Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Convulsões e Epilepsia
FIGURA 3-2
Convulsões e Epilepsia A epilepsia é definida medicamente como uma condição caracterizada por
um indivíduo apresentando duas ou mais crises não provocadas. Uma
convulsão é um distúrbio paroxístico caracterizado por uma descarga
hipersíncrona, anormal e excessiva de neurônios que resulta em uma
alteração da função encefálica normal. Essa alteração de função pode ser
muito grave, tal como durante uma crise tônico-clônica (CTC; grande mal)
generalizada mal), ou muito mais sutil, tal como durante uma crise de
ausência (pequeno mal). Se as crises forem provocadas secundariamente, tal
como pela febre ou hipoglicemia, o termo epilepsia não deve ser usado. A
epilepsia não é um distúrbio isolado, mas sim um sintoma de um distúrbio
encefálico subjacente. A epilepsia é um distúrbio crônico, embora ocorra a
remissão espontânea para muitas crianças. Embora muitas pessoas com
epilepsia sejam normais em todos os outros aspectos, aproximadamente
50% apresentarão também deficiências complementares no âmbito
comportamental e cognitivo.
A história e o exame neurológico são as pedras angulares do diagnóstico
neurológico. Na avaliação para determinar quando um paciente pode ter
tido uma crise, é importante obter uma descrição de uma alteração
paroxística no comportamento, se houve uma perda de consciência, a
duração do período, e se foram encontrados estímulos que possam ter
precipitado uma crise. Uma história familiar de epilepsia deve sempre ser
averiguada. A principal importância da história é a descrição dos sinais
iniciais e sintomas. Por exemplo, a abordagem para um paciente com uma
aura antes de uma CTC é muito diferente de um paciente que tem uma CTC
sem uma aura. No primeiro caso, é provável que o paciente tenha um início
focal para a convulsão, aumentando as probabilidades da existência de uma
lesão estrutural responsável pela convulsão, enquanto na situação posterior,
é provável que o paciente tenha um estímulo indutor de crises, tal como
baixo teor de açúcar no sangue ou talvez uma condição genética subjacente.
As características pós-ictais podem ser úteis também. As crises de ausência
da infância são breves, duram normalmente 30 segundos ou menos, e
apresentam uma compensação rápida, com a criança retornando
rapidamente ao estado normal. As crises parciais complexas são de maior
duração, permanecendo 30 segundos a diversos minutos, e normalmente
apresentam algum grau de confusão e cansaço após o evento.
Existem muitos distúrbios episódicos que são semelhantes às convulsões.
Episódios tais como terrores noturnos, crises de interrupção respiratória ou
síncope, podem assemelhar-se a crises epilépticas. O período de duração do
evento é importante. Quando noturnas, as crises epilépticas ocorrem
normalmente nas primeiras horas da manhã, enquanto os distúrbios do
sono, tais como os terrores noturnos ocorrem normalmente várias horas
após a criança cair no sono. Uma criança nova para a qual o evento sempre
ocorre em combinação com o desencadeamento de choro, é provável que
tenha crises de interrupção respiratória. Os indivíduos que sentem tontura e
sudorese antes de perder a consciência apresentam a probabilidade de ter
uma síncope em vez de epilepsia. Se houver dúvidas sobre o diagnóstico,
geralmente é melhor esperar antes de iniciar a terapia.
As crises são classificadas dentro de duas categorias principais: focal e
generalizada. As crises focais se originam dentro de uma região localizada
do encéfalo, e podem se continuar em convulsões generalizadas. As crises
generalizadas envolvem rapidamente ambos os hemisférios do encéfalo. As
crises generalizadas são classificadas de forma complementar como tônicas,
clônicas, tônico-clônicas, de ausência, mioclônicas e atônicas.
Crises (parciais) focais
As crises focais se originam dentro de redes de uma região limitada do
encéfalo, muitas vezes confinada a um hemisfério. Elas podem ocorrer em
qualquer idade. As crises focais podem ser classificadas de forma
complementar na categoria das crises sem prejuízo da consciência (crises
parciais simples), e aquelas com prejuízo da consciência (crises parciais
complexas). As crises sem prejuízo da consciência podem ser subdivididas
de forma complementar dentro de crises com (1) componentes motores ou
autonômicos observáveis, ou (2) fenômenos psíquicos ou sensitivos
subjetivos. Os sinais ou sintomas de crises focais dependem da localização
do foco dentro do encéfalo. As crises envolvendo o córtex motor consistem
mais comumente de movimentos rítmicos ou movimentos clônicos
semirrítmicos da face, braço ou perna. Geralmente não existe dificuldade no
diagnóstico desse tipo de crise. As crises com sintomas somatossensitivos,
autonômicos e psíquicos (alucinações, ilusões, déjà vu (já visto) podem ser
mais difíceis para diagnosticar.
FIGURA 3-3
Geralmente, os sintomas psíquicos ocorrem como um componente de
uma crise focal com prejuízo da consciência ou receptividade. As crises focais com prejuízo da consciência (crises parciais complexas),
anteriormente denominadas de crises psicomotoras ou do lobo temporal,
são um dos tipos de crises mais comuns evidenciados tanto em crianças
quanto em adultos. O início da crise focal pode servir como uma
advertência para o paciente (ou seja, aura) de que uma crise mais grave está
pendente. É importante reconhecer que a aura pode possibilitar ao clínico
determinar a área cortical, a partir da qual a crise está começando.
A avaliação de conscência ou ciência pode ser sutil. Por exemplo, o
paciente pode não responder aos comandos ou responder de modo
anormalmente lento. Embora as crises focais com alterações do modo de
estar consciente ou ciente possam ser caracterizadas pela simples fixação do
olhar e receptividade prejudicada, o comportamento geralmente é mais
complexo durante a crise. Automatismo, comportamentos semi-intencionais
dos quais o paciente não tem consciência e subsequentemente não pode
recordar, são comuns durante o período de consciência prejudicada. Os
tipos de comportamentos de automatismo são muito variáveis e podem
consistir de atividades, tais como caretas faciais, gestos, mastigação,
rebaixar o lábio, estalar os dedos e repetir frases. O paciente não se recorda
completamente dessa atividade após a crise. A maioria dos pacientes
apresenta algum grau de comprometimento pós-ictal, tal como cansaço ou
confusão após a crise.
O EEG nas crises focais é caracterizado por picos focais ou ondas
agudas. Existe com frequência um relacionamento entre o local dos picos e
o tipo de crise, que é o seguinte: os picos do lobo occiptal estão associados
com as crises do lobo occiptal, enquanto os picos do lobo frontal estão
associados às crises do lobo frontal.
Diferentes tipos de crises podem evoluir em sucessão temporal no
mesmo paciente. Por exemplo, uma crise focal iniciando com consciência
normal pode tornar-se associada com alterações dessa consciência, e
subsequentemente evoluir para uma crise convulsiva generalizada,
considerando que a crise é iniciada dentro de um circuito neural local, e a
seguir propaga-se para envolver uma proporção ampla do encéfalo, e
finalmente ambos os hemisférios.
Crises generalizadas: crise tônico-clônica Uma crise tônico-clônica, ou crise do grande mal, é o tipo mais grave de
manifestação. Esse tipo de crise inicia-se com uma perda repentina de
consciência e enrijecimento tônico generalizado e da extensão do corpo,
após uma contração geral dos músculos. O paciente pode manifestar um
grito pungente resultante da expiração forçada de ar dos pulmões, através
das cordas vocais fechadas. A interrupção da respiração associada à cianose
ocorre após as contrações musculares tônicas, que impedem os movimentos
respiratórios normais. O paciente muitas vezes morde sua língua durante
essa fase da crise. A salivação ocorre porque o paciente não pode engolir
durante a crise. Além disso, a incontinência urinária está presente com
frequência.
A fase tônica inicial da crise é seguida pela fase clônica, na qual os
movimentos involuntários clônicos síncronos do corpo, generalizados
bilateralmente se alternam com períodos curtos de relaxamento. Como os
períodos de relaxamento tornam-se mais prolongados, os movimentos
clônicos diminuem gradualmente, e finalmente cessam.
Durante o período pós-ictal após a crise, o paciente apresenta-se instável,
limitado e não receptivo. A crise verdadeira pode durar cerca de 1 a 2
minutos, enquanto a fase pós-ictal pode permanecer durante 5 a 20 minutos.
Após esse período, o paciente pode despertar, porém permanece confuso, e
se não for perturbado, pode dormir durante uma hora ou mais, e acordar
com dor de cabeça e dor muscular generalizada.
As crises tônico-clônicas generalizadas podem ocorrer em qualquer
idade. Podem manifestar-se como crises primárias generalizadas, que se
apresentam dessa forma desde o início, ou podem ser crises secundárias
generalizadas, que são iniciadas como crises focais e a seguir tornam-se
generalizadas, considerando que a atividade da crise progride para envolver
regiões amplas do cérebro.
O EEG de uma crise tônico-clônica generalizada evidencia diversos tipos
de atividade da crise, que corresponde às diferentes fases desses eventos.
Durante a fase tônica, o EEG demonstra descargas generalizadas dos picos,
repetitivos e rápidos. Durante a fase clônica, o EEG apresenta descargas de
ondas e picos, com o pico correspondente aos movimentos involuntários
clônicos e a onda lenta para o período de relaxamento. Finalmente, durante
a fase pós-ictal, o EEG evidencia a atenuação generalizada da atividade de fundo seguida por lentidão, que diminui gradativamente considerando que o
paciente se recupera da crise.
FIGURA 3-4
Crises generalizadas: crises de ausência
(pequeno mal)
As crises de ausência geralmente iniciam e terminam na infância, embora
possam ser observadas em adultos. As ausências surgem abruptamente sem
uma aura, permanecendo alguns segundos a meio minuto e terminam
repentinamente. As crises de ausência são crises generalizadas
demonstrando clinicamente e por eletroencefalografia (EEG) o
envolvimento inicial bi-hemisférico. As crises de ausência apresentam um
início e uma compensação abruptos. Geralmente ocorre uma interrupção
repentina de atividades com um “branco”, e olhar distante no rosto. Quando
a crise prossegue, ocorrem muitas vezes automatismo e atividade motora
clônica leve, tal como movimentos involuntários dos braços e piscamento
dos olhos. O paciente muitas vezes não tem consciência de que teve uma
crise, porém geralmente reconhece que passou por um período de “branco”.
Em um paciente sem tratamento, as crises de ausência podem ocorrer
com muita frequência durante o dia. Algumas vezes essas crises ocorrem
em grupos, especialmente quando a criança está cansada ou sonolenta. Em
uma criança não submetida à administração de fármacos antiepilépticos, as
crises de ausência típicas podem ser precipitadas quase sempre pela
hiperventilação.
Existem quatro síndromes principais nas quais as crises de ausência
típicas representam um elemento importante: epilepsia de ausência da
infância (picnolepsia), epilepsia de ausência juvenil, epilepsia mioclônica
juvenil e epilepsia com ausências mioclônicas. As epilepsias de ausência
parecem ter uma base genética complexa. As crises de ausência atípicas,
uma forma de crises de ausência, geralmente ocorrem em crianças
cognitivamente debilitadas que apresentam outros tipos de crises. Ao
contrário das crises de ausência típicas, as crises de ausência atípicas são
muitas vezes mais prolongadas e apresentam um início menos identificável.
O EEG revela uma descarga de ondas e pontas de três ciclos por segundo,
simétricas, síncronas e bilaterais com atividade interictal de fundo normal.
O EEG interictal nesse distúrbio é específico e facilmente distinguido das
outras formas de epilepsias generalizadas. Na ausência atípica, as descargas de ondas e picos são irregulares na frequência e aspecto, e ocorrem em uma
periodicidade inferior a três ciclos por segundo.
Outras crises generalizadas
Crises Mioclônicas
As crises mioclônicas são caracterizadas por contrações bruscas de choque,
rápidas (<350 milésimos de segundo), que podem ser generalizadas ou
confinadas na face, tronco ou a uma ou mais extremidades, ou mesmo para
músculos individuais ou grupos de músculos. As crises mioclônicas
resultam em pequenos disparos de atividade eletromiográfica sincronizada.
As contrações de músculos são mais rápidas do que as contrações com as
crises clônicas. Qualquer grupo de músculos pode ser envolvido no
movimento involuntário. As crises mioclônicas podem ser graves, causando
a queda do paciente ao chão, ou podem ser sutis, assemelhando-se a
tremores. Considerando a brevidade das crises, não é possível determinar se
a consciência é prejudicada. A mioclonia pode ocorrer como um
componente de uma crise de ausência, ou no início de uma crise tônico-
clônica generalizada. O padrão de EEG interictal observado em pacientes
com crises mioclônicas consiste especificamente de descargas de pico-onda
generalizadas.
Crises Tônicas
As crises tônicas são episódios breves (geralmente menos do que 60
segundos), consistindo do início brusco de aumento de tônus nos músculos
extensores. Se a criança estiver em pé geralmente cai ao chão. As crises
tônicas são mais longas do que as crises mioclônicas. A atividade
eletromiográfica aumenta drasticamente nas crises tônicas. Ocorre alteração
do nível de consciência durante a crise, embora nas crises curtas possa ser
difícil de avaliar esse evento. O EEG das manifestações ictais das crises
tônicas consiste geralmente de picos síncronos bilaterais de 10 a 25 Hz de
média a alta voltagem com uma acentuação frontal.
Crises Atônicas As crises atônicas (astáticas), ou ataques de queda, são caracterizados por
uma perda repentina do tônus muscular. Essas crises começam bruscamente
e sem advertência, provocando a queda rápida do paciente ao chão, se ele
estiver em pé. Considerando que pode ocorrer a perda total do tônus
muscular, a criança não tem meios de se proteger dos danos provenientes
dessa queda. O ataque pode ser fragmentado e levar a criança a ter queda de
cabeça com relaxamento da mandíbula, ou cair ao solo pela falha de um
membro. Nas crises atônicas, ocorre a perda da atividade eletromiográfica.