Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Síndrome Acinético-rígida, Parkinsonismo ou Síndrome Parkinsoniana
Síndrome Acinético-rígida, Parkinsonismo
ou Síndrome Parkinsoniana
A síndrome parkinsoniana é definida operacionalmente pela presença de
Tremor, Rigidez, Acinesia e distúrbios Posturais/da marcha (auxiliar
mnemônico: TRAP). O diagnóstico do parkinsonismo é feito rapidamente,
caso um determinado indivíduo tenha duas das quatro principais
características, por ocasião das manifestações iniciais. Embora haja muitas
causas para a síndrome parkinsoniana, a doença de Parkinson idiopática é
sem dúvida a causa mais comum, afetando 1% da população com mais de
50 anos de idade. Ela tem início insidioso e evolui lentamente a um ritmo
variável por 10 a 20 anos ou mais antes de culminar em uma incapacidade
grave.
Doença de Parkinson idiopática
A doença de Parkinson idiopática se caracteriza pela presença de tremor,
rigidez ou bradicinesia ao início da evolução da doença, com os distúrbios
posturais e/ou da marcha se evidenciando em geral tardiamente na evolução
da doença. A presença de sintomas atípicos e a razão de progressão da
doença são importantes para se distinguir a doença de Parkinson de outras
síndromes parkinsonianas. Como exemplo, uma instabilidade postural de
início precoce, quedas e distúrbios da marcha caracterizam a paralisia
supranuclear progressiva (PSP); distúrbios autonômicos acentuados, como
disfunção erétil em homens ou incontinência urinária em mulheres, podem
anunciar o início da atrofia de múltiplos sistemas (AMS). Uma postura
curvada, fácies em máscara, diminuição do piscar, micrografia e hipofonia
são características comuns do parkinsonismo, mas não são específicas da
doença de Parkinson e podem estar presentes em outras síndromes
parkinsonianas. Um anterocolo grave e camptocormia (coluna vertebral
inclinada) tendem mais a se dever à AMS ou à atrofia por
esteatose/miopatia de músculos paraespinais em vez da doença de
Parkinson (Fig. 7-5). A PSP é sugerida por uma rigidez excessiva do
pescoço, particularmente quando acompanhada por distúrbios oculomotores
acentuados, como sácades hipométricas mais lentas ao olhar para baixo ou um defeito claro da excursão ocular voluntária ao comando ou à
perseguição, porém uma excursão normal à manobra dos olhos de boneca,
especialmente no plano vertical. Outros distúrbios oculomotores, como
intrusões sacádicas (principalmente abalos de onda quadrática ou flutter
ocular), nistagmo ou impersistência ocular, podem estar presentes na PSP,
na AMS, na degeneração corticobasal (DCB), na doença de Huntington
(DH) e nas ataxias cerebelares em combinações e em níveis de gravidade
variáveis.
Estima-se que aproximadamente 80% dos neurônios dopaminérgicos da
substância negra já foram perdidos ao ser a doença de Parkinson
originalmente diagnosticada; portanto, o processo degenerativo inicial
levando ao parkinsonismo começa vários anos antes do diagnóstico clínico.
Ainda que geralmente seja difícil se diagnosticar a doença de Parkinson no
estágio pré-clínico (pré-motor), anosmia, constipação intestinal e alterações
de humor e da personalidade podem preceder em alguns anos o
aparecimento dos sintomas motores. Em muitos pacientes o início dos
sintomas motores é sutil e pode ser óbvio primeiramente a familiares ou a
colegas de trabalho do paciente.
A deficiência de dopamina é responsável pela fisiopatologia dos sintomas
motores na doença de Parkinson. Embora os sintomas melhorem à terapia
de reposição dopaminérgica, o tremor e os distúrbios posturais e da marcha
tendem a ter apenas uma resposta parcial ao tratamento, especialmente nos
estágios mais avançados da doença, sugerindo que o substrato desses
sintomas pode estar em algum outro ponto do sistema nervoso central. De
fato, demonstrou-se que os núcleos pedunculopontinos (NPP), uma
estrutura colinérgica estreitamente ligada ao sistema nigroestriado, podem
ter um papel importante no controle da marcha. Além disso, estudos
preliminares utilizando a neuromodulação direcionada aos NPP
demonstraram pequenas melhoras nas dificuldades da marcha e no
congelamento em alguns pacientes, porém os resultados finais nesses
estudos até agora ainda não ficaram claros.
FIGURA 7-5
O tremor é uma característica clássica do parkinsonismo. Ele é
tipicamente um tremor em repouso, desaparecendo com o movimento, mas reaparecendo ao ser obtida uma postura estática e tendo uma frequência de
3 Hz. Embora seja visto mais comumente na doença de Parkinson, ele pode
ocorrer em outras condições parkinsonianas, como na AMS e naqueles
estados induzidos por medicações que bloqueiam ou esgotam a dopamina.
Sua origem não é clara, mas algumas evidências sugerem que as olivas
inferiores ou o cerebelo agem como osciladores centrais, estimulando o
tremor por usar como sistema de reverberação a alça
cerebelotalamocortical.
A doença de Parkinson não tratada pode ser dividida em cinco estágios.
O estágio 1 se caracteriza por um acometimento unilateral leve. O tremor
pode ser o único sinal visível, mas podem ser notados ao exame outros
achados sutis, incluindo lentidão ou rigidez. A marcha geralmente se mostra
normal, mas pode haver uma pequena diminuição na oscilação do braço do
lado mais sintomático e o membro superior pode ficar em ligeira abdução
no ombro e flexionado no cotovelo. Podem estar presentes expressão facial
diminuída, fala hipofônica, destreza manual reduzida, alteração dos
movimentos alternados rápidos e micrografia, com letras malformadas.
Com o avanço da doença para o estágio 2 há um envolvimento bilateral,
com alterações posturais. Nesse estágio é observado o fenótipo mais
clássico, com redução da mobilidade facial, postura curvada ao se ficar de
pé, redução da oscilação dos braços ao caminhar e virada em bloco. Os
movimentos alternados rápidos se alteram. Os movimentos se tornam lentos
e deliberados e os pacientes podem se queixar de fadiga e fraqueza. A
fadiga pode ser incapacitante em até 75% dos pacientes. A mão assume a
postura dita estriada, com o punho em dorsiflexão, dedos em adução,
articulações metacarpofalângicas e interfalângicas distais flexionadas e
articulações interfalângicas proximais estendidas. Em alguns pacientes pode
estar presente um “pé estriado,” consistindo de uma posição varo com
artelhos em garra. Na doença em estágio 3 a retropulsão e a propulsão
refletem a alteração progressivamente crescente dos reflexos posturais e das
respostas de endireitamento. A marcha é festinante e com os pés arrastando
no solo. Nesse estágio os sintomas se tornam progressivamente mais
pronunciados e o paciente pode necessitar de ajuda nas atividades da vida
diária. À progressão adicional se chega a um estágio mais avançado
(estágio 4), com incapacidade grave, rigidez, bradicinesia e distúrbios da
marcha. A postura de pé é instável; um leve empurrão acarreta uma grave retropulsão, culminando em uma queda se o paciente não for amparado ou
for deixado sem assistência. O paciente acaba por apresentar um grau
acentuado de bradicinesia e rigidez e vem a ficar confinado a uma cadeira
de rodas ou ao leito (estágio 5). Os Drs. Melvin Yahr e Margaret Hoehn
estudaram a evolução natural de pacientes portadores de doença de
Parkinson e elaboraram uma escala de classificação dos estágios que leva
seu nome. Designada como escala Hoehn e Yahr para determinação do
estágio, essa classificação enfatiza a doença pela progressão dos sintomas;
ela é dividida arbitrariamente em cinco estágios de progressão da doença e,
embora seja largamente utilizada, proporciona apenas uma estimativa
grosseira da gravidade da doença.
FIGURA 7-6
Patologia A característica patológica básica da doença de Parkinson é a perda de
pigmentação na substância negra, a diminuição dos neurônios contendo
neuromelatonina e o depósito de corpos de Lewy no núcleo motor do vago,
no locus ceruleus e na substância negra (Fig. 7-6). O corpo de Lewy é uma
inclusão eosinofílica intracitoplasmática constituída principalmente de
ubiquitina, neurofilamentos e α-sinucleína, uma proteína componente
importante encontrada em todo o encéfalo, especialmente na sinapse. O
papel desempenhado pela α-sinucleína na patogênese da doença de
Parkinson não foi bem esclarecido. Mutações pontuais, duplicações ou
amplificações na região do cromossomo 4q21 que contém o gene
codificador da α-sinucleína foram encontradas em alguns casos familiares
de início precoce. O excesso de α-sinucleína ocasiona a agregação e a
aglutinação das proteínas. Outras mutações afetando os genes que
codificam a parkina, uma proteína importante do sistema
ubiquitina/proteassomo (DJ-1 e PINK1), podem afetar a função
mitocondrial, ocasionando alterações do manejo dos radicais livres e da
produção de energia. A elevada concentração de ferro na substância negra e
no estriado aumenta a vulnerabilidade celular ao estresse oxidativo. A
progressão da doença de Parkinson e o depósito de corpos de Lewy foram
considerados recentemente como tendo início no bulbo olfatório e na parte
inferior do tronco encefálico, evoluindo com o tempo para afetar o
diencéfalo, a amígdala e o córtex entorrínico e o neocórtex.
Um exemplo de uma síndrome clínica plenamente desenvolvida
decorrente do depósito generalizado de corpos de Lewy é o complexo de
doença/demência de corpos de Lewy.
Atrofia de múltiplos sistemas
Na atrofia de múltiplos sistemas (AMS), a característica patológica
unificadora é a presença de corpos de inclusão citoplasmática
oligodendroglial (ICG), que ocorre na degeneração nigroestriada (DNE), na
atrofia olivopontocerebelar esporádica (AOPC) e na síndrome de Shy-
Drager, condições nosológicas consideradas em certa época como
transtornos não relacionados, porém agrupadas atualmente sob a rubrica da
AMS. As anormalidades autonômicas que caracterizam a síndrome de Shy-
Drager são encontradas finalmente em ambos os transtornos. A AMS é dividida, portanto, em dois grupos principais, AMS-C (cerebelar) e AMS-P
(parkinsonismo). Outras características patológicas incluem uma perda
celular neuronal variável, com gliose no putâmen e, em escala menor, no
pálido, no tronco encefálico (especialmente na base da ponte e na oliva
inferior), no cerebelo, nas colunas intermediolaterais da medula espinal e
em nervos periféricos. Na presença da AOPC/AMS-C, a atrofia ocorre
predominantemente na ponte, no cerebelo e nas olivas bulbares. Os
componentes predominantes das ICG são tau e α-sinucleína. A aparência
RM é por vezes característica (Fig. 7-8).
FIGURA 7-7
Paralisia supranuclear progressiva (PSP) A paralisia supranuclear progressiva (PSP) se caracteriza por distúrbios
oculomotores, parkinsonismo e distúrbios da marcha associados à
instabilidade postural, esses últimos uma manifestação precoce comum da
doença, precedendo em muitos casos o típico olhar voltado para baixo e a
paresia horizontal característicos da doença (Fig. 7-7). Patologicamente há
perda de células neuronais e gliose na substância cinzenta periaquedutal,
com o depósito de emaranhados neurofibrilares globosos de conteúdo tau,
com imunorreatividade à ubiquitina, atrofia do diencéfalo, do globo pálido,
do núcleo subtalâmico e do mesencéfalo. Essa atrofia leva ao sinal
mesencefálico do “Camundongo Mickey” às tomadas axiais ou ao sinal do
pinguim ou do beija-flor às tomadas sagitais à aquisição de imagens por
ressonância magnética.
Degeneração corticobasal (DCB)
A degeneração corticobasal (DCB) se caracteriza por uma atrofia cortical
assimétrica, perda de células neuronais, gliose e neurônios abalonados na
região do sulco central (córtex motor primário/sensitivo primário), com
inclusões neuronais intracitoplasmáticas acromáticas semelhantes aos
corpos de Pick vistos na doença de Pick/demência frontotemporal e na
afasia progressiva primária. Essas inclusões, com a correspondente perda
celular neuronal, são encontradas predominantemente no diencéfalo,
tálamo, substância negra, locus ceruleus e córtex cerebral. A proteína tau,
ubiquitina, neurofilamentos fosforilados e, em menor grau, α-sinucleína são
componentes dessas inclusões, compartilhando propriedades imunorreativas
semelhantes àquelas encontradas nos corpos de Pick. A DCB (veja a Fig. 7-
8) se caracteriza clinicamente por posturas distônicas assimétricas com
mioclonias induzidas pela ação e sensíveis a estímulos superpostos, dando à
mão ou ao membro afetado, uma aparência trêmula, e por fenômenos de
membro alienígeno, apraxia de extremidade, parkinsonismo e instabilidade
da marcha e da postura, com demência e distúrbios oculomotores se
manifestando mais tardiamente na evolução da doença.
Doença de corpos de Lewy Também designada como demência com corpos de Lewy, a doença de
corpos de Lewy pode ser considerada operacionalmente como um
parkinsonismo respondendo a dopa típico, com demência de início precoce,
vigilância e atenção flutuantes, confusão mental, distúrbios do sono,
sensibilidade acentuada a fármacos neurolépticos ou bloqueadoras de
dopamina e alucinações visuais vívidas e bem formadas. Em muitas séries
de autópsia a demência com corpos de Lewy perde apenas para a doença de
Alzheimer como causa de demência, com a demência vascular em um
terceiro lugar bem próximo. O corpo de Lewy, que é estrutural e
morfologicamente semelhante àquele encontrado na doença de Parkinson
idiopática, é encontrado em todo o córtex encefálico em grau variável e na
substância negra. São componentes dos corpos de Lewy a ubiquitina, a
proteína dos neurofilamentos e a α-sinucleína. No núcleo basal e na
formação hipocampal se encontram placas senis e emaranhados
neurofibrilares, com uma degeneração granulovacuolar semelhante àquela
observada na doença de Alzheimer.
FIGURA 7-8
Parkinsonismo induzido por fármacos (PIF) Embora não seja uma doença degenerativa dos núcleos da base, o
parkinsonismo induzido por fármacos pode imitar a doença de Parkinson
idiopática e pode ser difícil diferenciá-lo em um determinado indivíduo. Em
consequência disso, o clínico deve ter um alto grau de suspeita e deve
coletar uma história de fármacos meticulosa. O PIF é discutido aqui devido
à importância de se fazer o diagnóstico. O tratamento está prontamente
disponível e, em muitos casos, a identificação da medicação ou das
medicações nocivas é tudo que é necessário para se explicar os sintomas e
se proceder ao tratamento. Em nível mais básico, o PIF decorre do bloqueio
dos receptores para dopamina, como aquele observado em associação a
medicações neurolépticas, metoclopramida ou alguns bloqueadores dos
canais de cálcio (flunarizina, cinarizina) ou ao se usar fármacos que
esgotam a dopamina (reserpina, tetrabenazina). Considerados em certa
época como “desprovidos de efeitos colaterais extrapiramidais,” os
neurolépticos atípicos (clozapina, olanzapina, risperidona, quetiapina,
ziprasidona) já foram claramente implicados em alguns casos de PIF.
Interações com a ligação a receptores dopaminérgicos (D1, D2),
histaminérgicos, muscarínicos, α-adrenérgicos e serotoninérgicos podem ser
responsáveis pela fenomenologia observada. Os inibidores seletivos da
recaptação de serotonina, os antidepressivos mais comumente prescritos,
podem acarretar PID por sub-regulação serotoninérgica da síntese de
dopamina. Outras medicações, como ácido valproico e lítio, podem
ocasionar PIF por mecanismos que não foram bem esclarecidos. A
eliminação do fármaco nocivo, ajustes da dose ou a identificação de
interações medicamentosas (potencialização do efeito) podem ocasionar a
melhora dos sintomas. Os pacientes devem ser orientados quanto aos efeitos
colaterais das medicações, especialmente quando o parkinsonismo pode
ocorrer em consequência de seu uso.
Tratamento
O tratamento atual do parkinsonismo é centrado na administração de
levodopa. Apesar dos avanços recentes em nosso conhecimento das
alterações químicas e patológicas e do desenvolvimento de novas terapias
para a DP, a levodopa continua a ser o padrão-ouro (Fig. 7-9). A levodopa
oralmente administrada é absorvida pela circulação principalmente pelo intestino delgado proximal. Ela pode ser detectada no sangue por várias
horas após sua administração, atingindo níveis máximos em 2 a 3 horas
após a ingestão. Convertida rapidamente a dopamina pela enzima dopa
descarboxilase (DDC; l-aminoácido descarboxilase), aproximadamente 1%
da dose oral penetra os capilares encefálicos e se difunde pelo parênquima
encefálico, sendo aí captada e convertida a dopamina nas células produtoras
de dopamina remanescentes. Depois de secretada na fenda sináptica a
dopamina é desativada rapidamente, principalmente a ácido homovanílico,
pelas enzimas catecol-O-metil transferase (COMT) e monoamino oxidase
(MAO). Para se aumentar a levodopa disponível e diminuir os efeitos
periféricos indesejáveis da dopamina (náuseas, vômitos, hipertensão
arterial), a dopa descarboxilase é inibida perifericamente por carbidopa. A
inibição reduz acentuadamente a conversão de levodopa à dopamina no
centro ou na zona gatilho bulbar do vômito, impedindo sua ativação. Ao
uso prolongado de levodopa, em associação às alterações patológicas
intrínsecas ocorrendo no parkinsonismo se evidenciam complicações
motoras tardias em aproximadamente 75% dos pacientes, especialmente
após 10 anos de doença. Perda do efeito, congelamento da marcha,
respostas imprevisíveis e movimentos involuntários anormais ou discinesias
induzidos pela levodopa podem complicar o tratamento clínico. Na
esperança de se eliminar ou retardar a necessidade de levodopa, foram
desenvolvidos alguns medicamentos, quais sejam os agonistas da dopamina
(ropinirol, rotigotina, pergolide, cabergolina e bromocriptina). Esses
medicamentos estimulam os receptores para dopamina e agem, portanto, tal
como a dopamina. Um agonista de dopamina pode proporcionar melhoras
sintomáticas e retardar o desenvolvimento de complicações motoras,
principalmente por retardar a necessidade de introdução de levodopa. Ainda
assim, muitos pacientes vão necessitar de levodopa em algum momento na
evolução de sua doença. Outra estratégia tem sido o uso de inibidores da
enzima catecol-O-metil transferase (COMT) para bloquear essa enzima. Em
consequência disso a dopamina permanece na fenda sináptica, ocasionando
uma duração aumentada do tempo de ativação (período durante o qual são
obtidos benefícios clínicos da levodopa) por 1 a 2 horas e níveis
plasmáticos estáveis de levodopa. Com a perda progressiva de neurônios e
o declínio a ela associado na capacidade de tamponamento, os níveis
plasmáticos de dopamina se tornam os motores primários da resposta clínica e das complicações motoras. O mais comumente utilizado dos dois
inibidores de COMT disponíveis atualmente é o entacapone, um inibidor
periférico da COMT. Infelizmente o uso do tolcapone, um inibidor
periférico e central da COMT, tem sido prejudicado por temores de uma
insuficiência hepática grave e potencialmente fatal. Esta última é uma
reação idiossincrática de difícil previsão, complicando o uso de tolcapone.
FIGURA 7-9
A esperança de “tratamentos neuroprotetores,” ou seja, tratamentos para
tornar mais lenta a progressão da doença, tem sido frustrada por controvérsias e falhas metodológicas em muitos dos estudos até aqui
realizados. A interpretação dos dados tem sido conflitante; os instrumentos
utilizados para a coleta dos dados se mostraram insensíveis e os resultados
dos estudos em modelos animais se correlacionaram mal aos achados em
seres humanos. No momento atual, portanto, não há uma indicação clara ou
um consenso quanto ao uso de inibidores da MAO, como rasagilina ou
selegilina, de vitaminas como a vitamina E ou de outros elementos
(coenzima Q10). Rasagilina, selegilina e amantadina são medicamentos que
produzem pequenas melhoras sintomáticas em alguns pacientes e podem
com isso possibilitar um retardo no uso de levodopa.
Cirurgia
Em meados do século XX foram elaborados vários procedimentos
cirúrgicos visando o tratamento da doença de Parkinson e de outros
transtornos de movimento (Fig. 7-10). Excisões corticais, capsulotomias,
caudotomias, alçotomias, pedunculotomias e piramidotomias foram
realizadas com resultados variáveis; infelizmente, muitos procedimentos
foram associados a efeitos colaterais graves e a resultados finais terríveis.
Em 1952, enquanto realizava uma pedunculotomia planejada em um
paciente de 39 anos de idade portador de parkinsonismo pós-encefalítico,
Irving Cooper, um neurocirurgião de Nova Iorque, ligou acidentalmente a
artéria corióidea anterior (esse tipo de lesão acarreta um infarto do globo
pálido). Para a surpresa de Cooper, o paciente sobreviveu com a resolução
do tremor e da rigidez incapacitantes que prejudicavam sua qualidade de
vida até aquele ponto. Esse evento levou a um interesse no pálido como
alvo cirúrgico. Foi somente depois que ocorreram avanços no conhecimento
da fisiologia dos núcleos da base na saúde e na doença, nas técnicas
cirúrgicas e de aquisição de imagens e nos dispositivos de registro
intraoperatório que teve lugar a era atual de produção de lesões e
posteriormente de técnicas de neuromodulação.
FIGURA 7-10
Estimulação Encefálica Profunda (EEP) e Procedimentos de
Produção de Lesões
Com poucas exceções, os procedimentos de produção de lesões como
palidotomias ou talamotomias raramente são realizados hoje. Esses
procedimentos foram substituídos pela EEP utilizando eletrodos encefálicos
tetrapolares implantáveis, especialmente em três alvos principais, quais
sejam o globo pálido medial (GPi), o núcleo subtalâmico (NST) e no núcleo
ventral intermédio do tálamo (núcleo VIM). Embora o NST seja o alvo
preferencial da EEP para o tratamento cirúrgico da doença de Parkinson,
não há evidências conclusivas de que a EEP-NST seja superior à EEP-GPi.
A EEP não melhora os sintomas que são resistentes à levodopa e, por
conseguinte, a documentação cuidadosa de uma resposta adequada à
levodopa é importante em candidatos à cirurgia. Um benefício sintomático
positivo à exposição à levodopa prediz um resultado mais favorável da
cirurgia que na ausência desse benefício. Não há um limite de idade claro
para o procedimento. Octogenários submetidos ao procedimento evoluíram
bem. De modo geral a cirurgia é reservada para aqueles com um
diagnóstico clínico confirmado de doença de Parkinson idiopática que
passaram a apresentar flutuações motoras e discinesias induzidas por
fármacos apesar de uma terapia clínica ótima. Os pacientes não devem ter
contraindicações clínicas gerais à cirurgia e não devem apresentar demência
nem comorbidades psiquiátricas. Em pacientes apresentando sintomas
atípicos ou uma síndrome Parkinson-plus, uma resposta insuficiente à
levodopa, demência ou um acometimento psiquiátrico acentuado, a EEP se
associa a um risco aumentado de um resultado desfavorável e é geralmente
contraindicada. Todos os sintomas parkinsonianos melhoram com a
cirurgia, especialmente o tremor e os movimentos involuntários anormais
relacionados com a medicação do lado contralateral ao procedimento. A
rigidez e a bradicinesia respondem bem, porém em um grau menor. A
instabilidade postural e os distúrbios da marcha tendem menos a responder.
Não ficou claro como a EEP funciona. O que ficou evidente é que a EEP
constitui um meio não destrutivo e reversível para se alterar a função
neuronal. A EEP continua a evoluir como um tratamento importante e
estabelecido para doenças neurológicas, com novas indicações sendo
continuamente adicionadas. Uma abordagem multidisciplinar ao tratamento proporciona as melhores chances de um bom resultado final naqueles que
são candidatos à cirurgia.