Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Circuitos Corticais e Corticonucleares Cerebelares
FIGURA 8-6
Circuitos Corticais e Corticonucleares
Cerebelares
Os neurônios do córtex e dos núcleos cerebelares estão interligados em
múltiplos microcircuitos anatômicos de repetição — microcomplexos
corticonucleares — que atuam como a unidade funcional essencial do
cerebelo. A chave para sua elucidação é a natureza dual dos estímulos
cerebelares — o sistema das fibras musgosas e aquele das fibras
trepadeiras. Fibras monoaminérgicas do tronco encefálico constituem uma
fonte adicional de menor importância de aferentes cerebelares.
As fibras trepadeiras (FTs) se originam exclusivamente da oliva inferior.
Os axônios dos neurônios olivares se ramificam de modo a formar de 7 a 10
FTs. Cada FT proporciona extensos contatos sinápticos excitatórios com a
árvore dendrítica de uma única CP (entre 1.000 e 1.500 contatos sinápticos
entre uma FT e sua CP). As fibras trepadeiras entram no cerebelo pelo
pedúnculo cerebelar inferior (PCI), ramificam-se na substância branca, em
que emitem colaterais aos núcleos cerebelares profundos (NCPs), e sobem
até a camada molecular. Nos dois terços inferiores da camada molecular a
FT se encontra compactamente enrolada em torno do tronco e dos ramos proximais mais importantes da árvore dendrítica da CP. Cada varicosidade
da FT faz sinapse com várias espinhas dendríticas originadas do mesmo
ramo dendrítico. Finas gavinhas que se ramificam da FT na camada
molecular fazem sinapse com ramos ascendentes do axônio da célula em
cesto e com as árvores dendríticas de células estreladas e de células de
Golgi. A projeção olivocerebelar está organizada de acordo com um padrão
zonal parassagital mediolateral estrito (Fig. 8-12).
As fibras musgosas (FMs) são designadas devido a seus terminais
espessados, que têm ramos varicosos grossos, curtos e divergentes,
assemelhando-se a um musgo. Suas arborizações sinápticas são
denominadas rosetas, têm formas variadas e estão localizadas ao longo do
trajeto da FM na camada granular nos pontos de ramificação e em seus
locais de terminação. As FMs são fortemente mielinizadas e levam ao
córtex cerebelar aferentes excitatórios provenientes da medula espinal, do
tronco encefálico (exceto pela oliva) e dos hemisférios encefálicos. Elas
entram por todos os três pedúnculos encefálicos. emitindo 20 a 30 ramos
colaterais na substância branca da folha ao passar em direção à camada
granular. Elas também emitem colaterais aos núcleos cerebelares profundos.
Muitas FMs terminam bilateralmente no cerebelo depois de cruzar na
substância branca cerebelar. Em contraste com as FTs, as FMs
proporcionam estímulos excitatórios à CP indiretamente. A roseta da FM é
o componente central do glomérulo da célula granular, a complexa
articulação entre as rosetas da FM e as arborizações terminais dos dendritos
das células granulares. Cada roseta de FM faz contatos sinápticos
excitatórios com 50 a 100 terminais dendríticos de até 20 células granulares
e recebe feedback inibitório dos axônios descendentes de células de Golgi.
O axônio da célula granular sobe em direção à camada molecular, fazendo
contato sináptico com dendritos de células de Golgi na camada granular e
com espinhas dos dendritos proximais de CP na camada molecular. Ao
chegar à camada molecular, o axônio da célula granular se divide e forma
fibras paralelas (FPs), seguindo os dois ramos em direções opostas ao longo
da folha. As FPs fazem contato sináptico com um ou dois raminhos
espinhosos na região intermediária e na região distal da árvore dendrítica de
até 300 CP ao longo da folha.
Cada CP recebe estímulos sinápticos de aproximadamente 200.000 fibras
paralelas. Além dos estímulos excitatórios às CP por FM e por FT, as CP participam de uma projeção corticonuclear bidirecional, recebendo
feedback excitatório de retorno daquelas regiões do NCP e dos núcleos
vestibulares às quais é dirigida a projeção inibitória das CP. As CPs
recebem estímulos inibitórios de interneurônios na camada molecular —
células estreladas, células em cesto e células de Lugaro, todas as quais
recebem aferentes excitatórios do axônio ascendente da célula granular e
das FPs. Os colaterais axônicos recorrentes das CPs também são inibitórios.
Os dendritos das células unipolares em escova (CUE) do vestibulocerebelo,
o único interneurônio cerebelar excitatório, recebem estímulos de FM no
glomérulo da célula granular. O efeito final dessas interações finamente
balanceadas é que estímulos ao cerebelo e a eferência excitatória do córtex
pela CP são inibitórios e a eferência do cerebelo através do NCP é
excitatória ao tálamo e ao tronco encefálico, porém inibitória à oliva
inferior.
FIGURA 8-7
A eferência do córtex cerebelar deriva exclusivamente das CPs, é
organizada de maneira precisa e é dirigida aos NCPs e aos núcleos pré-cerebelares. As CPs em cada lóbulo fazem projeção àquelas partes dos
núcleos cerebelares profundos mais próximas delas. Por isso, o verme se
projeta ao núcleo do fastígio, o córtex intermediário ao núcleo globoso e ao
emboliforme e grande parte dos hemisférios laterais faz projeção ao núcleo
denteado. Maiores detalhes sobre os circuitos, os módulos e as microzonas
corticonucleares cerebelares são apresentados na Figura 8-2.
Os dois neurotransmissores mais importantes no cerebelo são o
glutamato e o ácido γ-aminobutírico (GABA). O glutamato é excitatório e é
encontrado nas FMs, nas FPs, nas FTs, nas CUE e em neurônios nucleares
cerebelares profundos que fazem projeção ao tálamo, ao tronco encefálico e
ao córtex cerebelar. O GABA é inibitório e é utilizado pelas CPs, por todos
os demais interneurônios cerebelares (estrelados, em cesto, de Golgi e de
Lugaro) e pelos neurônios dos NCPs que fazem projeção à oliva inferior. A
glicina está presente em interneurônios inibitórios nos NCPs. Alguns
outros neurotransmissores peptídicos estão presentes também nos neurônios
e nas fibras aferentes do córtex cerebelar.
A FP gera duas classes diferentes de potenciais de ação em resposta a
seus principais aferentes. A estimulação por centenas de FMs produz um
breve surto de pontas simples repetidas, de 50 a 150 por segundo. Os
interneurônios inibitórios das células em cesto e das células estreladas
produzem a inibição de CP localmente e por alguma distância lateralmente
à tira longitudinal de fibras paralelas ativas. A atividade das CPs induzida
por FMs, portanto, de uma descarga breve de potenciais de ação ao longo
do trajeto das fibras paralelas ativas, circundadas por uma faixa de células
inibidas. A excitação das CPs é restringida adicionalmente pelas células de
Golgi, que recebem sinapses excitatórias de FP em seus dendritos apicais e
proporcionam basicamente ao glomérulo uma estimulação inibitória tônica,
diminuindo a excitabilidade das células granulares às FM aferentes. A
estimulação das FPs é considerada como fornecendo informações a respeito
de sinais que chegam, tais como de direção e de velocidade do movimento
dos membros. No domínio cognitivo, a FP pode fornecer à FP o contexto
em que ocorre o comportamento.
A estimulação das fibras trepadeiras às CPs induz um complexo de
pontas com a frequência muito baixa de 0,5 a 2 pontas por segundo, a
mesma frequência de descarga dos neurônios olivares de que a FT se
origina. A estimulação da FT à CP é considerada como sinalizando a ocorrência de erros. Os estímulos de FM-FT às CPs são relevantes para a
plasticidade sináptica envolvida no aprendizado e na memória. A depressão
de longa duração (DLD) se caracteriza pela depressão persistente da
transmissão sináptica das FP às CPs, que ocorre quando a ativação das
fibras paralelas e aquela das fibras trepadeiras são concomitantes. Já foi
também descrita a potencialização de longa duração (PLD). O equilíbrio
entre a DLD e a PLD possibilita ao córtex cerebelar se adaptar a erros pela
sub-regulação ou a supra-regulação da estimulação cortical.
Essa fisiologia e esses circuitos corticonucleares constituem a base de
teorias de que o cerebelo funciona como um filtro adaptativo, utilizando
modelos internos para manter os comportamentos em torno de um nível
basal homeostático, e otimiza a influência cerebelar sobre os
comportamentos motores, cognitivos ou límbicos apropriados ao contexto
prevalente. A estrutura paracristalina da arquitetura e da organização
cortical cerebelar levou à noção de que ela tem uma capacidade geral de
transformar sinais, uma transformação cerebelar universal, que é aplicada
a múltiplos domínios da função neurológica. O papel do cerebelo no
sistema nervoso decorre, portanto, da combinação da estrutura e da função
uniformes do cerebelo às conexões complexas e variadas dos microcircuitos
cerebelares às áreas extracerebelares, transmitida pelos estímulos das fibras
musgosas e das fibras trepadeiras e pela eferência corticonuclear.