Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Neuromielite óptica, Encefalomielite disseminada Aguda e Leucoencefalite Hemorrágica Aguda
Neuromielite óptica, Encefalomielite
disseminada Aguda e Leucoencefalite
Hemorrágica Aguda
Neuromielite óptica
Também designada como doença de Devic, a neuromielite óptica (NMO)
é uma doença autoimune que evidencia uma inflamação seletiva da medula
espinal e do nervo óptico, com sequelas de paralisia e cegueira. Embora ela
tenha sido considerada originalmente como uma variante da EM, há
evidências de que a NMO e a EM são clinicopatologicamente muito
diferentes. Os critérios diagnósticos para NMO são distintos daqueles da
EM. Muitos pacientes de NMO apresentam elevações de anticorpos
antinucleares (ANA) ou de autoanticorpos da síndrome de Sjögren A/B
(SSA/B). Há uma incidência 15 vezes maior de outras doenças autoimunes
na NMO, incluindo a doença de Sjögren, o lúpus eritematoso sistêmico
(LES), a artrite reumatoide (AR), a doença mista do tecido conectivo e a
miastenia gravis (MG).
Uma inflamação recorrente da medula espinal e/ou do nervo óptico, que
faz lembrar a EMRR, ocorre em 80% dos pacientes portadores de NMO.
Uma evolução monofásica aparece em 20% dos casos; o envolvimento
visual e o motor são graves ao início. Em pacientes apresentando a NMO
recidivante, em contraste, embora o envolvimento inicial não seja tão grave,
uma incapacidade progressiva se evidencia aos ataques recorrentes. Há por
vezes a cegueira total e a tetraplegia. Uma incidência de 30% de disfunção
da medula espinal cervical superior e da medula oblonga leva à
insuficiência respiratória, geralmente fatal, na NMO recorrente.
Muitos pacientes de NMO apresentam níveis elevados de um anticorpo
IgG a um canal hídrico denominado aquaporina-4 (NMO-IgG). Esse
anticorpo é considerado patogênico por fixar o complemento, causando
destruição tecidual. No entanto, nem todos os pacientes portadores de NMO
têm anticorpos antiaquaporina-4. Deve haver outros mecanismos
patológicos. As células T causam inicialmente perturbações da barreira
hematoencefálica (BHE), com os anticorpos antiaquaporina-4 entrando
subsequentemente no parênquima encefálico e com destruição do SNC.
As lesões da NMO são distintas quando comparadas às lesões da EM
clássica ou da encefalomielite disseminada aguda (EMDA). As lesões da
medula espinal evidenciam um grau acentuado de fibrose vascular e de
hialinização envolvendo a substância cinzenta e a substância branca, com
necrose, cavitação e perda axônica proeminentes. Há uma desmielinização
extensa, com grande perda de oligodendrócitos, infiltração proeminente de
neutrófilos e eosinófilos e depósitos perivasculares em forma anular de IgM
e IgG. Produtos do complemento são depositados nas lesões da NMO. As
lesões mielopáticas na NMO são predominantemente centrais e não
periféricas como na EM, com envolvimento preferencial da substância
cinzenta na NMO e da substância branca na EM. A RM da medula espinal
demonstra lesões de maior extensão longitudinal na NMO que aquelas
observadas tipicamente na EM.
Os critérios radiológicos e laboratoriais específicos propostos para se
diferenciar a NMO da EM incluem (1) lesões à RM da medula espinal
estendendo-se contiguamente por três ou mais segmentos vertebrais (mielite
transversa longitudinalmente extensa [MTLE]), (2) lesões à RM encefálicas
não satisfazendo os critérios diagnósticos para EM e (3) título de anticorpos
IgG-NMO para aquaporina-4 positivo. Dois desses três critérios são
necessários para o diagnóstico da NMO. Na prática clínica, alguns
pacientes apresentam inicialmente um quadro de MTLE ou de neurite
óptica grave, não apresentando nem anticorpos IgG-NMO nem lesões
encefálicas semelhantes às da EM. Alguns pacientes continuam a ter
ataques recorrentes de MTLE ou de NO, com ou sem IgG-NMO positivo
associado. Esses pacientes são considerados como apresentando formas
restritas de NMO ou são classificados como espectro de doença NMO.
Em geral os pacientes que apresentam inicialmente uma neurite óptica
aguda ou uma MTLE necessitam de cuidados urgentes. Os ataques são
frequentemente tratados com glicocorticoides sistêmicos em altas doses. É
popular atualmente o uso da metilprednisolona, 1 g ao dia por via
intravenosa durante 7 a 10 dias, às vezes por mais tempo. Há uma carência
de ensaios clínicos controlados e não se tem certeza se ocorrem benefícios
duradouros. A plasmaférese e a imunoglobulina intravenosa como terapias
adjuvantes têm seus defensores, mas também aqui a questão da ocorrência
de benefícios significativos ainda está por ser esclarecida. A terapia
profilática visando diminuir a frequência de recidivas naqueles em alto risco (positivos para IgG-NMO ou com história de recorrências) foi tentada
utilizando-se uma variedade de imunossupressores, incluindo azatioprina,
metotrexato, mitoxantrone, ciclofosfamida, micofenolato mofetil e até
mesmo regimes de reposição de células-tronco, entre outros. Seu número
por si só é um argumento a favor de uma eficácia limitada, na melhor das
hipóteses, para qualquer um deles. Nenhum deles é desprovido de riscos.
Por ser administrado com facilidade, rituximabe é uma terapia popular
para NMO, sendo utilizado para suprimir cronicamente as células B. Esse
anticorpo monoclonal dirigido à proteína CD20 expressa nas superfícies das
células B, causa uma depleção potente das células B por vários meses. Ele é
frequentemente administrado duas vezes por ano e é geralmente bem
tolerado. Rituximabe pode ser mais eficaz que outros fármacos
imunossupressivos na prevenção de recidivas da NMO. Entretanto,
rituximabe pode não ser eficaz em todos os pacientes; recidivas por
suspensão ocorrem ocasionalmente. A NMO é uma doença agressiva; por
vezes nem mesmo os regimes mais intensos produzem resultados
favoráveis. Ainda não foi estabelecida a segurança de rituximabe na NMO
ou na EM por um período mais longo; o uso de rituximabe se associa por
vezes à leucoencefalopatia multifocal progressiva (LMP), um transtorno
geralmente fatal. Portanto, a terapia por rituximabe na NMO crônica precisa
ser utilizada com cautela.
FIGURA 10-16
Encefalomielite disseminada aguda (EMDA)
A encefalomielite disseminada aguda (EMDA) é uma doença
desmielinizante aguda monofásica do sistema nervoso central (SNC) que se segue a uma doença infecciosa ou a uma imunização, em geral em menos
de 6 a 8 semanas. Embora descrita mais comumente em crianças após a
infecção pelo sarampo, ela pode ocorrer após qualquer doença viral
indeterminada. Muitos casos de EMDA ocorrem em crianças. A EMDA é
vista na população adulta, porém em frequência menor. Como a esclerose
múltipla (EM) pediátrica é rara, a ocorrência mais frequente da EMDA em
crianças, em oposição aos adultos, sugere que a EMDA constitui uma
entidade distinta.
A EMDA se manifesta abruptamente e evolui rapidamente. Cefaleia,
convulsões e delirium são comuns ao início nos casos em crianças, porém
em escala menor entre os adultos. O início é com frequência
polissintomático, manifestando-se habitualmente por distúrbios motores,
sensitivos, cerebelares e do tronco encefálico. Achados focais múltiplos
coincidem com uma desmielinização generalizada à aquisição de imagens
por ressonância magnética (RM). As recorrências são raras e, quando
ocorrem, em geral após uma pequena demora. Em muitos casos essas
recorrências ocorrem tipicamente após um esquema de tratamento
inadequadamente abreviado, em que a melhora precoce ocasionou uma
falsa sensação de segurança nos médicos.
A EMDA decorre de um ataque autoimune desencadeado por uma
infecção ou pela imunização contra as proteínas da mielina do SNC. A
EMDA, portanto, se assemelha muito à encefalomielite alérgica
experimental (EAE) induzida em roedores por produtos da mielina do SNC.
Na EMDA a substância branca e a substância cinzenta do encéfalo e da
medula espinal demonstram caracteristicamente múltiplos focos de
desmielinização aguda. Esses focos de desmielinização contêm células T e
macrófagos. Muitas lesões de EMDA se desenvolvem em algumas semanas
e são demonstrados de maneira melhor às imagens RM T1 ponderadas
contrastadas e T2 ponderadas (Fig. 10-5). Os exames realizados logo após o
início da doença demonstram que muitas lesões da EMDA apresentam
intensificação pelo contraste, indicando um desenvolvimento simultâneo
das lesões. A EMDA pode continuar a evoluir por várias semanas. Exames
RM obtidos mais tardiamente na evolução da doença podem conter tanto
lesões de início recente, que se intensificam, quanto lesões antigas de maior
duração, que não mais se intensificam. Um diagnóstico de esclerose
múltipla é mais provável quando houver evidências primárias de lesões hipointensas T1 ponderadas às imagens T1 não contrastadas adquiridas às
manifestações clínicas iniciais. Além disso, as lesões da EMDA são com
frequência muito maiores (1 a 2 cm) do que as lesões típicas da EM e,
embora lesões da substância branca predominem na EMDA, pode haver um
envolvimento lesionar substancial da substância cinzenta do córtex, do
tálamo, dos núcleos da base, do tronco encefálico e do cerebelo.
Em comparação à EM, os achados do LCR na EMDA pediátrica incluem
uma alteração maior da barreira hematoencefálica, como a elevação da
albumina liquórica em relação à do soro, menor positividade das bandas
oligoclonais no LCR (10% vs. 83%) e, em alguns casos, uma pleocitose
linfocitária moderadamente elevada no LCR (> 20 células/μL).
O prognóstico da EMDA em décadas anteriores era relativamente
sombrio, com taxas de mortalidade de 50%, enquanto 50% dos
sobreviventes apresentavam déficits neurológicos graves. Hoje o
prognóstico é mais favorável nos casos em que a EMDA é tratada
adequadamente com metilprednisolona intravenosa administrada
sistemicamente por vários dias e seguida então por um período prolongado
de redução gradativa de glicocorticoides orais por 6 a 8 semanas. Embora
haja uma carência de estudos controlados, as recidivas parecem ocorrer
mais raramente ao uso desse regime. O grau de remielinização durante a
recuperação da EMDA é mais extenso que para os pacientes de EM e
muitos pacientes se recuperam completamente.
Leucoencefalopatia hemorrágica aguda
(LHA)
Descrita originalmente por Hurst em 1941, a LHA se caracteriza por uma
evolução clínica fulminante e constitui o representante mais grave do
espectro de doença da EMDA. Ela é também designada de maneira variável
como leucoencefalopatia hemorrágica necrosante aguda ou síndrome de
Weston-Hurst. Ela é uma doença monofásica e raramente se compara à
EMDA. Em contraste com a propensão da EMDA a afetar crianças, a LHA
ocorre predominantemente em adultos jovens, evidenciando-se em alguns
dias a algumas semanas após uma infecção, geralmente respiratória, ou
após uma imunização.
As manifestações clínicas iniciais incluem febre, cefaleia, confusão
mental e fraqueza evoluindo rapidamente para o torpor e o coma. A morte
pode ocorrer em alguns dias devido a edema e hemorragia encefálicos.
Muitos pacientes não sobrevivem a essa doença; os sobreviventes
apresentam déficits permanentes graves.
As características patológicas à tomografia computadorizada (TC) ou à
RM incluem edema encefálico e efeito de massa tumoral, deslocamento dos
tecidos e hemorragias francas ou petequiais. Quando disponível nos casos
em que a pressão intracraniana não se encontra demasiado elevada, a
análise do líquido cefalorraquiano (LCR) demonstra tipicamente proteínas
elevadas, pleocitose polimorfonuclear, eritrócitos aumentados, nível normal
de glicose e gamaglobulinas aumentadas. Na LHA são vistas
frequentemente leucocitose periférica e uma elevação da velocidade de
hemossedimentação (VHS).
A análise histopatológica demonstra lesões hemorrágicas da substância
branca, infiltrados perivasculares de células polimorfonucleares, necrose,
desmielinização e depósitos perivasculares de fibrina. A LHA requer um
tratamento de urgência à base de metilprednisolona intravenosa em doses
altas e o controle da pressão intracraniana elevada. A terapia concomitante
por ciclofosfamida e plasmaférese pode levar a uma evolução final
favorável.
FIGURA 10-17