Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Paralisia cerebral
FIGURA 1-17
Paralisia cerebral O cérebro em desenvolvimento é sensível aos mecanismos fisiológicos
essenciais que mantêm a homeostasia. A regulação da disponibilidade de
oxigênio é crítica. Historicamente, a paralisia cerebral (PC) foi usada para
descrever uma incapacidade motora estática e não progressiva, presente ao
nascimento, secundária a lesões cerebrais hipóxicas e traumáticas
perinatais. Atualmente, a PC também abrange outras incapacidades motoras
adquiridas e é distinta dos processos neurodegenerativos progressivos.
Embora não seja progressiva no sentido de deterioração, a PC não é estática
na evolução. Os indivíduos podem mostrar vários tipos diferentes de PC. A
paralisia cerebral é um diagnóstico descritivo e não etiológico.
Clinicamente, manifesta-se como defeitos motores cuja gravidade é
variável. Distúrbios associados incluem incapacidade intelectual, epilepsia,
dificuldades visuais e auditivas bem como deformidades ortopédicas.
Outros diagnósticos devem ser excluídos antes de se diagnosticar PC.
Muitas crianças têm PC relacionada com trauma de parto (Figs. 1-2 e 1-
3) e mais atribuída à encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI). O oxigênio
baixo, combinado a fluxo sanguíneo comprometido, é particularmente
danoso. Após a reanimação para superar a asfixia, ocorre um breve período
(12 h) de estupor e hipotonia antes das convulsões e apneia.
Lesões cerebrais
Cinco principais lesões cerebrais resultam de EHI: (1) necrose neuronal, (2)
estado marmóreo, (3) infartos das linhas divisórias das águas (watershed),
(4) leucoencefalopatia telencefálica periventricular, e (5) lesões isquêmicas
focais. Embora essas lesões descrevam os achados neuropatológicos, alguns
podem ser subjacentes a um dano ao SNC, que é secundário a infecção,
trauma, doenças vasculares, disgenesias e distúrbios migracionais. Na
necrose neuronal, a hipóxia danifica as células neurais em todo o SNC,
resultando em hemiplegia espástica ou quadriplegia.
O estado marmóreo afeta os núcleos da base, que se tornam encolhidos
com uma aparência esbranquiçada como o mármore. Os bebês afetados
geralmente são de termo completo com hipotonia inicial (Fig. 1-17),
seguida de quadriparesia espástica e coreoatetose.
Os infartos das linhas divisórias das águas (watershed) devido à
hipotensão começam na área parietoccipital posterior e se disseminam anterior e posteriormente. Esses infartos são mais comuns em crianças a
termo completo e resultam em diplegia ou hemiplegia.
A leucoencefalopatia telencefálica perinatal é mais comum em bebês
prematuros e muitas vezes afeta o centro oval, onde perturba as fibras
nervosas que suprem as pernas e as radiações acústicas e ópticas. Lesões
menores levam à atrofia da substância branca, enquanto as lesões mais
graves parecem císticas. As lesões menores podem causar deficiências de
aprendizagem, enquanto as lesões graves causam diplegia.
As lesões isquêmicas focais são grandes, e ocorrem em distribuições
específicas dos vasos sanguíneos, com mais frequência a artéria cerebral
média. As causas prováveis são: eventos hipóxico-isquêmicos, êmbolos e
tromboses. As lesões isquêmicas focais causam hemiplegia, sendo os braços
mais afetados do que as pernas ou o rosto. A grande área danificada muitas
vezes se torna cavitada e se transforma em um cisto porencefálico.
Ocasionalmente, um cisto causa efeito de massa e requer intervenção
cirúrgica.
Manifestações clínicas da paralisia cerebral
Os dois principais tipos de PC são: espástica (piramidal) e extrapiramidal.
Essas classificações baseiam-se no tipo e distribuição das anormalidades
motoras, que se dividem em dois subtipos.
A paralisia cerebral espástica (piramidal) envolve o dano às áreas
corticais responsáveis pelos movimentos voluntários, o que contribui para a
espasticidade. Os subtipos incluem: hemiplegia, quadriplegia, diplegia e
raramente monoplegia.
A hemiplegia tipicamente afeta bebês a termo, e as principais causas
surgem do mau desenvolvimento e acidente vascular encefálico neonatal.
Um membro hipotônico é notado inicialmente, com subsequente
espasticidade. Perda sensitiva cortical e hemianopsia podem estar presentes.
Quadriplegia, a forma mais grave e comum, afeta todos os bebês com
uma variedade de etiologias, desde lesões cerebrais perinatais hipóxicas ou
traumáticas até anormalidades do desenvolvimento. Embora a quadriplegia
espástica normalmente seja evidente de início, a hipotonia pode se
manifestar inicialmente. Os indivíduos tipicamente têm graves comorbidades incluindo epilepsia, incapacidade intelectual e paralisia
pseudobulbar.
A diplegia afeta principalmente as pernas, causando espasticidade com
marcha “em tesoura”. Afeta tanto bebês a termo quanto pré-termo, e nos
últimos com frequência está associada à leucomalácia periventricular
(LPV). A função manual e a cognição estão relativamente intactas.
Paralisia cerebral extrapiramidal: o dano ocorre tipicamente nas áreas
subcorticais responsáveis pela coordenação do movimento e equilíbrio. A
não ser que seja grave, a inteligência é poupada. Geralmente todas as
regiões corporais são envolvidas; assim, os subtipos são denominados de
acordo com o tipo de movimento.
A ataxia afeta os bebês a termo, e pode resultar em incoordenação,
hipotonia ou espasticidade.
A atetose com mais frequência se deve a EHI. Os bebês são hipotônicos,
com persistência dos padrões motores primitivos (arqueamento, reflexos
tônicos do pescoço) que impedem o desenvolvimento motor ordenado. Os
movimentos involuntários se tornam mais compatíveis com paralisia
cerebral coreoatetoide.
Tratamento
A avaliação e o tratamento da PC requerem uma abordagem
multidisciplinar. Os objetivos do tratamento focam a maximização da
função diária e a independência, além de visar às múltiplas necessidades
médicas, sociais, psicológicas, educacionais e terapêuticas.
O tratamento da espasticidade inclui fisioterapia, medicações orais,
baclofeno intratecal e ortótica. As opções cirúrgicas incluem rizotomia
seletiva posterior e procedimentos ortopédicos.