Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Reabilitação da Afasia

FIGURA 9-46

 

Reabilitação da Afasia Aproximadamente 90% a 95% dos adultos são destros. A avaliação de

pacientes com AVE estima que a disfunção de linguagem do hemisfério

esquerdo ocorre em mais de 95% dos indivíduos destros e em quase 20%

das pessoas dominantes no lado esquerdo. Isso já foi verificado

anteriormente com o uso de amobarbital arterial intracarotídeo durante as

investigações. Mais recentemente, a imagem por ressonância magnética

funcional (RMF) confirmou a presença de dominância da linguagem no

encéfalo esquerdo.

A afasia de Broca é a forma clássica de disfunção da linguagem do lobo

frontal com lesões no hemisfério dominante. Ela é caracterizada por um

discurso não fluente, com esforço, lento e interrompido. Esta disfunção de

linguagem é tipicamente de extensão reduzida, ou seja, poucas palavras

com frase reduzida, gramática simplificada e nomeação prejudicada. A

repetição está caracteristicamente intacta. Estes indivíduos muitas vezes

têm apraxia associada (bucofacial, fala e do membro não paralisado) e

fraqueza no lado direito do rosto e da mão.

A afasia de Wernicke é o exemplo clássico da disfunção de linguagem

que ocorre com um AVE no giro temporal superior esquerdo,

frequentemente secundário a um êmbolo na artéria cerebral média esquerda.

Tipicamente, tais pacientes têm fala espontânea fluente, com erros

parafásicos fonéticos (sílabas mistas) e verbais (palavras incorretas),

algumas vezes referidos como salada de palavras. Frequentemente estes

indivíduos exibem problemas de nomeação e repetição associados a

deficiências de compreensão, leitura e escrita. Algumas vezes estes

pacientes não estão completamente cientes de suas várias limitações, no

entanto, quando são conscientes destes mesmos problemas, isso pode ser

extremamente frustrante, levando à instabilidade emocional. Menos

comumente, o lobo temporal pode estar desconectado de outro ou de ambos

os córtices auditivos. Isso pode resultar em certos distúrbios da função da

linguagem circunscritos, referidos como síndromes de desconexão. A

palavra pura “surdez” é definida como a perda do reconhecimento de

palavras na linguagem pura, enquanto se retêm a capacidade de ouvir

normalmente e interpretar sons não verbais significativos como um

cachorro latindo ou um telefone tocando.

A afasia global ocorre com um infarto no hemisfério encefálico

dominante mais extenso, levando a acentuado prejuízo funcional (Fig. 9-

46). Aqui, o paciente pode inicialmente ser incapaz de expressar qualquer

função de linguagem. Conforme se inicie a melhora, o dano pode

permanecer mais pronunciado no córtex parietal temporal ou frontal, com

um déficit tipo Broca ou Wernicke emergente como o problema de

linguagem residual primário.

O prognóstico para a recuperação da afasia depende da localização e da

extensão da lesão. A maioria dos pacientes melhora em certa medida, com

maiores ganhos nos primeiros meses, embora haja uma resposta

significativa ao tratamento com fonoaudiologia independentemente do

tempo após o início dos sintomas. A maior parte da terapia de comunicação

é fornecida através de um modelo multifatorial e pode incluir tanto

abordagens contextuais, quanto baseadas nas habilidades, combinando

estímulos sensitivos múltiplos, como imagens e músicas, com foco em

semântica e repetição e usando componentes emocionais e sociais no

discurso. A intensidade da terapia, ao invés do método, parece ser mais

importante na resposta da recuperação.

A terapia para afasia com restrição induzida, uma abordagem de

tratamento de alta intensidade que restringe o uso de comunicação não

verbal, mostrou recentemente resultados significativamente positivos em

alguns pacientes com afasia crônica. Esta terapia fonoaudiológica de

reabilitação é dirigida a alguns indivíduos com afasia crônica incluídos em

um programa de terapia. Estes pacientes são encorajados a utilizar cada vez

mais respostas verbais, enfatizando mais a expansão da saída de palavras

durante o tempo, com a esperança de manter estas alterações em indivíduos

tratados que tenham afasia crônica. Compensação alternativa significa

tentar se comunicar sem a função da linguagem, como, por exemplo,

escrever, desenhar e realizar vários gestos simples; e é muito desencorajada

durante as sessões de terapia de grupo. Esta modalidade exige um

comprometimento de tempo diário muito significativo de 2 a 3 horas por

sessão, muitas vezes ocorrendo ao longo de meses. O objetivo geral é

promover a melhora da saída da linguagem verbal. Revisões iniciais

sugerem que este programa terapêutico muito intenso é mais eficaz para

pacientes com afasia tipo Broca frontais não fluentes.

FIGURA 9-47