Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Meningiomas
FIGURA 12-7
Meningiomas Meningiomas representam a neoplasia intracraniana primária mais comum,
compreendendo aproximadamente um terço de todos os tumores
intracranianos. Estes tumores surgem das células meningoteliais e são
classificados como grau I (benigno), II (atípico) ou III (anaplásico) pela
Organização Mundial de Saúde (OMS). Sua incidência aumenta com a
idade e são duas vezes mais comuns em mulheres. Esta diferença de gênero
é ainda mais pronunciada nos meningiomas espinais, que são muito raros
em homens. Meningiomas em geral são vistos raramente em crianças,
exceto naquelas com síndromes genéticas como neurofibromatose (NF-2)
ou com história de exposição prévia à radiação. Muito interesse cerca a
epidemiologia dos meningiomas. Até o momento, radiação ionizante e o
uso de hormônios surgiram como fatores de risco para o desenvolvimento
destes tumores. Meningiomas induzidos por radiação tendem a apresentar
maior frequência de multiplicidade e maior taxa de malignidade que
meningiomas esporádicos.
O esquema de classificação da OMS é baseado na morfologia
histopatológica e correlacionado com o prognóstico. As lesões grau I da
OMS são consideradas benignas e de longe compreendem a maioria dos
meningiomas. Estas são adicionalmente subdivididas com base na sua
morfologia nos tipos meningoteliomatosos (incluindo tumores
“psamomatosos” com padrões celulares espiralados característicos),
fibromatosos e angioblásticos. A abordagem terapêutica para todos estes
subtipos de meningiomas benignos é a mesma. Meningiomas de grau II da
OMS são considerados meningiomas atípicos e constituem
aproximadamente 10% a 20% dos casos. Estes são caracterizados pela
maior atividade mitótica, definida como a presença de um número maior ou
igual a quatro mitoses por campo de alta-potência e três ou mais das
seguintes características: aumento da celularidade, razão nuclear-
citoplasmática elevada, nucléolos proeminentes, crescimento laminar
ininterrupto ou áreas de necrose. Os meningiomas de grau III da OMS são
os menos comuns, porém os mais sombrios. São classificados como
“malignos” ou “anaplásicos”. Estes tumores exibem perda dos padrões de
crescimento típicos do meningioma, crescimento infiltrativo, mitose
abundante com atipia e múltiplas áreas de necrose. Meningiomas de grau II
ou III apresentam probabilidade significativamente maior de apresentar
doença invasiva, recorrência local e sobrevida geral mais curta. Manifestações Clínicas
Os sinais e sintomas de apresentação dependem da localização e da taxa de
crescimento do tumor. Uma vez que a maioria dos meningiomas cresce
lentamente, os pacientes geralmente são assintomáticos e a descoberta do
tumor é um achado incidental. Qualquer sinal ou sintoma que se desenvolva
geralmente é secundário à compressão de estruturas subjacentes.
Convulsões muitas vezes representam sinais de meningiomas,
especialmente aqueles localizados perto do córtex encefálico. Fraqueza
focal é outra queixa frequente, com o padrão de fraqueza representando
uma possível indicação da localização do tumor. Por exemplo, fraqueza
bilateral da extremidade inferior na ausência de uma lesão da medula
espinal geralmente pode ser observada em lesões parassagitais originadas
na foice e comprimindo os feixes motores adjacentes dos dois hemisférios.
Uma possível preocupação com estas lesões é o envolvimento do seio
sagital, que pode provocar um infarto venoso. Meningiomas espinais
também podem causar fraqueza bilateral das pernas, mas geralmente isto é
acompanhado por dormência. Meningiomas do forame magno podem
apresentar fraqueza insidiosa do braço e da perna, que progride até envolver
os membros contralaterais. Isto é acompanhado por dor no pescoço,
agravada pela flexão do pescoço ou manobras de Valsalva. Devido aos
sintomas sutilmente progressivos, seu diagnóstico pode ser difícil e
confundido com esclerose múltipla.
Alterações visuais podem ser sutis, mas geralmente são observadas com
meningiomas. Os déficits podem incluir perda visual, déficits de campo
e/ou diplopia. Tumores do sulco olfatório, da porção medial da asa do
esfenoide e outros tumores parasselares podem comprimir o nervo óptico
(NC II), resultando em cegueira com atrofia óptica em um olho e
papiledema no outro. Isto também é conhecido como a síndrome de Foster-
Kennedy. Lesões parasselares também podem causar déficits do campo
visual. Quando os tumores envolvem o seio cavernoso, podem ser
observadas paralisias oculares. Isto geralmente é acompanhado por
dormência facial. Finalmente, os meningiomas podem surgir na bainha
óptica, resultando em perda da visão lentamente progressiva.
FIGURA 12-8
Outros sinais e sintomas incluem ataxia e hemiparesia secundárias a
lesões na fossa posterior, causando compressão do tronco encefálico. Meningiomas originados do ângulo pontocerebelar podem produzir perda
auditiva neurossensorial. Ocasionalmente, podem ficar muito aderidos aos
nervos cranianos e vasculatura adjacentes, tornando sua remoção difícil.
Grandes tumores na fossa posterior podem causar hidrocefalia obstrutiva.
Uma vez que a maioria dos meningiomas apresenta um crescimento
muito lento, o encéfalo tem tempo de se adaptar à massa em crescimento.
Portanto, os tumores do lobo frontal ou occipital podem ficar muito grandes
antes que as tênues relações de pressão sejam descompensadas, resultando
em manifestação sintomática. Tumores originados no lobo frontal podem
apresentar alterações cognitivas ou de personalidade ou outras alterações do
estado mental.
Estudos Diagnósticos
Ressonância magnética (RM) e tomografia computadorizada (TC) podem
ser usadas para diagnosticar meningiomas, embora RM seja a modalidade
de imagem preferida. Tipicamente, meningiomas são isointensos a
hipointensos em T1 e isointensos a hiperintensos em T2, com contraste
forte homogêneo. Muitas vezes, ocorre uma “cauda dural” característica,
um espessamento marginal da dura que se afunila na periferia. Na TC, o
meningioma parece uma massa extra-axial bem circunscrita, que algumas
vezes é calcificada. De modo semelhante à RM, é observado um contraste
homogêneo quando um meio de contraste intravenoso é administrado.
Ocasionalmente, áreas de necrose, formação de cistos ou hemorragia são
observadas. A TC também é útil para avaliar envolvimento ósseo. Embora o
envolvimento ósseo por tumores da convexidade encefálica seja raro, quase
50% dos tumores da base do crânio apresentarão envolvimento secundário
do osso.
Tratamento
Com a disponibilidade das modalidades de imagem, como RM e TC, os
meningiomas geralmente representam achados incidentais assintomáticos.
Geralmente, estes tumores permanecem inalterados ou têm crescimento
lento. É razoável acompanhar estes pacientes de modo conservador com
vigilância ativa, adiando o tratamento até que o tumor se torne sintomático
ou aumente significativamente de tamanho. Este é o caso especialmente para pacientes idosos (70 anos ou mais) ou aqueles com múltiplas
comorbidades cirúrgicas.
O limiar para intervenção cirúrgica em pacientes mais jovens é mais
baixo, porque a morbidade é menor que em pacientes mais velhos e porque
se supõe que estas lesões eventualmente irão progredir. Portanto, a
intervenção cirúrgica pode ser recomendada para lesões em locais
cirurgicamente acessíveis, mesmo que sejam assintomáticas. Em pacientes
com lesões sintomáticas ou tumores assintomáticos que pareçam
infiltrativos ou associados a edema vasogênico, a ressecção cirúrgica é
recomendada. A ressecção cirúrgica completa é possivelmente curativa e a
extensão da ressecção está correlacionada com o prognóstico. Avanços na
neurocirurgia, como microcirurgia, exames de imagem intraoperatórios e o
uso das RMs melhoraram a capacidade de um cirurgião ressecar com
sucesso estas lesões, ao mesmo tempo minimizando os danos para o tecido
normal vizinho.
Em alguns casos, apenas uma ressecção subtotal pode ser obtida. Nestes
casos, a radioterapia adjuvante deve ser considerada, porque estudos
retrospectivos apresentaram relatos de melhora da sobrevida livre de
progressão, embora não da sobrevida geral. A radioterapia isolada pode ser
efetiva para estas lesões cirurgicamente inacessíveis, com taxas de controle
local acima de 90% em 5 anos. Para tumores de grau II da OMS, a
frequência de recorrência é maior. Apesar da ausência de grandes estudos
prospectivos, a radioterapia adjuvante é recomendada para tumores
incompletamente ressecados. O papel da radioterapia após a ressecção
completa é controversa. Tumores de grau III invariavelmente exigem
radiação.