Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Formação defeituosa do tubo neural

FIGURA 1-5

 

Formação defeituosa do tubo neural O processo de neurulação, incluindo o fechamento do tubo neural, é o

primeiro alvo da patogênese que compromete especificamente o

desenvolvimento do sistema nervoso. Os defeitos do tubo neural – mais

frequentemente o não fechamento do tubo neural – podem ser causados por

uma série de fatores, incluindo mutações de único gene, anomalias

cromossômicas aneuploides, exposições tóxicas a produtos farmacêuticos,

substâncias químicas e drogas de uso abusivo, diabetes materno e

deficiências dietéticas – mais notavelmente baixos níveis de ácido fólico. O

não fechamento do tubo neural craniano resulta em anencefalia ou

encefalocele (Fig. 1-5), enquanto o fechamento caudal defeituoso resulta

em mielomeningocele (Fig. 1-7). O início de anencefalia, um mau

desenvolvimento caracterizado pela ausência da maior parte do

prosencéfalo, ocorre no vigésimo quarto dia. A abóbada craniana está

ausente e o cérebro é uma massa vascular. O exame com ultrassom e um

nível elevado de alfafetoproteína e de líquido amniótico indicam o

diagnóstico no pré-natal. O risco de recorrência é de 5%.

Encefalocele é a protrusão de uma porção do cérebro ou meninges

através de um defeito craniano. Embora a encefalocele normalmente ocorra

na região occipital em pacientes da Europa e América do Norte, ela pode

desenvolver-se frontalmente ou nas passagens nasais, em especial nas

crianças do sudoeste asiático (Fig. 1-5). O tecido cerebral herniado está

conectado por meio de um istmo estreito. Nas encefaloceles occipitais,

podem estar associadas anormalidades do cerebelo e mesencéfalo. A

síndrome de Meckel-Gruber inclui encefalocele posterior, microcefalia,

microftalmia, fendas labial e palatina, polidactilia e rins policísticos. Essa

síndrome é herdada de maneira autossômica recessiva, enquanto para os

pais de uma criança com encefalocele simples, o risco de recorrência é de

5%. A mielomeningocele resulta do não fechamento caudal do tubo neural,

com uma incidência de 80% na região lombar. Sendo o fechamento do

canal central essencial para o desenvolvimento subsequente do SNC rostral,

a mielomeningocele também causa inúmeras anomalias encefálicas

associadas. No pré-natal, a ultrassonografia fetal é usada para diagnosticar

uma mielomeningocele. No pós-natal, a ressonância magnética (RM) é

particularmente valiosa para delinear a extensão das anormalidades

estruturais. Todos os bebês afetados requerem intervenção neurocirúrgica. O prognóstico depende do grau de envolvimento do SNC, que pode ser

difícil de avaliar no neonato.

FIGURA 1-6

 

A malformação mais comum do SNC é a holoprosencefalia

(arrinencefalia). A holoprosencefalia resulta do desenvolvimento incompleto e da septação das estruturas de linha média do SNC. Pode ser

isolada ou associada a outros defeitos cerebrais e ocorre em graus variáveis

de gravidade. A forma mais grave resulta em um único ventrículo, ausência

do sistema olfatório, nervos ópticos hipoplásicos ou até um único olho

“ciclópico”. O corpo caloso está ausente, e o córtex é malformado. As

anomalias faciais potenciais incluem um único olho (cíclope) e uma única

protuberância nasal (probóscida), mas nos casos menos graves, os defeitos

incluem hipotelorismo ocular, microftalmia, nariz achatado e fendas labial e

palatal mediana. O exame ultrassonográfico indica o diagnóstico pré-natal,

e as imagens de RM podem delinear a extensão dos defeitos. A morte

precoce é previsível nas formas graves. Anormalidades cromossômicas

(trissomia 13-15, trissomia do 18) estão presentes em 50% dos casos. Em

uma pequena porcentagem de casos holoprosencefálilcos

(aproximadamente 7%), os genes relacionados com a proteína SHH (sonic

hedgehog) sofreram mutação. Uma percepção maior das anomalias

cromossômicas e genes únicos associados à holoprosencefalia tornam o

aconselhamento genético importante para as famílias com um filho

holoprosencefálico.

Várias outras condições clínicas, caracterizadas por falha congênita da

fusão das estruturas da linha média da coluna espinal, são agrupadas na

mesma classificação geral de disrafismo espinal. Essas várias manifestações

do estado disráfico abrangem um continuum clínico que vai de

anormalidades ósseas assintomáticas e invisíveis (espinha bífida oculta) a

lesões cutâneas que podem sugerir uma medula presa associada (covinhas,

lipoma ou hemangioma subcutâneo) e até malformações congênitas

incapacitantes das estruturas espinais (mielomeningocele). Imagens

precoces de RM pós-natal transformaram o tratamento dos bebês com essas

lesões.