Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Enigma da Esclerose Múltipla Progressiva

FIGURA 10-12

 

Enigma da Esclerose Múltipla Progressiva

As recidivas cessam na EM progressiva secundária e o ritmo da

desmielinização se lentifica acentuadamente. A positividade ao GD à aquisição de imagens por ressonância magnética (RM) também se torna

rara. As terapias atuais que reduzem o número e a gravidade das recidivas

da EM não retardam a progressão da incapacidade na EM progressiva.

Essas terapias são em sua maior parte dirigidas às células T e ao

componente imune periférico. Seu sucesso mínimo na EM progressiva

sugere um papel menor, na melhor das hipóteses, para as células T atuando

no SNC na doença em estágio avançado. Em vez disso, o que caracteriza a

EM progressiva primária (EMPP) e a EM progressiva secundária (EMPS) é

uma ativação global da micróglia MHC classe II+, com processos mais

grossos e mais curtos do que os observados em células microgliais controle,

uma diminuição global no metabolismo axônico, atribuída em parte à

disfunção mitocondrial induzida nas células microgliais e documentada por

níveis reduzidos de N-acetil-aspartato, secção axônica generalizada, uma

perda progressiva do volume encefálico, uma piora inexorável da marcha,

ligada a uma perda seletiva de axônios de pequenas fibras dos tratos

piramidais, e com frequência um declínio cognitivo substancial.

O exame cuidadoso da substância branca de aparência normal na EM

progressiva revela paranodos alongados com desorganização do perfil,

tumefações axônicas e acúmulos da proteína precursora amiloide. Essas

alterações se correlacionam com a densidade da micróglia ramificada

ativada (sintase positiva para óxido nítrico indutível), porém não à presença

limitada de infiltrados perivasculares de células T ou ao número limitado de

células T infiltrando o parênquima do SNC, muitas das quais são agora

CD8+ e têm função incerta. Lesões da substância cinzenta contendo poucas

células T se tornam progressivamente mais e mais proeminentes, com danos

associados aos axônios corticais, a dendritos e a corpos celulares neuronais.

As lesões da substância cinzenta na EMPS, tal como ocorre com a

disfunção da substância branca, associam-se fortemente a células

microgliais ativadas.

É de interesse que células T ativadas ainda são encontradas nas

meninges. A inflamação meníngea pode ser extensa e sugeriu-se que ela

pode contribuir de algum modo para as placas desmielinizadas corticais

subpiais e para uma evolução clínica acelerada. Como células T e

macrófagos são raros em regiões corticais desmielinizadas e as células

microgliais ativadas são abundantes, foi proposto um sinal de ativação da

micróglia emitido de alguma distância. Não foi esclarecido o que impede as células T CD4+ ativadas de entrar na substância branca e na substância

cinzenta do parênquima do SNC na EMPS. Uma das possibilidades é a

liberação do antígeno leucocitário humano G (HLA-G) pela micróglia

ativada na EMPS. O HLA-G é um antígeno HLA classe I não clássico,

detectado originalmente na interface citotrofoblástica extravilosa

fetomaterna, em que ele provoca tolerância imune e protege o feto de

maneira potente da destruição pelas células T maternas. O HLA-G foi

encontrado subsequentemente em vários locais imunologicamente

privilegiados, incluindo o SNC. Na EMRR os níveis de HLA-G no LCR

são bem mais baixos quando os exames RM são positivos para GD, um

indicador de ativação das células T no SNC, do que quando os exames RM

são negativos para GD e a doença se mostra quiescente. A micróglia em

cortes teciduais de indivíduos portadores de EMPS submetidos à autópsia

demonstra uma expressão acentuadamente suprarregulada de HLA-G.

Parece provável que produtos liberados pela micróglia, incluindo óxido

nítrico e outros radicais livres; glutamato, reconhecidamente tóxico quando

em excesso; e citocinas, incluindo o fator de necrose tumoral α (FNT-α) e a

linfotoxina (LT), que também são tóxicos quando em excesso, tenham um

papel importante na axonopatia difusa e na destruição neuronal da EM

progressiva. A perda do suporte trófico aos axônios fornecido normalmente

pelos oligodendrócitos também pode contribuir. Alguns pacientes de EM

com doença em estágio avançado apresentam estruturas meníngeas

semelhantes a folículos linfáticos contendo plasmócitos, principalmente nas

profundezas dos sulcos e superpostas a extensos infiltrados meníngeos de

células T e macrófagos. Paradoxalmente, o FNT-α e a LT, liberados em

excesso na EM progressiva, podem promover efetivamente o

desenvolvimento dessas estruturas meníngeas semelhantes a folículos

linfoides, porque o FNT-α e a LT são essenciais para o desenvolvimento de

folículos LN.

Presumivelmente na EM progressiva as células microgliais não recebem

mais aqueles sinais de neurônios e de astrócitos que, na homeostase, os

conservam quiescentes. Entre esses sinais estão norepinefrina, acetilcolina e

dopamina. Esses neurotransmissores contrabalançam os sinais ativadores

proporcionados pelo glutamato e pelo ATP, que atraem células microgliais

para os locais de danos, e da adenosina, que as mantém aí. Como mudar

isso para melhor ainda é um desafio.