Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Transtornos por Uso de Opioides
FIGURA 4-16
Transtornos por Uso de Opioides
O mau uso, uso abusivo e dependência (transtornos por uso de opioides)
referem-se à autoadministração patológica de substâncias que ativam receptores mu-opioides centrais, com a finalidade de experimentar um
estado mental alterado (euforia ou relaxamento), ou no indivíduo
dependente de opioide para a finalidade de evitar a abstinência de opioide.
Opiáceos de ocorrência natural (morfina, codeína) são encontrados nas
vagens da papoula Papaver somniferum como a seiva do látex, ópio; a
heroína é um opioide sintético derivado do ópio. Analgésicos vendidos com
prescrição incluem opioides semissintéticos (p. ex., hidrocodona,
oxicodona) e sintéticos (p. ex., metadona, fentanil). Tanto a heroína quanto
analgésicos opioides podem ser inalados ou injetados para se obter o
“barato” (euforia); outras vias incluem fumar heroína e engolir/mastigar
analgésicos opioides. A toxicologia de rotina detecta apenas opiáceos
(metabólitos da heroína), e a detecção por cromatografia
gasosa/espectrometria de massa (GC/MS) é necessária para analgésicos
opioides semissintéticos e sintéticos.
De acordo com a pesquisa 2010 National Survey on Drug Use and
Health, 200.000 residentes nos Estados Unidos acima de 12 anos de idade
confirmaram o uso de heroína no mês precedente, e 5,1 milhões de
residentes confirmaram o mau uso de opioide vendido sob prescrição no
mês precedente. O mau uso de opioides vendidos com prescrição triplicou
na última década em conjunto com aumentos semelhantes na prescrição de
opioides e nos óbitos por superdosagem involuntária de opioides.
Familiares e amigos são as fontes de analgésicos opioides ilícitos relatadas
com mais frequência, contribuindo para uma exposição maior dos jovens,
taxas elevadas (6% de prevalência no mês precedente) de mau uso de
analgésicos opioides entre jovens de 18 a 25 anos de idade e um número
alarmante de ingestões pediátricas acidentais e óbitos.
A intoxicação por opioide pode ser reconhecida por miose, disartria,
estado mental alterado e sedação, constipação, prejuízo do julgamento e
tempo de reação lentificado. O uso recorrente de opioide resulta em
tolerância aos efeitos centrais e progressão para a dependência fisiológica
no uso de opioide para evitar a abstinência da substância. A dependência
fisiológica por si só não é um transtorno por uso de opioide; entretanto, é
quando o indivíduo também experimenta preocupação com obter, usar e se
recuperar do uso de opioide de tal forma que o funcionamento social e
ocupacional fica reduzido ou prejudicado. Os sintomas de abstinência de
opioide incluem midríase, diaforese e febre, aumento da frequência cardíaca, cólicas abdominais, náuseas/vômitos e diarreia, lacrimejamento,
rinorreia, piloereção, câimbras nas pernas, bocejos, insônia e ansiedade.
Embora a dependência fisiológica por si só não seja suficiente para definir
um transtorno por uso de opioide, ela representa um risco de desenvolver
um transtorno por uso de opioide, particularmente em populações
vulneráveis, como as que têm uma história de uso abusivo de substâncias,
doença mental ou carga genética para transtornos relacionados com
substâncias.
As consequências clínicas do mau uso de opioides são inúmeras, e o
risco é proporcional à quantidade de autoadministração de opioide, à via de
administração (com o uso injetável acarretando a maior probabilidade de
morte por superdosagem, bem como taxas elevadas de transmissão de
doenças infecciosas pelo sangue, especialmente o vírus da hepatite C
[HCV] e o vírus da imunodeficiência humana [HIV]) e à duração do uso
(as mulheres são mais rapidamente suscetíveis tanto às consequências
médicas quanto sociais, com frequência referido como “efeito
telescópico”). A mortalidade por superdosagem está associada ao uso de
doses altas de opioides, ao uso concomitante com álcool e outros sedativos
e ao uso injetável. O uso injetável está comumente associado a celulite e
infecção estafilocócica, flebite e endocardite. A dor é frequentemente
comórbida entre jovens e adultos dependentes de opioides. As
consequências sociais e legais incluem desemprego, violência doméstica e
detenção por comportamentos criminosos relacionados com a droga.
A manutenção farmacológica proposta pela FDA para transtornos por
uso de opioides inclui o antagonista do receptor mu-opiáceo naltrexona, o
agonista parcial do receptor mu-opiáceo buprenorfina ou o agonista total
do receptor mu-opiáceo metadona. Terapias comportamentais sem
manutenção farmacológica têm taxas elevadas de insucesso (recidiva no uso
de opioide) tanto em jovens quanto em adultos. O tratamento ideal combina
manejo farmacológico com terapia comportamental e participação em
programas de autoajuda. A terapia com naltrexona tem sido limitada pela
má adesão dos pacientes à naltrexona oral: o desenvolvimento recente de
uma formulação injetável de liberação estendida que dura quatro semanas
pode ter resultados superiores. A buprenorfina tem um perfil de segurança e
tolerabilidade favorável comparada à metadona e também oferece acesso
baseado em consultório aos pacientes, em oposição à dosagem monitorada diariamente em clínicas de terapia de manutenção de metadona. Os
pacientes que precisam de monitoramento médico atento e apoio mais
intensivo do serviço social podem se beneficiar mais da estrutura das
clínicas de metadona.
A prescrição segura de opioides previne o desvio de analgésicos
opioides. É preciso que os médicos façam a triagem de pacientes quanto à
vulnerabilidaade ao mau uso de opioide e que discutam esses riscos com
eles. As estratégias de prevenção incluem limitar a quantidade, o uso de
serviços estaduais de monitoramento da prescrição, designação de
farmácias e contratos de tratamento, toxicologia, contagem de comprimidos
e monitoramento de comportamentos anormais (p. ex., “pular de médico em
médico”, acabar rápido com os comprimidos, “perda” ou roubo de
prescrições). A melhora funcional com analgésicos opioides deve ser
monitorada atentamente para evitar o tratamento crônico e desnecessário
com opioides. A educação do paciente no armazenamento seguro (uso de
cofres), dosagem segura e descarte seguro são essenciais e podem ser
relembrados com mnemônicos como o “STOP & DUMP” (“Pare e
Descarte”), que significa guardar a medicação em segurança, usar apenas
conforme prescrito e descartar medicações e comprimidos não usados.