grave (70% a 99%) como o melhor tratamento médico.
O NASCET mostrou uma redução do risco absoluto de AVE de 17% em 2
anos, enquanto o ECST mostrou um benefício absoluto da cirurgia de
11,6%. Para pacientes sintomáticos com estenose entre 50% e 69%, a EAC
é moderadamente útil e pode ser considerada em pacientes selecionados. O
NASCET mostrou uma taxa em 5 anos de 15,7% de AVE ipsilateral no
grupo cirúrgico comparado com 22,2% entre aqueles tratados medicamente
neste subgrupo de pacientes. O EAC não é indicado para pacientes com
estenose menor do que 50%.
O implante de stent (Fig. 9-17) tem sido investigado como terapia
alternativa para pacientes com doença da artéria carótida. Dois estudos
multicêntricos, o estudo internacional de stent da carótida (ICSS) e o norte-
americano de endarterectomia de revascularização da carótida versus estudo
de stent (CREST), compararam a eficácia da endarterectomia da carótida
versus o stent da carótida em pacientes com doença arterial carótida
sintomática e assintomática e apresentaram resultados ligeiramente
diferentes.
O ICSS foi o primeiro estudo randomizado para pacientes sintomáticos
com pelo menos 50% de estenose da carótida interna. Este estudo mostrou
que o risco de AVE, morte e infarto do miocárdio (IM) no grupo de stent da
artéria carótida foi significativamente maior do que no braço cirúrgico
(8,5% versus 5,2%, P=.006), com uma grande diferença na ocorrência de
AVEs menores. Este achado também foi apoiado pelos resultados de um
subestudo de RM mostrando mais lesões na imagem ponderada por difusão
em pacientes submetidos a stent carótido do que a EAC.
O CREST recrutou pacientes sintomáticos com pelo menos 50% de
estenose na angiografia ou 70% no ultrassom bem como aqueles
assintomáticos com pelo menos 60% de estenose na angiografia ou 70% de
estenose no ultrassom. Este estudo não mostrou diferenças entre o risco de
AVE, óbito e IM em pacientes tratados com stent ou EAC; no entanto,
AVEs e óbitos periproceduais em pacientes sintomáticos foram
significativamente maiores em pacientes tratados com stents (6%) versus
EAC (3,2%, P=.02), enquanto o IM foi mais frequente em pacientes
tratados com EAC.
As exigências rigorosas para o credenciamento de praticantes e a
inclusão de pacientes assintomáticos de baixo risco no CREST,
provavelmente explicam alguns dos diferentes resultados entre estes dois
ensaios. Até que mais estudos sejam feitos, a endarterectomia da carótida
ainda é o tratamento de escolha para pacientes com doença sintomática da
artéria carótida.
FIGURA 9-17
Doença Aterosclerótica Intracraniana da ACA/ACM A varfarina não mostrou vantagem sobre a aspirina para a prevenção de
AVE isquêmico ou morte vascular em pacientes com estenose arterial
intracraniana sintomática (ensaio de varfarina-aspirina na doença
intracraniana sintomática [WASID]) e foi associada a taxas
significativamente altas de eventos adversos. As diretrizes atuais a partir da
Conferência de Consenso de Doença Aterosclerótica Intracraniana
recomendam monoterapia com aspirina, a combinação de aspirina e
dipiridamol de liberação prolongada e a monoterapia com clopidogrel como
opções aceitáveis em pacientes com AVE isquêmico não cardioembólico e
AIT. O tratamento agressivo dos fatores de risco aterogênicos é igualmente
benéfico neste grupo de pacientes.
O estudo randomizado em perspectiva SAMMPRIS (Implante de stent e
gestão clínica agressiva para a prevenção de AVE recorrente em estenose
intracraniana) mostrou que o tratamento clínico agressivo foi superior à
colocação do stent, tanto por que o risco de AVE precoce após o implante
de stent foi alto quanto porque o risco de AVE com terapia clínica agressiva
somente foi inferior ao esperado.
No entanto, a angioplastia intracraniana, com ou sem colocação de stent,
ainda pode ser considerada para um grupo seleto de pacientes com estenose
de alto grau, isquemia recorrente e falência da medicação.
Dissecção da circulação anterior
O melhor tratamento para prevenção de AVE em pacientes com dissecções
nas artérias intracranianas e extracranianas na circulação anterior
permanece obscuro. As diretrizes da AHA/ASA de 2011 recomendam o uso
de tratamento antitrombótico por 3 a 6 meses como uma opção razoável,
mas reconhecem que a eficácia relativa da terapia antiplaquetária
comparada com a terapia de anticoagulação é desconhecida para estes
pacientes.
Mesmo que a maioria dos casos de dissecção da artéria carótida tenha um
bom prognóstico com tratamento conservador, uma pequena proporção de
pacientes pode desenvolver déficits neurológicos secundários flutuantes ou
progressivos à insuficiência hemodinâmica e pode exigir um tratamento
mais agressivo com a colocação de stent.
Embora o número de pacientes relatados com dissecção intracraniana
tratados com tratamento antiplaquetário ou anticoagulante seja pequeno
demais para qualquer tipo de conclusão, ambos os tratamentos parecem
relativamente seguros em pacientes com dissecção intracraniana sem
hemorragia subaracnoide.