Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Seção 10: Esclerose múltipla e outros transtornos autoimunes do sistema nervoso central
S E Ç Ã O 1 0
Esclerose múltipla e outros
transtornos autoimunes do sistema
nervoso central
FIGURA 10-1
Esclerose Múltipla: Perspectiva Geral Em climas temperados a esclerose múltipla (EM) é a doença neurológica
esporádica do início da idade adulta mais comum. O processo tem início
como uma perda periódica e focal da mielina do sistema nervoso central
(SNC) e dos oligodendrócitos (OGC) que sintetizam a mielina. Os axônios
que perderam sua mielina funcionam de maneira imperfeita ou não
funcionam. Com isso sobrevêm os sintomas e a incapacidade se acumula na
recorrência dos episódios.
A EM é considerada uma doença autoimune, embora não tenham sido
identificados com certeza antígenos contra os quais uma resposta autoimune
relevante para a doença poderia estar dirigida. Tal como ocorre em outras
condições autoimunes, há uma propensão geneticamente determinada ao
desenvolvimento da doença. A associação genética mais fortemente
positiva é com o antígeno do complexo de histocompatibilidade maior
(CHM) classe II, ou seja, o antígeno leucocitário humano (HLA)-
DRB1*15:01. Os alelos HLA-DR apresentam peptídeos antigênicos a
células T CD4+, apontando para um papel importante das células T CD4+
como promotoras da doença na EM. Em contraste, a expressão de HLA-
A*02:01 está reduzida na EM, indicando um papel protetor para este alelo,
o alelo classe I mais comumente expresso em seres humanos. O alelo
HLA*03:01, de prevalência menor, dobra o risco de desenvolvimento de
EM. Os alelos HLA-A apresentam peptídeos antigênicos às células T CD8+,
indicando que a proteção mediada pelas células T CD8+ é subótima na EM.
HLA-A*03:01 e HLA-DRB1*15:01 são fatores de risco independentes.
Estudos no âmbito de todo o genoma identificaram cerca de 50 outras
associações genéticas menores. Muitas delas participam da função do
sistema imune, com um enriquecimento importante em genes de receptores
da superfície celular implicados na ativação e na proliferação das células T.
Um terço dos locus genômicos identificados se superpõem a regiões
associadas a uma ou mais doenças autoimunes.
A prevalência da EM pode ser de até 1 em 500 na população geral. Em
torno de 20% dos pacientes têm um familiar consanguíneo portador da
doença. Em irmãos e em filhos de um pai afetado a concordância quanto à
EM é de 1% a 3%, afastando uma herança dominante, recessiva ou ligada
ao sexo simples. Os irmãos compartilham metade de seus genes. Todavia,
mesmo em gêmeos idênticos, compartilhando de todos os seus genes, a concordância quanto à EM é de apenas 25%, indicando que fatores
ambientais têm um papel importante na determinação do risco de EM.
O vírus Epstein-Barr (EBV) é adquirido na adolescência ou ao início da
idade adulta em países desenvolvidos, nos quais a EM é encontrada
frequentemente e nos quais o EBV causa a mononucleose infecciosa; em
países em desenvolvimento, nos quais a EM não é comum, o EBV em geral
é adquirido assintomaticamente ao início da infância. Diferentemente dos
controles, ao diagnóstico todos os pacientes de EM testam positivamente
para um contato anterior com o EBV e uma história de mononucleose
infecciosa franca (sempre antes do início da doença) ocorre em uma
frequência três vezes maior que na população geral. O EBV é no momento o
principal candidato ao desencadeante ambiental da propensão ao
desenvolvimento da EM. A presença de níveis subnormais de vitamina D é
outro possível suposto fator ambiental na EM. Essa vitamina é um inibidor
da resposta inflamatória e um intensificador da função reguladora das
células T, acoplada ao fato de que a EM é incomum em regiões com
exposição elevada à luz solar, o principal indutor da síntese da vitamina D.
Evolução Clínica
A EM se inicia comumente em adultos jovens; a idade de pico ao primeiro
ataque é de 30 anos, mas o início pode ocorrer antes da idade de 10 anos ou
depois da idade de 50 anos. A EM é 2 a 3 vezes mais frequente em
mulheres. Até 85% dos pacientes apresentam inicialmente uma síndrome
clinicamente isolada que se caracteriza por uma perda subaguda da função
neurológica, que geralmente vai piorar por uma semana ou mais, se
estabilizar por algum período e acabar finalmente por apresentar uma
recuperação parcial ou, com bastante frequência, completa.
Subsequentemente, após intervalos muito variáveis ocorrem episódios
adicionais, designados como recidivas. Tendo uma duração finita de
algumas semanas, as recidivas são seguidas por uma recuperação de
extensão e duração variáveis. Há períodos de aparente quiescência da
doença, com remissões durando meses ou anos. Esses pacientes são
designados como apresentando a esclerose múltipla com recidivas e
remissões (EMRR). Os sinais e sintomas variam de uma recidiva para outra,
pois outros locais de perda de mielina se acumulam na substância branca do SNC. Os locais de perda de mielina são denominados placas; sua
localização determina os sintomas.
Depois de alguns anos as características da EM podem se alterar. As
recidivas diminuem em frequência, acabam por cessar e são substituídas por
um agravamento lento, porém constante, da alteração do sistema nervoso,
designada como EM progressiva secundária (EMPS), distinguindo-a dos
15% dos casos em que uma evolução progressiva primária está presente
desde o início dos sintomas. A EM progressiva primária (EMPP) em geral
se inicia mais tardiamente na vida que a EMRR; a preponderância feminina
não é tão evidente. A manifestação clínica habitual é uma mielopatia
lentamente progressiva, evoluindo para uma paraparesia ou paraplegia.