Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Esclerose Múltipla: Diagnóstico
FIGURA 10-3
Esclerose Múltipla: Diagnóstico Aquisição de imagens por ressonância
magnética (RM)
Anteriormente o diagnóstico da EM tornava necessárias evidências da
disseminação de déficits detectados clinicamente tanto no espaço quanto no
tempo. Isso era obtido pela documentação de dois ataques, cada um deles
com duração de mais de 24 horas (na ausência de febre ou de infecção),
com cada ataque típico de um evento desmielinizante agudo e com o
requisito de que no segundo episódio houvesse evidências clínicas objetivas
de uma lesão em um local anatomicamente distinto daquele da lesão
documentada no primeiro episódio. Esse segundo evento poderia não
ocorrer por anos ou até mesmo décadas.
A RM aumentou muito a capacidade de se estabelecer um diagnóstico ao
início da evolução da EM. A intensificação por gadolínio (GD) proporciona
esclarecimento quanto a lesões ativas (que se intensificam), porque o GD
atravessa o parênquima do SNC unicamente em locais de ruptura da
barreira hematoencefálica (BHE), enquanto lesões inativas estabelecidas
não apresentam intensificação por GD. As lesões novas apresentam
intensificação central por GD, enquanto uma intensificação de forma
anular ou arqueada pode ser vista à reativação de uma placa existente.
A RM pode possibilitar o diagnóstico durante uma ocorrência clínica
inicial se o estudo demonstrar evidências de uma ou mais lesões com
disseminação no espaço e no tempo, conforme ilustrado pela presença
simultânea de lesões intensificadas e de lesões não intensificadas por
gadolínio típicas quanto à configuração e à localização (periventricular,
justacortical, infratentorial ou na medula espinal). O diagnóstico também
pode ser estabelecido caso apareça ao acompanhamento por imagens RM
uma nova lesão T2 ponderada ou intensificada por GD, em muitos casos
clinicamente silenciosa.
Os achados RM clássicos incluem os assim chamados dígitos de Dawson,
que consistem de múltiplas placas perivenulares ovoides bem demarcadas,
com seu eixo longo situado perpendicularmente ao corpo caloso e
estendendo-se para cima a partir do teto de um ou de ambos os ventrículos
laterais, com frequência como uma fileira longitudinal situada
paralelamente à linha média. Outros locais preferenciais de placas incluem a substância branca subcortical, os pedúnculos cerebelares médios, a ponte
e a medula oblonga sob o assoalho do quarto ventrículo. As placas na
medula espinal se originam da superfície meníngea e se expandem
internamente. Tal como as placas em outros locais, as placas na medula
espinal não são necessariamente sintomáticas. As lesões na substância
cinzenta no córtex encefálico podem ser abundantes na EM, mas são em
geral insuficientemente percebidas, por serem mal visualizadas por técnicas
RM padrão. Em raras ocasiões as lesões da substância branca podem ser
ominosamente grandes, as assim chamadas EM tumefativas, e podem até
mesmo tornar ocasionalmente necessária uma biópsia para se afastar um
glioma.
Até 40% dos exames RM seriados espaçados no tempo demonstram
novas lesões intensificadas por GD em pacientes não tratados com EMRR.
Muitas dessas lesões são clinicamente silenciosas. O achado indica um
nível de atividade da doença várias vezes mais alto do que o que pode ser
apreciado pela consideração tão somente das recidivas clínicas francas. Em
contraste, a maioria (60% ou mais) dos exames RM obtidos ao acaso não
demonstra uma atividade corrente; isso ilustra a presença de uma relativa
quiescência da doença na maior parte do tempo. Esse hiato clinicamente
inativo, no entanto, é interrompido intermitentemente por pulsos episódicos
de atividade de doença clínica ou detectada por RM da EM. A frequência
de lesões ativas recentes positivas à RM é reduzida em até 80% pelos
tratamentos atuais. Lesões positivas para GD são incomuns na EM
progressiva.
A validade de um diagnóstico de EM baseado nos critérios RM
anteriormente descritos foi estabelecida para a EMRR em adultos em países
do Ocidente. Os critérios para um diagnóstico de EMPP ainda requerem
pelo menos 1 ano de progressão da doença, além de dois de três dos
seguintes critérios: (1) evidências de disseminação no espaço (DNE) de
pelo menos uma lesão T2 da medula espinal ao encéfalo, não
necessariamente nova, em um local característico da EM; (2) evidências de
DNE na medula espinal, baseadas em duas lesões na medula espinal; e (3)
líquido cefalorraquiano positivo para bandas oligoclonais, um índice de
imunoglobulinas G (IgG) positivo (ver adiante) ou ambos.
A EM não é comum em crianças e o diagnóstico atualmente requer um
segundo ataque para distingui-la da encefalomielite disseminada aguda (EMDA), um transtorno desmielinizante distinto que é quase sempre
monofásico (ver adiante). As características da RM que favorecem
fortemente a probabilidade de que um primeiro ataque de uma doença
desmielinizante vão se mostrar subsequentemente de EM e incluem a
presença de uma ou mais lesões hipointensas T1 ponderadas (buracos
negros), indicativas de danos anteriores à substância branca do SNC, ou a
presença de uma ou mais lesões periventriculares. A probabilidade de EM
aumenta ainda mais na presença de ambas as lesões. Em crianças com
menos de 11 anos de idade as lesões à RM são maiores e mais indistintas
que em adolescentes e adultos, de modo que a forma, o tamanho e a
frequência das lesões não descrevem de maneira fidedigna a EM da EMDA,
ainda que um padrão de lesão difusa bilateral favoreça a EMDA.
FIGURA 10-4
A confiabilidade dos critérios RM aceitos atualmente como válidos em
países do Ocidente ainda está por ser estabelecida na Ásia e na América Latina. A frequência mais alta da neuromielite óptica (NMO) e dos
transtornos do espectro da NMO e a frequência mais baixa da EM nessas
regiões geográficas suscitam preocupação. Tanto a NMO quanto a EM
apresentam recidiva comumente. Lesões encefálicas sintomáticas ao início
da doença não afastam a NMO (ver adiante). É importante distinguir-se
claramente a EM da NMO, devido à diferença em sua evolução clínica, seu
prognóstico e sua fisiopatologia subjacente e à resposta negativa dos
pacientes de NMO no mínimo a algumas das terapias que modificam a
doença na EM. São achados particularmente sugestivos da NMO uma
mielopatia com lesões medulares espinais detectadas à RM que tenham
localização central e cubram mais de três segmentos espinais e uma neurite
óptica que seja bilateral, grave, indolor e se associe a um disco óptico
edemaciado ou a uma lesão do quiasma óptico. Esses achados justificam o
teste imediato quanto ao autoanticorpo à aquaporina-4, encontrado em
muitos pacientes portadores de NMO, porém absolutamente não em todos
eles.
De tempos em tempos lesões que parecem típicas da EM aparecem
inesperadamente ao exame RM de pessoas sem nenhum sintoma clínico
sugestivo de EM, nenhuma história desses sintomas e nenhum achado ao
exame. A RM foi obtida geralmente por razões não relacionadas com a EM,
como cefaleias ou traumatismos cranioencefálicos. Vários grupos
acompanharam por uma década ou mais essas pessoas apresentando a assim
chamada síndrome radiologicamente isolada (SRI). Muitos casos de SRI
vieram a apresentar uma progressão radiológica, com lesões novas, em
expansão ou intensificadas por GD, porém ainda assintomáticas. Uma
proporção menor deles se converteu em uma EM clinicamente evidente. A
EM tem geralmente uma fase pré-clínica, com lesões assintomáticas
adquiridas em épocas anteriores detectadas em exames de RM obtidos por
ocasião de um primeiro evento clínico. Concordou-se também que o
tratamento de um primeiro ataque de EM é mais eficaz do que quando o
tratamento é retardado. Para contrabalançar isso, é bem sabido que há uma
forma frustra de EM. Há inúmeros relatos de EM sendo encontrada à
autópsia de pessoas idosas sem déficits neurológicos conhecidos durante a
vida.
Eis aí o enigma: deve-se tratar com base em uma lesão nova
assintomática vista em um exame RM? É possível predizer-se a probabilidade de desenvolvimento de uma EM franca? Foi proposto que a
presença de lesões da medula espinal cervical aumenta de maneira drástica
a chance de aparecimento precoce de uma EM clinicamente definida. Nesse
caso, a ausência de uma lesão da medula espinal cervical diminui essa
chance. A questão de quando tratar permanece em aberto.
Em tumefativa
Uma característica fora do comum às imagens radiológicas adquiridas da
EM é a presença de uma grande lesão tumefativa. As características clínicas
variam de acordo com a localização anatômica específica da lesão e podem
ser atípicas para a EM. Pode haver anormalidades cognitivas, confusão
mental, afasia, agnosia, crises convulsivas, ataxia, hemiplegia e defeitos do
campo visual. A mediana da idade de início é de aproximadamente 37 anos
(8 a 69) e há uma ligeira preponderância feminina. As lesões tumefativas
podem ser encontradas em pacientes com um diagnóstico estabelecido de
EM, mas pode haver uma considerável dificuldade diagnóstica quando elas
aparecem como uma única lesão expansiva de aparência preocupante em
pacientes apresentando um primeiro evento neurológico. As lesões
tumefativas têm mais de 2 cm de diâmetro, com uma orla aberta com
intensificação anular, edema circundante e com frequência, dependendo de
seu tamanho, um efeito de massa tumoral. Essas características de aquisição
de imagens podem imitar um tumor encefálico, um abscesso, outros
transtornos inflamatórios, uma vasculite ou uma doença granulomatosa e
podem levar a uma biópsia encefálica. O exame histológico revela
hipercelularidade, desmielinização confluente, macrófagos espumosos
cheios de detritos de mielina, entremeados a astrócitos reativos de corpo
grande, preservação relativa dos axônios e um infiltrado linfocitário
perivascular e parenquimatoso variável.
FIGURA 10-5
As lesões tumefativas são comumente tratadas com metilprednisolona
intravenosa. Muitos pacientes respondem favoravelmente, com uma contração substancial e por vezes drástica do tamanho das lesões com o
tempo. Lesões tumefativas solitárias são por vezes um arauto da EM. Em
uma grande série de casos, 70% dos pacientes vieram a apresentar a EM
definida, mas o intervalo médio até um segundo evento foi muito retardado
em comparação com a população global de EM, sugerindo um prognóstico
favorável.
Análise do líquido cefalorraquiano (LCR)
Uma punção lombar é feita hoje em frequência menor do que em épocas
anteriores, mas pode ser útil caso haja dúvida quanto ao diagnóstico ou para
satisfazer critérios diagnósticos. A contagem total de leucócitos está
elevada em cerca de 25% dos pacientes, porém raramente acima de 35
células mononucleares por mm3. A concentração total de proteínas está
ligeiramente elevada em 40% dos pacientes, mas raramente está acima de
75 mg/dL. Em 40% a 60% dos casos a fração de γ-globulina (IgG) está
elevada acima de 15% das proteínas totais do LCR, refletindo uma
produção aumentada de IgG no SNC. O índice de IgG proporciona uma
estimativa mais precisa da síntese de IgG no SNC. Esse índice é calculado
como a razão da IgG no LCR/IgG no soro, dividida pela albumina no
LCR/albumina no soro. Um valor acima de 0,7 é considerado como
anormal e é encontrado em 70% dos pacientes de EM. Infelizmente o índice
de IgG não é inteiramente específico para a EM. Bandas oligoclonais no
setor IgG do padrão de focalização isoelétrica ou do padrão de
imunofixação de proteínas, porém não encontradas no sangue, são
detectadas em mais de 90% dos casos e em menos de 5% dos controles
depois de se afastar as infecções do SNC. A pressão e o conteúdo de glicose
do LCR estão normais.
Potenciais evocados (PES)
Esses estudos neurofisiológicos permitem uma análise objetiva da
integridade das vias neuronais no SNC. Antes da disponibilidade
generalizada da RM os PEs eram largamente utilizados para a identificação
de doenças subclínicas do SNC. O teste é feito com facilidade e requer um
mínimo de cooperação do paciente, especialmente ao se testar as vias visuais por meio de respostas evocadas visuais (REVs). Em centros em que
se disponha da RM, PE do tronco encefálico e somatossensitivos raramente
são hoje necessários para a confirmação de um diagnóstico provisório de
EM.
Atualmente o valor principal do teste dos PEs ocorre em um paciente
apresentando um quadro inicial agudo de uma mielopatia aparentemente
monofásica, com a RM encefálica normal, e se deseja determinar se pode
haver a disseminação da doença no espaço e no tempo. Alguns pacientes
podem ter tido anteriormente uma neurite óptica subclínica. Outros podem
ter esquecido um episódio anterior de perda visual ou fornecer uma história
impossível de ser interpretada de um distúrbio visual anterior agora
revelado. Nesses casos o teste das REVs pode estabelecer ou afastar a
presença de danos anteriores às vias visuais. A combinação de uma REV
anormal e uma mielopatia se limita praticamente à EM ou à neuromielite
óptica.
Nas REVs um estímulo à retina, tipicamente um padrão xadrez reverso
de contraste elevado, proporciona um meio para se estudar a integridade do
sistema visual. As latências de resposta fornecem dados objetivos
relativamente à capacidade do sistema nervoso em transmitir eficientemente
impulsos do nervo óptico ao córtex occipital. Se a ausência ou o retardo da
condução for unilateral, pode-se concluir que há uma condução mais lenta
entre a retina e o quiasma óptico, típica de uma neurite óptica unilateral. As
REVs são mais úteis quando os pacientes recuperaram plenamente sua
visão. A remielinização nunca é perfeita, de modo que uma lentificação da
velocidade de condução documentada pela REV constitui um marcador
indelével de danos anteriores. Quanto as latências retardadas, os potenciais
atenuados ou os bloqueios da condução são bilaterais, a lesão não pode ser
localizada com precisão, porque pode estar situada em qualquer ponto ao
longo das vias visuais.