Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Transtornos Psicogênicos do Movimento

FIGURA 7-18

 

Transtornos Psicogênicos do Movimento Os transtornos de movimento psicogênicos (também designados como

histéricos ou funcionais) são transtornos sem evidências de uma etiologia

orgânica e pelos quais uma patologia psiquiátrica subjacente é considerada

responsável. Talvez um terço dos pacientes diagnosticados como

apresentando transtornos psicogênicos acaba por ser verificado como

apresentando uma doença neurológica orgânica, embora esta possa não

estar necessariamente relacionada com o transtorno de movimento

propriamente dito. Um transtorno de movimento não deve ser atribuído a

causas psicogênicas simplesmente porque o clínico não consegue chegar a

um diagnóstico orgânico definitivo. É importante que o médico avaliador

aguarde o desenrolar dos acontecimentos caso um diagnóstico não seja

imediatamente evidente. Com o tempo, características novas podem sugerir

o diagnóstico correto ou a aquisição de informações adicionais do paciente

ou de seus familiares pode sugerir a relevância de fatores psicogênicos.

Algumas características podem sugerir uma base não orgânica para o

transtorno de movimento. As características da história que levantam essa

possibilidade são o início abrupto dos sintomas e sua variabilidade

acentuada na natureza ou na intensidade em um curto período de tempo.

Além disso, há com frequência uma disparidade acentuada entre a

gravidade dos sintomas e a limitação funcional que eles são relatados como

ocasionando. Os pacientes podem relatar que não conseguem trabalhar

devido a seus movimentos anormais e, apesar disso, conseguem executar as

atividades da vida diária, como usar um computador pessoal, fazer compras,

cozinhar e assim por diante ou, em outras palavras, qualquer incapacidade é

seletiva. É igualmente importante se indagar a respeito de uma história

pregressa de doença psiquiátrica ou psicogênica e pesquisar qualquer

possível lucro secundário, como por um processo judicial ou por

compensação de trabalhadores, que pode ocorrer em consequência dos

sintomas presentes no momento.

Os achados do exame também podem ser úteis, especialmente a

aparência geral e a afetividade do paciente. Pode haver uma combinação de

diferentes discinesias, que variam acentuadamente quanto à natureza e à

distribuição ao longo do tempo e se agravam quando formalmente

examinadas. Podem estar presentes outros sinais de déficits neurológicos

não orgânicos, como uma perda sensitiva não autonômica ou uma marcha

instável aos arrancos, que nunca vem a ocasionar quedas.

O tremor psicogênico apresenta tipicamente uma frequência variável e

pode ser acarretado por manobras, tais como pancadas leves no pé. Na

presença de distração mental, tremores ou outros transtornos hipercinéticos

de movimento podem se tornar mais intermitentes, variáveis ou irregulares.

Eles podem cessar durante movimentos especializados do membro afetado.

Carregar o membro com pesos pode aumentar e não diminuir a amplitude

do tremor. Os pacientes portadores de distonia psicogênica relatam por

vezes que seus sintomas são particularmente problemáticos em repouso,

enquanto a distonia orgânica é com frequência mais conspícua à atividade

volitiva. Em um transtorno psicogênico da marcha esta se mostra com

frequência muito lenta, com gestos excessivos e por vezes com uma

atividade motora violenta ou bizarra. Sua intensidade é tipicamente bastante

variável, diminuindo à distração e se agravando quando o paciente é

observado mais atentamente.

Não é possível se fazer nenhuma correlação anatômica e a base

neuroquímica do transtorno de movimento não foi estabelecida. Os

pacientes que apresentam transtornos psicogênicos do movimento

tipicamente não respondem às medicações apropriadas, mas pode haver a

remissão ao tratamento do transtorno psiquiátrico subjacente. O diagnóstico

psiquiátrico pode incluir transtornos somatomorfos e factícios diversos,

depressão, ansiedade e transtornos histriônicos de personalidade. Nem

sempre é possível se fazer um diagnóstico psiquiátrico específico, apesar de

um alto nível de suspeita de psicogenicidade, e o neurologista e o psiquiatra

podem diferir em sua avaliação do problema subjacente.

Pode haver necessidade de investigações para se afastar possíveis causas

orgânicas para os sintomas do paciente. Os sintomas podem ter se

desenvolvido sobre uma base orgânica e depois terem se perpetuado e se

elaborado psicogenicamente. Os estudos podem incluir a RM encefálica;

níveis séricos de cobre e de ceruloplasmina e excreção de cobre na urina de

24 horas, estudos da função da tireoide e outros testes com base na suspeita

clínica. A avaliação diagnóstica pode incluir também uma prova terapêutica

de medicações tipicamente utilizadas em diversos transtornos orgânicos de

movimento, dependendo do estado clínico do paciente. É então necessário o

encaminhamento a um psiquiatra, com um acompanhamento cuidadoso do

paciente. O prognóstico é variável. As características sugestivas de um bom

prognóstico são início agudo, duração curta dos sintomas, funcionamento pré-mórbido sadio, ausência de outros transtornos orgânicos ou

psicogênicos e a presença de um precipitante identificável.