Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Vírus da Imunodeficiência Humana
FIGURA 11-13
Vírus da Imunodeficiência Humana O vírus da imunodeficiência humana (HIV) é um retrovírus que causa a
síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS), uma falência progressiva
do sistema imune com um declínio da contagem de células CD4+. A
infecção ocorre pela transferência de sangue, sêmen, ou fluido vaginal, ou
leite materno contendo o vírus. Caso isso ocorra, por exemplo, através de
sexo sem proteção ou transfusão sanguínea, pacientes infectados podem
permanecer assintomáticos por anos. São reconhecidos dois tipos de HIV,
com o HIV-1 sendo o mais virulento e responsável pela maioria das
infecções ao redor do mundo. Uma infecção sistêmica aguda é seguida de
um período latente variável e então pelo desenvolvimento da AIDS. Um
desfecho fatal pode seguir infecções oportunistas ou o desenvolvimento de
malignidades, como linfoma não Hodgkin, o qual pode envolver o sistema
nervoso. O tratamento é feito com fármacos antirretrovirais, os quais
melhoram o prognóstico, mas não curam a infecção pelo HIV. Medidas
preventivas incluem o uso de preservativos de látex. Dependendo da
contagem de CD4+, profilaxia contra infecção oportunista também é
indicada.
A meningite asséptica aguda é uma manifestação comum em pacientes
com infecção neurológica primária pelo HIV-1 (INPH ) e leva a cefaleia e
meningismo. Outras apresentações neurológicas menos comuns são
meningoencefalite, encefalopatia, encefalomielite aguda disseminada,
mielopatia, meningorradiculite e neuropatia periférica, incluindo a síndrome
de Guillain-Barré. Anormalidades sistêmicas também estão comumente
presentes. Estudos laboratoriais podem revelar leucopenia, trombocitopenia
e transaminases elevadas. Um estudo de anticorpos para HIV pode ser
inicialmente negativo, mesmo se a carga viral de HIV sérico for positiva.
Uma vez tendo ocorrido a soroconversão, os pacientes estão sob risco para
muitas complicações neurológicas.
O complexo de demência da AIDS (CDA) é um distúrbio importante,
mas sua prevalência tem declinado desde que a terapia antirretroviral
altamente ativa (HAART) se tornou disponível. Pacientes afetados
desenvolvem demência e distúrbios de comportamento, com uma marcada
mudança de personalidade; apatia, desatenção, distúrbios de memória e
disfunção de linguagem são problemáticos. Déficits motores (lentidão,
inabilidade, ataxia, fraqueza) também ocorrem. Um processo
desmielinizante subagudo primário com uma resposta celular branda tem sido encontrado na autópsia. Uma etiologia metabólica/tóxica relacionada
com a infecção tem sido proposta.
Distúrbios neurocognitivos brandos associados ao HIV possuem alta
prevalência, mesmo em pacientes positivos para HIV com uma aviremia
prolongada, mas normalmente não limita as atividades diárias. A HAART
por si só parece possuir uma pequena toxicidade neurológica primária.
Indivíduos clinicamente assintomáticos infectados por HIV-1 podem
apresentar exames de RM encefálicos anormais com alterações na
substância branca (desmielinização) e substância cinzenta (atrofia).
FIGURA 11-14
Infecção oportunista por bactérias, vírus (Epstein-Barr, citomegalovirus e
hepatite B), fungos (Cryptococus neoformans) ou parasitos (Toxoplasma gondii) podem envolver o sistema nervoso central diretamente. A
toxoplasmose (Fig. 11-6) pode se manifestar com convulsões, e a meningite
criptocócica com uma alteração subaguda da função mental. Tais infecções
podem também levar a vasculopatia. Outras causas raras de vasculite no
SNC neste contexto incluem doença neoplásica ou uso abusivo de drogas
recreacionais.
Uma mielopatia vacuolar e inflamatória primária pode ocorrer na AIDS e
pode mimetizar a mielopatia por deficiência de vitamina B ou cobre, com 12
envolvimento predominante das colunas posteriores. Não existe tratamento
eficaz.
Neuropatias sintomáticas são comuns em pacientes infectados pelo HIV-
1, se tornando mais comuns à medida que a imunodeficiência se agrava.
Polineuropatia sensitiva distal simétrica (DSPN) é a mais frequente, sendo
progressiva e se apresenta com dor distal simétrica, parestesias e dormência
nos pés. Uma neuropatia semelhante está associada a diversos fármacos
inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos (ITRNs –
zalcitabina [ddC], didanosina [ddI], e estavudina [d4T]) utilizados para o
tratamento da infecção pelo HIV. A polirradiculopatia desmielinizante
inflamatória aguda algumas vezes ocorre no momento da soroconversão,
mas a polirradiculopatia também pode ocorrer em estágios mais avançados
da infecção pelo HIV-1. O líquido cerebroespinal (LCS) em pacientes com
polirradiculopatia tipicamente contém uma linfocitose (10 a 50
células/mm3). A mononeurite múltipla é uma complicação pouco frequente
da infecção pelo HIV-1.
Pacientes coinfectados pelo citomegalovírus (CMV) podem desenvolver
mononeurite múltipla, polirradiculoneuropatia, ou polirradiculopatia. O
LCS pode apresentar uma pleocitose polimorfonuclear e uma reação da
polimerase em cadeia (PCR) para detecção de CMV no líquido
cerebroespinal (LCS) é positiva em 90% dos casos.
Diversas miopatias podem ocorrer em pacientes infectados pelo HIV-1, e
podem requerer biópsia para sua distinção. Em casos raros, pode ocorrer
rabdomiólise. Alguns pacientes parecem ter um distúrbio que se assemelha
a polimiosite, a qual é responsiva a esteroides; outros desenvolvem miosite
com corpos de inclusão. Diversas síndromes de perda muscular já foram
descritas, assim como uma miopatia vasculítica. A miopatia nemalínica é caracterizada pela presença de corpos em forma de bastonetes e perda de
filamentos espessos, e pode ser responsiva a corticosteroides. Infecções
oportunistas dos músculos ocorrem algumas vezes, como na toxoplasmose
muscular, e o tratamento deve ocorrer para o agente agressor. Miopatias
podem ocorrer como complicação do HAART. Uma miopatia mitocondrial
algumas vezes ocorre em pacientes recebendo zidovudina.