Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Seção 11: Infecções do sistema nervoso
S E Ç Ã O 11
Infecções do sistema nervoso
FIGURA 11-1
Meningite Bacteriana Patofisiologia
A meningite bacteriana é inicialmente uma infecção purulenta aguda das
meninges e espaço subaracnóideo que é seguida por uma reação
inflamatória no espaço subaracnóideo, parênquima encefálico, e artérias
(arterite) e veias (trombose e tromboflebite do seio dural) encefálicas. A
meningite é mais frequentemente o resultado da invasão bacteriana do
espaço subaracnóideo a partir de uma disseminação hematogênica. A
meningite bacteriana pode ser precedida por colonização da nasofaringe
pelo organismo ou se desenvolver como uma complicação de pneumonia,
otite média aguda, sinusite aguda, endocardite, fratura craniana, um
procedimento neurocirúrgico, ou o uso de um cateter para redução da
pressão intracraniana ou administração de agentes quimioterápicos ou
antimicrobianos.
O patógeno meníngeo pode ser estimado pela idade do paciente. Em
neonatos os patógenos mais comuns são estreptococos do grupo B
(Streptococcus agalactiae), bacilos Gram-negativos, e Listeria
monocytogenes. Em crianças, adolescentes e adultos, os organismos
causadores mais comuns de meningites bacterianas adquiridas na
comunidade são Neisseria meningitidis e Streptococcus pneumoniae.
Listeria monocytogenes é um organismo causador de meningite em
indivíduos com comprometimento da imunidade mediada por células
devido a transplante de órgãos, doenças crônicas, gestação, síndrome da
imunodeficiência adquirida, malignidades, terapia imunossupressora, ou
idade. Quando a meningite é uma complicação de otite média aguda,
mastoidite ou sinusite, os organismos causadores são Streptococcus spp.,
anaeróbios Gram-negativos, S. aureus, Haemophilus sp., ou pertencentes a
família Enterobacteriaceae. Meningite no paciente pós-neurocirurgia e no
paciente com ventriculostomia ou outro cateter interno pode ser causada por
estafilococos, bacilos Gram-negativos ou anaeróbios.
Manifestações Clínicas
Os sinais e sintomas da meningite no neonato incluem irritabilidade,
letargia, má alimentação, vômitos, diarreia, instabilidade de temperatura,
angústia respiratória, apneia, convulsões, e uma fontanela abaulada. Os
sinais e sintomas de meningite bacteriana em criança, adolescente e adulto incluem febre, vômitos, fotofobia, cefaleia, rigidez de nuca (meningismo) e
uma redução no nível de consciência variando de letargia a estupor,
embotamento, ou coma.
Ao exame físico, o sinal clássico de meningite bacteriana é o
meningismo, mas este sinal não está invariavelmente presente. O pescoço
resiste à flexão passiva. Os sinais de Kernig e Brudzinski também são sinais
de irritação meníngea (Fig. 11-2). Ambos os sinais são desencadeados com
o paciente na posição supina. Para desencadear o sinal de Kernig, a coxa é
flexionada em direção ao abdome, com o joelho flexionado. Tentativas de
estender passivamente a perna desencadeiam dor e são acompanhadas de
resistência quando está presente irritação meníngea. O sinal de Brudzinski é
positivo quando a flexão passiva do pescoço resulta em flexão espontânea
do quadril e joelhos. A presença de um exantema petequial no tronco e
extremidades inferiores, nas membranas mucosas e conjuntiva, e
ocasionalmente nas regiões palmares e plantares é típico do exantema da
meningococcemia. Um exantema petequial não é visualizado em todos os
casos de meningite meningocócica, e um exantema petequial é raramente
visualizado em meningites por H. influenzae, pneumocócica e
estafilocócica. Pacientes com meningite enteroviral também podem
apresentar exantema, mas este é um exantema maculopapular eritematoso
que envolve a face e pescoço no início da infecção.
Diagnóstico
O padrão-ouro para o diagnóstico de meningite bacteriana é a análise do
líquido cerebroespinal. Um exame por tomografia computadorizada (TC)
deve ser obtido no paciente com qualquer um dos seguintes: alteração do
nível de consciência, papiledema, um déficit neurológico focal, atividade
convulsiva de início recente, estado de imunocomprometimento, pupila
dilatada ou pobremente reativa, sinais de lesão expansiva na fossa posterior
(anormalidades do nervo craniano, déficit cerebelar e uma marcha
descoordenada e com base ampla), ou um risco de neurocisticercose. As
anormalidades clássicas no exame do líquido cerebroespinal na meningite
bacteriana são: (1) uma pressão de abertura maior que 180 mm H O, (2) um 2
aumento na contagem de células brancas com predominância de leucócitos
polimorfonucleares, (3) uma redução na concentração de glicose (menos de 40 mg/dL), (4) um aumento na concentração de proteína, e (5) coloração de
Gram e cultura bacteriana positivas. A coloração de Gram é positiva na
identificação do organismo em 60% a 90% dos casos de meningite
bacteriana. A probabilidade de detectar a bactéria em um espécime corado
por Gram depende do número de organismos presentes. A reação da
polimerase em cadeia (PCR) para detecção da sequência bacteriana
conservada ampla do ácido ribonucleico ribossomal (rRNA) 16S no líquido
cerebroespinal (LCS) é capaz de detectar ácido nucleico bacteriano no LCS.
Também existem PCRs específicos para patógenos meníngeos disponíveis
para identificar o ácido nucleico de um patógeno meníngeo específico. A
PCR é mais útil na rápida distinção entre meningite bacteriana e viral. A
PCR não irá substituir a cultura bacteriana, pois esta é essencial para testes
de sensibilidade antimicrobiana.
FIGURA 11-2
As anormalidades clássicas no líquido cerebroespinal na meningite viral
são (1) uma pressão de abertura normal, (2) pleocitose linfocítica, (3) uma concentração normal de glicose e (4) uma concentração de proteína normal
ou ligeiramente elevada. Os enterovírus podem ser isolados na cultura de
LCS ou detectados no LCS por reação da polimerase em cadeia precedida
de transcrição reversa (RT-PCR). O ácido desoxirribonucleico (DNA) do
vírus herpes simples tipo 2 pode ser detectado no LCS por PCR. O RNA do
vírus da imunodeficiência humana 1 (HIV-1) pode ser detectado e
mensurado no LCS, e o vírus pode ser cultivado a partir do LCS.
Anticorpos da classe das imunoglobulinas M (IgM) contra vírus podem ser
detectados no LCS.
Em pacientes com apresentação clínica de meningite e uma pleocitose
linfocítica no LCS com redução na concentração de glicose, são
diagnósticos diferenciais infecções fúngicas, Mycobacterium tuberculosis,
sarcoidose e linfoma/metástases leptomeníngeas. Uma hemorragia
subaracnoide se manifesta com cefaleia e uma súbita perda transitória de
consciência. O exame do líquido espinal irá revelar eritrócitos e
xantocromia, apesar de o aparecimento da xantocromia poder levar diversas
horas.
Tratamento
Quando existe suspeita de meningite bacteriana, devem ser imediatamente
iniciados dexametasona e terapia antimicrobiana empírica. A escolha da
terapia antimicrobiana empírica depende do patógeno meníngeo suspeitado,
o qual é determinado pela idade do paciente e condições predisponentes ou
associadas. Uma vez tendo sido identificado o organismo e serem
conhecidos os resultados dos testes de sensibilidade antimicrobiana, a
terapia antimicrobiana é modificada adequadamente.
Complicações
As principais complicações da meningite bacteriana são edema encefálico
focal e difuso, hidrocéfalo, complicações cerebrovasculares arteriais
(derrame isquêmico e/ou hemorrágico), trombose séptica do seio com
tromboflebite, perda auditiva e vestibulopatia, e convulsões. São as
complicações da meningite bacteriana que causam os déficits neurológicos
agudos e crônicos.