Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Geração de diversidade neuronal na medula espinal e metencéfalo
FIGURA 1-19
Geração de diversidade neuronal na medula
espinal e metencéfalo
A morfogênese finalmente reflete o estabelecimento de distintas classes
celulares em números e posições apropriados em todo o tubo neural. Na medula espinal e metencéfalo, a relação básica entre as células-tronco
neurais e sua progênie está bem estabelecida. Essas relações definem as
linhagens celulares, geralmente para a medula espinal e metencéfalo. As
principais distinções que estabelecem linhagens – a variação de tipos
celulares gerados por classes específicas de células-tronco neurais – são: a
posição no tubo neural das células-tronco e a via pela qual a progênie pós-
mitótica alcança seu destino final.
As células-tronco neurais na medula espinal e metencéfalo podem ser
divididas em quatro classes amplas: neurônios motores e progenitoras
interneuronais relacionadas, neurônios de retransmissão sensitiva e
progenitoras interneuronais relacionadas, células progenitoras gliais e
progenitoras da crista neural. Existem distinções-chave para cada uma
dessas quatro classes. As duas primeiras classes de células-tronco, as
progenitoras motoras e sensitivas, têm a capacidade de dar origem tanto a
neurônios de projeção com longos axônios que conectam a medula espinal
aos músculos e gânglios autonômicos (motores), ou enviam axônios da
medula espinal para regiões encefálicas superiores para retransmitir
informações sensitivas. Essas células-tronco também podem dar origem a
múltiplas classes de interneurônios, cujos axônios permanecem em estreita
proximidade com a posição do corpo celular interneuronal e que tendem a
estabelecer um controle inibidor para os neurônios de projeção motora ou
sensitiva. Para essas classes de células-tronco (e para as progenitoras
intermediárias relacionadas), a maior parte da divisão celular ocorre na zona
ventricular/marginal. Os neuroblastos recém-gerados são então deslocados
para pequenas distâncias para adquirir uma posição apropriada no corno
dorsal ou anterior. No metencéfalo, existe alguma migração celular local
entre localizações anteriores-posteriores distintas (definida pela organização
segmentar de rombômeros que prefigura a morfogênese do metencéfalo)
que leva a uma maior diversidade das células nos núcleos de retransmissão
dentro do nervo craniano motor ou sensitivo. A terceira classe de células-
tronco dá origem à glia, na medula espinal e metencéfalo. Essas células-
tronco são indistinguíveis das progenitoras neuroepiteliais que dão origem
aos neurônios, e de fato são principalmente multipotentes: dão origem a
neurônios assim como a células gliais.
A especificação e subsequente geração e diferenciação da progênie glial
são distintas desses neurônios. Na maioria das vezes, as classes primárias da glia – astrócitos, células oligodendrogliais (ver adiante) e glia radial – são
geradas depois dos neurônios da medula espinal e metencéfalo. Os
astrócitos diferenciam-se ainda em duas classes: (1) astrócitos
protoplasmásticos, que são encontrados principalmente adjacentes aos
corpos celulares neuronais e seus processos, onde constituem coletivamente
o neurópilo (substância cinzenta), e (2) astrócitos fibrosos, que são
encontrados principalmente nos tratos axonais (substância branca) e cujos
processos geralmente contatam os vasos sanguíneos. A glia radial
assemelha-se às progenitoras neuroepiteliais e, de fato, podem ser
indistinguíveis dessas células de muitas maneiras. Um pequeno número de
células gliais radiais permanece na zona ependimária madura em muitas
regiões, e essas células, quando postas em condições apropriadas de cultura,
podem gerar neurônios assim como astrócitos e células oligodendrogliais.
Desse modo, a glia radial parece consistir em células-tronco neurais, ou
pelo menos retém a capacidade da célula-tronco neural de poder se
expressar sob condições distintivas. As células oligodendrogliais interagem
com os axônios para gerar bainhas de mielina que asseguram uma condução
eficiente dos potenciais de ação (Fig. 1-19). As precursoras
oligodendrogliais são geradas inicialmente na linha média anterior e contam
com algumas das mesmas moléculas sinalizadoras secretadas e fatores de
transcrição que também influenciam a determinação do neurônio motor e a
diferenciação. Subsequentemente, porém, as precursoras oligodendrogliais
são encontradas em todo encéfalo em desenvolvimento e no definitivo,
podendo perder sua capacidade de progenitoras (e, em alguns casos, quando
isoladas e postas em cultura, podem originar tanto neurônios como glia) ou
gerar oligodendróglias de mielinização local.
A quarta classe de células-tronco neurais, geradas a partir do tubo neural,
que dá origem à medula espinal e ao metencéfalo, é a progenitora da crista
neural. Como mencionado anteriormente, essas células-tronco geram
progenitoras intermediárias que então dão origem aos neuroblastos
migratórios pós-mitóticos, que se movem ativamente, ou migram, para
curtas distâncias do tubo neural e depois se reagregam para formar os
gânglios sensitivos, incluindo os gânglios da raiz posterior e da maior parte
dos nervos cranianos. Algumas células ganglionares sensitivas possuem um
único corpo celular com um processo único que se bifurca em: processo do
receptor periférico e processo pré-sináptico central. Essa polaridade facilita a geração de potenciais de receptores na periferia que também iniciam
potenciais de ação que são conduzidos na direção do SNC, onde as
informações sensitivas são então retransmitidas via sinapses formadas pelo
processo central da célula ganglionar sensitiva. A crista neural também gera
uma célula ganglionar sensitiva verdadeiramente bipolar, as células
ganglionares sensitivas bipolares do gânglio espiral (auditivo) ou gânglio
vestibular (de Scarpa). Esses neurônios possuem um distinto processo pós-
sináptico que recebe sinapses das células pilosas auditivas ou vestibulares e
um processo central que retransmite informações sensitivas por meio de
sinapses formadas no núcleo coclear ou núcleo vestibular no metencéfalo.
Os neuroblastos derivados da crista neural também coalescem para formar
os gânglios autonômicos da cadeia simpática, assim como os gânglios
parassimpáticos de distribuição mais ampla. Finalmente, os neuroblastos
derivados da crista neural dão origem às células cromafínicas suprarrenais
neurossecretoras encontradas na medula da suprarrenal. A crista neural
também dá origem a significativas populações de células progenitoras
migratórias que ainda se dividem em seus destinos. Estas incluem as células
mesenquimais da crista neural, que povoam os primórdios craniofaciais e da
cabeça e dão origem às meninges (aracnoide, pia e dura), algumas células
associadas aos vasos sanguíneos locais e múltiplos elementos esqueléticos,
incluindo dentes e ossos cranianos. Além disso, as células pigmentares na
epiderme são derivadas das progenitoras migratórias da crista neural.
Finalmente, a principal classe de células gliais periféricas, as células de
Schwann, cujas características são similares às da oligodendróglia no SNC,
é derivada da crista neural.