Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Seção 7: Núcleos da base e transtornos do movimento
S E Ç Ã O 7
Núcleos da base e transtornos do
movimento
FIGURA 7-1
Anatomia dos Núcleos da Base e Estruturas
Relacionadas
Visão geral dos transtornos de
movimento
Nos últimos 30 anos os transtornos de movimento incluíram o estudo de
um grupo de condições caracterizadas por pobreza de movimentos, as
síndromes acinético-rígidas, e por aquelas com movimentos excessivos, os
transtornos de movimento hipercinéticos (tremor, distonia, mioclonias,
coreia/balismo, tiques e outros). Essa perspectiva tradicional, em que os
transtornos dos núcleos da base acarretavam as síndromes anteriormente
referidas, foi agora expandida para incluir as ataxias e os transtornos da
marcha e da postura. Avanços nas técnicas cirúrgicas e nos estudos de
aquisição de imagens ampliaram o horizonte clínico e o alcance de
percepção dos especialistas em transtornos do movimento. Com as
crescentes indicações da terapia por toxina botulínica, a espasticidade e
outros transtornos são tratados atualmente por muitos neurologistas
especializados em transtornos de movimento.
Os movimentos involuntários anormais (MIA) devem ser vistos como
sinais clínicos com muitas causas. O parkinsonismo, por exemplo, pode ser
a manifestação clínica de várias condições, com etiologias diferentes ou não
esclarecidas. A definição da categoria ampla do transtorno de movimento
em um determinado paciente precede a abordagem clássica ao diagnóstico
neurológico: localizar a lesão e determinar a etiologia da condição. Uma
história cuidadosa com atenção particular à constituição familiar básica,
gravidez, trabalho de parto e nascimento, marcos iniciais do
desenvolvimento, traumatismos, infecções, comorbidades clínicas e
psiquiátricas e o uso de drogas ilícitas e de medicações, especialmente
neurolépticos, é particularmente importante ao se avaliar pela primeira vez
um paciente apresentando movimentos involuntários anormais e pode
sugerir a causa subjacente. Um exame clínico geral detalhado, com ênfase
nos movimentos oculares, na presença de anéis de Kayser-Fleischer
(sugestivos de doença de Wilson) e um exame fundoscópico pesquisando
retinopatias e anormalidades do nervo óptico (papilite, papiledema ou atrofia do nervo óptico, sugerindo doenças desmielinizantes, transtornos
metabólicos ou citopatias mitocondriais); organomegalia (indicando
doenças metabólicas ou de armazenamento); e manchas ou depósitos na
pele (definindo facomatoses, xeroderma pigmentoso, vitaminoses, doenças
gastrointestinais, má absorção, calcinose ou depósitos de colesterol,
especialmente nos tendões musculares) pode mostrar-se recompensador. A
pesquisa de indicações adicionais, por um exame neurológico
cuidadosamente realizado, vai ajudar a se compreender a condição do
paciente.
Depois de classificados os movimentos anormais e de documentados e
colocados em contexto os acompanhamentos neurológicos, a causa pode se
evidenciar e podem ser realizados testes auxiliares apropriados.
Anatomia dos núcleos da base e estruturas
relacionadas
Anatomicamente os núcleos da base constituem um complexo de circuitos
que inclui neurônios do núcleo caudado, do putâmen, do núcleo
subtalâmico (NST), globo pálido e substância negra (SN). A eferência dos
núcleos da base está dirigida ao tálamo motor (e daí ao córtex frontal) e ao
núcleo pedunculopontino (NPP).
FIGURA 7-2
Globo Pálido Dividido pela lâmina medular interna em um segmento externo (GPe) e um
segmento interno (GPi), o globo pálido faz fronteira lateralmente com o
putâmen, dorsolateralmente com a cápsula interna e o trato óptico e
ventralmente com a substância inominada, que, por sua vez, contém três
sistemas anatômicos funcionais importantes: o sistema estriadopálido
ventral, a amígdala estendida e o núcleo basal de Meynert. Este último
núcleo, com suas projeções colinérgicas e do ácido γ-aminobutírico
(GABA-érgicas), desempenha um papel importante nos transtornos da
memória e no tratamento das demências. O GPi é uma importante estrutura
eferente dos núcleos da base, utilizando três sistemas principais de
projeção: a alça lenticular, o fascículo lenticular e o trato pálido-tegmentar.
A alça lenticular contorna a cápsula interna ventromedialmente, unindo-se
ao fascículo lenticular para formar o fascículo talâmico, o qual, por sua vez,
faz projeção a diferentes núcleos talâmicos, especialmente o núcleo ventral
anterior (VA), o núcleo ventral lateral (VL), o núcleo centromediano e os
núcleos intralaminares parafasciculares do tálamo. O trato palidotegmentar
termina no núcleo pedunculopontino.
Núcleo Caudado
O núcleo caudado se assemelha a um ponto de exclamação alongado e
curvo. Sua parte principal é uma cabeça expandida, em continuidade direta
a um corpo menor e atenuado, que se funde a uma cauda alongada. A
cabeça faz saliência no corno anterior do ventrículo lateral e forma seu
assoalho inclinado. O núcleo caudado é separado do núcleo lenticular pelo
ramo anterior da cápsula interna, mas a separação é incompleta porque a
cabeça do núcleo caudado e o putâmen são interligados, especialmente no
aspecto anteroinferior, por faixas de substância cinzenta que atravessam a
substância branca do ramo anterior. Essa mistura de substância cinzenta e
substância branca produz a aparência estriada que justifica a designação de
“corpo estriado” aplicada a esses núcleos. A cabeça se afunila a um corpo
mais estreito, que se situa na parte central do ventrículo lateral, lateralmente
à superfície superior do tálamo e separado do mesmo por um sulco raso que
contém a estria terminal e a veia talamoestriada. A cauda se volta para
baixo ao longo da margem mais externa do tálamo, com a estria terminal
ainda situada em um sulco raso entre elas. Ela se curva então para diante em direção ao teto do corno inferior do ventrículo lateral, em que se separa do
tálamo e do núcleo lentiforme pela parte inferior da cápsula interna e por
fibras (incluindo algumas provenientes da comissura anterior) que chegam
até o lobo temporal.
Corpo Amigdaloide
A cauda do núcleo caudado termina em uma pequena expansão em forma
de amêndoa, o corpo amigdaloide, que é um complexo de vários pequenos
núcleos localizados na parte anterior do teto do corno inferior do ventrículo
lateral. A estria terminal se origina do corpo amigdaloide e segue ao longo
do lado medial do núcleo caudado até chegar às vizinhanças do forame
interventricular ipsilateral. Nesse ponto algumas de suas fibras se unem à
comissura anterior, outras passam à região “septal”, adjacente à lâmina
terminal, e as demais descem até o hipotálamo e a substância perfurada
anterior.
FIGURA 7-3
Um complexo nuclear mesencefálico, a substância negra (SN), é dividido
em uma parte compacta (SNc), pigmentada e contendo dopamina, e uma parte reticular (SNr), pobre em células e desprovida de pigmento. Muitas
projeções dopaminérgicas vão até o estriado, enquanto uma proporção
menor dos axônios da SNc termina no córtex pré-frontal. A SNr é uma
importante estrutura eferente primária dos núcleos da base, juntamente com
o GPi. A SNr tem projeções principalmente ao tálamo, ao NPP e ao colículo
superior.
Uma estrutura biconvexa, os núcleos subtalâmicos (NST), recebe
estímulos glutamatérgicos do córtex encefálico, recebe inibição GABA do
GPc e fornece inervação glutamatérgica ao GPe, ao GPi, à SN e ao NPP. O
NST se tornou uma estrutura de interesse devido a seu papel fundamental
em nosso conhecimento da função dos núcleos da base.
Os receptores pós-sinápticos para dopamina são divididos em duas
categorias amplas mais importantes, D1/D5 e a família de receptores D2,
D3 e D4, segregados em duas vias principais. A via direta, mediada pelos
receptores para dopamina D1, envia suas projeções aos núcleos
subtalâmicos através do GPi e a via indireta, mediada pela família de
receptores D2, influencia os NST através do GPe.
A interação excitatório-inibitória entre a via direta e a indireta foi
conceituada recentemente como seleção e inibição tônica focalizadas
(hipótese da inibição circundante). A atividade neuronal se focaliza de
modo a selecionar respostas desejadas pela supressão da excitabilidade em
uma área que circunda uma rede neuronal ativada. Simultaneamente, outros
neurônios pálidos fazendo projeção ao tálamo agem no sentido de permitir
movimentos desejados. A inibição tônica ao tálamo é removida pela
diminuição da descarga desses neurônios, pela vazão estriada focalizada
predominantemente pela via direta, liberando os geradores corticais para a
ocorrência de movimentos normais ou desejados. Portanto, a presença de
movimentos involuntários anormais decorre de uma inibição insuficiente ou
da excitação excessiva das estruturas circundantes.
Com base nos modelos discutidos anteriormente, é importante se
reconhecer o pálido como a principal estrutura de eferência dos núcleos da
base. Muitas vias de saída passam pelos campos de Forel. Os NST
constituem atualmente o alvo preferencial para o tratamento cirúrgico da
doença de Parkinson idiopática (DPi), o tálamo ventral intermédio (VIM)
para o tratamento do tremor essencial e de alguns outros tipos de tremor e o GPi para aquele da distonia, sendo o procedimento cirúrgico preferido o da
estimulação encefálica profunda (ECP).
FIGURA 7-4