Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Seção 3: Epilepsia

S E Ç Ã O 3

 

Epilepsia

FIGURA 3-1

 

Eletroencefalografia

O eletroencefalograma (EEG) é um registro da atividade elétrica das células

nervosas no encéfalo. O EEG é baseado na medição de campos elétricos produzidos pela condução de volume de correntes iônicas de células

nervosas através do espaço extracelular. Os potenciais registrados do EEG

surgem do fluxo da corrente extracelular, a partir dos potenciais excitatórios

pós-sinápticos totalizados (PEPSs) e dos potenciais inibitórios pós-

sinápticos (PIPSs). O EEG não registra a atividade dos neurônios de forma

individual, porém depende da soma de milhares a milhões de potenciais

pós-sinápticos (PPSs), e dessa forma representa a atividade de uma ampla

agregação neuronal. Embora os potenciais de ação dos nervos apresentem

alterações de voltagem mais elevadas do que PEPSs e PIPSs, devido à

ausência da soma e da curta duração dos potenciais de ação, geralmente

acrescentam pouca atividade ao EEG. Durante as crises, ocorre o disparo

síncrono de conjuntos amplos de potenciais de ação dos neurônios, que

podem contribuir para o sinal do EEG. O modo usual para registrar um

EEG é colocar pequenos eletrodos sob a forma de discos metálicos no

couro cabeludo em posições padronizadas. O sinal desses eletrodos é então

amplificado, digitado e armazenado eletronicamente. O EEG é então lido

em uma tela de computador.

 

Atividade da onda encefálica

A atividade encefálica consiste de formas de ondas que variam na

polaridade, configuração e frequência, e geralmente variam na voltagem de

20 a 60 microvolts. A atividade do EEG no couro cabeludo evidencia

oscilações em diversas frequências, representando uma atividade

sincronizada sobre uma rede de neurônios. As formas de ondas do EEG são

classificadas de acordo com suas frequências, medidas em ciclos por

segundo ou Hertz (Hz). A atividade alfa varia entre 8 a 13 Hz. O ritmo alfa

está predominantemente na região posterior da cabeça, e é a frequência de

fundo característica de uma pessoa em estado de vigília normal. Isso ocorre

quando os olhos estão fechados e atenuados, e quando os olhos estão

abertos. A atividade beta é de baixa amplitude, sendo uma atividade rápida

com uma frequência de 13 a 30 Hz, e em geral está presente sobre as

regiões anteriores da cabeça. A atividade teta varia de 4 a 7 HZ, e a

atividade delta ocorre em uma frequência menor do que 4 Hz. Existe uma

maturação de desenvolvimento do EEG. Por exemplo, em uma criança

recém-nascida, o EEG não demonstra uma atividade de configurações de ondas mistas contínuas, como seria esperado em um adulto. Em vez dessa

ocorrência, um bebê apresenta atividade delta amorfa contínua. As outras

frequências de configurações de ondas emergem progressivamente

enquanto o encéfalo do bebê se desenvolve. Os padrões do EEG se alteram

durante os diferentes estágios do sono, e contribuem para a definição desses

estágios. Os padrões do EEG são muito diferentes para os estágios de

movimentos rápidos dos olhos (REM) comparado com o sono não REM.

Para o estágio II do sono não REM, o EEG evidencia atividade em fuso

(atividade sinusoidal de 10 a 14 Hz), e ondas de vértices agudos. Durante os

estágios III a IV, predomina a atividade delta de alta voltagem do sono não

REM. O EEG durante o sono REM assemelha-se ao EEG durante a vigília,

com um fundo de baixa amplitude e uma mistura ou combinação de

frequências.

Os principais tipos de anormalidade que podem ser observados no EEG

são a desaceleração das frequências de fundo, a atividade epileptiforme, e a

supressão de atividade. A desaceleração das atividades de fundo pode ser

difusa ou focal. A desaceleração difusa sugere uma disfunção encefálica

generalizada, que pode ser causada por diversos fatores agressivos, tais

como uma lesão encefálica global, toxinas, inflamação, ou processos

degenerativos. A desaceleração focal é muitas vezes indicadora de uma

lesão estrutural, tal como um tumor ou um acidente vascular. A atividade

epileptiforme indica que o paciente está em risco para convulsões. A

supressão de atividade pode ser focal ou difusa, e é indicadora de uma

disfunção grave da função encefálica.

 

Indicações para EEG

As principais indicações para obter um EEG são para avaliar os distúrbios

convulsivos, os processos de doenças intracranianas, coma e morte cerebral.

A razão mais comum para um EEG é caracterizar um distúrbio convulsivo.

O EEG é útil na definição das síndromes de epilepsia e para a localização

de um foco convulsivo. Considerando que as crises ocorrem de forma

pouco frequente, a atividade do EEG geralmente é medida entre as

convulsões para determinar a presença de formas de ondas características,

tais como ondas agudas ou sob a forma de pontas. Essas formas de ondas

significam uma predisposição para a epilepsia. Capturar uma crise epiléptica no EEG geralmente requer um monitoramento a longo prazo com

vídeo. Para alguns processos da doença, o EEG evidencia padrões

específicos de diagnóstico, tais como as ondas agudas periódicas

generalizadas na doença de Creutzfeldt-Jakob. O EEG também é muito útil

na avaliação de pacientes comatosos. Podem ser evidenciados padrões

distintos que podem confirmar que o diagnóstico de uma condição

subjacente, tais como ondas trifásicas em coma hepático, descargas

pontiagudas em um estado epiléptico não convulsivo e atividade beta

excessiva associada com uma sobredosagem de fármacos barbitúricos ou

benzodiazepínicos. Finalmente, o EEG pode ser usado para confirmar a

morte encefálica em pacientes nos quais a atividade do EEG cessou, e estão

presentes os critérios clínicos para a morte encefálica.