Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Cefalalgias Autonômicas do Trigêmeo
FIGURA 13-6
Cefalalgias Autonômicas do Trigêmeo
As cefalalgias autonômicas do trigêmeo (CATs) representam uma categoria
de distúrbios de cefaleia primária distinguidos por dor unilateral na
distribuição trigeminal que está presente em combinação com sinais e
sintomas autonômicos cranianos ipsilaterais, incluindo
• Injeção conjuntival e/ou lacrimejamento ipsilateral
• Congestão nasal e/ou rinorreia ipsilateral
• Sudorese ou rubor da testa e facial ipsilateral
• Edema palpebral ipsilateral
• Ptose e/ou miose (menos comum)
Os distúrbios de CAT incluem (1) cefaleia em salvas, (2) hemicrânia
paroxística, (3) ataques de cefaleia neuralgiforme unilateral de curta
duração com injeção conjuntival e lacrimejamento (SUNCT) e (4) ataques
de cefaleia neuralgiforme unilateral de curta duração com sintomas
autonômicos cranianos (SUNA). Embora compartilhem de vários aspectos,
as CATs diferem na duração e frequência dos ataques, assim como em sua
resposta terapêutica (Fig. 13-7). A cefaleia em salvas (CS) tem a duração de
ataque mais longa e uma frequência de ataque relativamente baixa.
Hemicrânia paroxística (HP) tem uma duração de ataque intermediária e
uma frequência de ataque intermediária. Os ataques de cefaleia de
SUNCT/SUNA apresentam a menor duração e a maior frequência de
ataques. É importante lembrar que lesões encefálicas estruturais subjacentes
podem mimetizar estes distúrbios. Portanto, uma ressonância
magnética/angiografia por ressonância magnética (RM/ARM) encefálica
está indicada quando um diagnóstico de CAT for considerado.
Cefaleia em salvas
Embora rara, CS é o mais comum dos distúrbios de CAT, com uma
prevalência de menos de 1% e uma proporção de homens para mulheres de
4:1 a 5:1. Além dos sintomas autonômicos cranianos, vários aspectos
clínicos ajudam a caracterizar a cefaleia em salvas. A dor geralmente é
lancinante, perfurante ou em facada; geralmente começa de modo repentino
sem sintomas premonitórios, atingindo rapidamente um pico e tornando-se
excruciantemente intensa. A dor pode começar na região temporal, facial
inferior ou occipital, permanecendo unilateral e tipicamente é máxima atrás
e ao redor do olho. A cefaleia geralmente dura 60 a 90 minutos, com uma
variação de 15 a 180 minutos e ocorre em dias alternados a oito vezes por
dia; geralmente no mesmo horário todos os dias ou noites. Fotofobia e
fonofobia ocorrem em até 50% dos indivíduos com CS, tipicamente do
mesmo lado da dor. Em contraste com a enxaqueca, em que a atividade tipicamente agrava a dor, mais de 90% dos de pacientes com cefaleia em
salvas relatam inquietação e agitação e evitam permanecer deitados.
O termo cefaleia “em salvas” foi designado porque, em sua forma mais
prototípica, ela é episódica e geralmente ocorre pelo menos uma vez a cada
24 horas por semana de cada vez, geralmente durante 8 a 12 semanas, ou
seja, em salvas. Durante um período de salvas ativo, os ataques geralmente
podem ser precipitados pela ingestão de álcool. Um padrão frequente,
especialmente nos primeiros anos, é que os períodos de salvas ocorram de
modo sazonal, muitas vezes na primavera ou outono. Esta periodicidade
geralmente diminui após alguns anos, quando os períodos de atividade de
salvas tornam-se menos previsíveis, ocorrendo em qualquer época do ano.
Aproximadamente 10% dos pacientes desenvolvem CS crônica,
caracterizada pela ausência de remissões prolongadas.
Mecanismos da Cefaleia em Salvas
A fisiopatologia da cefaleia em salvas não é bem compreendida. A
recorrência de ataques em momentos semelhantes do dia durante as crises
de salvas é uma das características mais notáveis desta síndrome e sugere
um possível envolvimento do hipotálamo. Estudos usando tomografia com
emissão de pósitrons (PET) confirmam isso, demonstrando a ativação do
hipotálamo posterior durante cefaleias em salvas induzidas por
nitroglicerina. Quando o hipotálamo está ativado, ele pode ativar o reflexo
trigeminal-autonômico, provocando dor unilateral principalmente na
divisão oftálmica do nervo trigêmeo, assim como características
autonômicas ipsilaterais, incluindo lacrimejamento, rinorreia, síndrome de
Horner parcial e vasodilatação orbital. A paresia oculossimpática em alguns
pacientes durante ataques de cefaleia em salvas implica envolvimento de
fibras simpáticas pericaróticas. O seio cavernoso foi sugerido como outra
importante fonte de patogênese da cefaleia em salvas porque este local
permite a convergência de fibras trigeminais, simpáticas e parassimpáticas.
Tratamento da Cefaleia em Salvas
Este é dividido em tratamento de ataques agudos em salvas, assim como
opções terapêuticas para transição durante um período de salvas ou terapia
profilática para prevenir ataques futuros. As opções de tratamento agudo da CS incluem inalação de oxigênio a 100%, sumatriptana subcutânea ou
sumatriptana nasal, zolmitriptana oral ou nasal, octreotídeo, lidocaína nasal
e di-hidroergotamina subcutânea.
A profilaxia de transição pode ser usada durante algumas semanas para
encerrar rapidamente ou reduzir de modo acentuado a frequência dos
ataques. Um ciclo de corticosteroides por 2 a 3 semanas geralmente
provoca uma redução substancial dos ataques. O bloqueio do nervo
occipital maior com um anestésico local e um corticosteroide pode reduzir
significativamente os ataques e às vezes provocar uma remissão. Para
profilaxia em prazo mais longo, verapamil geralmente é o medicamento de
escolha devido a sua eficácia e perfil de efeitos colaterais. O carbonato de
lítio também pode ser eficaz, porém geralmente é reservado para cefaleias
em salvas crônicas e intratáveis. O uso de outros agentes, como topiramato,
divalproato sódico e pizotifeno, ocasionalmente pode ser útil. Para CS
crônica clinicamente intratável, onde as atividades de vida diária do
paciente são totalmente incapacitadas pela dor, a estimulação do nervo
occipital e estimulação encefálica profunda parecem opções de resgate
úteis.
SUNCT/SUNA
Esta é uma CAT muito rara, caracterizada por dor de cabeça episódica
extremamente breve, unilateral e intensa na primeira divisão do nervo
trigêmeo, mais comumente nas regiões orbital, periorbital e temporal.
Alguns pacientes apresentam dor em outras localizações cefálicas.
Características autonômicas cranianas acompanham a dor.
FIGURA 13-7
Existem três padrões distintos de dor: (1) Facadas isoladas com uma
duração média de aproximadamente 1 minuto (variação de 1 a 600 segundos); (2) uma série de facadas com duração de ataque médio de
aproximadamente 400 segundos, ou seja, 6 a 7 minutos (variação de 10 a
1.200 segundos); (3) Ataques “em serrote” de dor persistente com facadas
sobrepostas múltiplas e uma duração média do ataque de 1.200 segundos,
ou seja, 20 minutos (variação de 5 a 12.000 segundos).
Alguns indivíduos sofrem mais de um destes tipos de ataques e existe
heterogeneidade entre os pacientes quanto à duração da dor e ao número de
episódios por dia. Ataques de SUNCT e SUNA podem ser episódicos, com
remissões espontâneas durando semanas ou mais ou podem ser crônicos
com longos períodos sintomáticos sem remissão espontânea. Embora os
ataques geralmente sejam espontâneos, existe uma vasta série de
desencadeantes de ataque, incluindo lavar ou escovar o cabelo, depilação,
tocar a face ou o couro cabeludo, mastigar ou comer, escovar os dentes,
falar, barbear-se, tomar banho de banheira ou chuveiro, tossir, assoar o
nariz, fazer exercícios e exposição à luz.
A medicação profilática constitui a base do tratamento. Lamotrigina,
topiramato e gabapentina provavelmente são os mais úteis, embora uma
variedade de outros agentes possa ajudar alguns pacientes. O tratamento
rápido com lidocaína pode ser útil em episódios de dor aguda e intensa. O
bloqueio do nervo occipital com um anestésico local e um corticosteroide é
útil para alguns indivíduos.
Hemicrânia paroxística
A hemicrânia paroxística (HP) é uma cefalalgia autonômica trigeminal rara
com uma prevalência estimada de 1 em 25.000. É diferenciada por ataques
de dor intensa unilateral, de curta duração, associados a características
autonômicas cranianas que se repetem muitas vezes ao dia, com uma média
de aproximadamente 10 a 12 por dia. Com mais frequência está localizada
na primeira divisão do nervo trigêmeo e geralmente dura de 15 a 20
minutos. Em geral a dor é descrita como “torturante” e geralmente é
caracterizada como lancinante, em queimação, aguda, em facada, pulsátil
ou penetrante. Como na CS, pode haver um ou mais aspectos associados a
enxaqueca, incluindo fotofobia, fonofobia e náuseas ou vômitos. Também
semelhante à CS, a HP geralmente está associada a inquietação ou agitação.
Aproximadamente 20% dos pacientes apresentam HP episódica, diagnosticada quando as remissões duram 1 mês ou mais; os demais
pacientes apresentam hemicrânia paroxística crônica, em que uma remissão
não ocorre dentro de 1 ano.
Embora a preponderância de ataques de HP ocorra espontaneamente,
aproximadamente 10% podem ser desencadeados de modo mecânico,
tipicamente por flexão ou rotação da cabeça. Os ataques algumas vezes são
desencadeados por pressão externa sobre o nervo occipital maior, raiz de C2
ou processos transversos de C4-5. A ingestão de álcool provoca ataques em
aproximadamente 20% dos pacientes.
Uma resposta inequívoca absoluta a uma dose terapêutica de
indometacina é o principal critério diagnóstico da HP. Este ainda é o padrão
de ouro para o tratamento da HP. Tanto inibidores seletivos da ciclo-
oxigenase-II (COX-II), por exemplo, celecoxibe, quanto topiramato são
eficazes em alguns pacientes. O bloqueio do nervo occipital maior com
anestésico local e um corticosteroide são benéficos em alguns pacientes.
Finalmente, pode haver um papel para a neuromodulação, como a
estimulação do nervo occipital em alguns pacientes.
Hemicrânia contínua
A hemicrânia contínua (HC) é relativamente incomum, mesmo assim
provavelmente é uma forma subdiagnosticada de cefaleia diária crônica. É
caracterizada por cefaleias unilaterais contínuas que mudam de gravidade,
aumentando e diminuindo, porém sem resolução completa. Episódios de
agravamento tipicamente estão associados a sintomas autonômicos
cranianos ipsilaterais (injeção conjuntival, lacrimejamento, rinorreia nasal),
porém de intensidade mais leve que aqueles observados nas cefalalgias
autonômicas do trigêmeo (CATs). As exacerbações também podem ser
acompanhadas por sintomas de enxaqueca, como náuseas, fotofobia e
fonofobia. Devido aos aspectos sobrepostos, a HC deve ser considerada ao
avaliar um paciente com cefaleias em salvas crônica ou enxaqueca crônica
(especialmente se a cefaleia ocorrer sempre do mesmo lado). De modo
semelhante às CATs, é importante descartar causas secundárias de HC,
como lesões hipofisárias, pineais ou na fossa posterior, dissecção da artéria
carótida interna e aneurismas não rompidos.
Um diagnóstico deste distúrbio também requer uma resposta absoluta e
acentuada a indometacina. HC às vezes responde bem a outros
medicamentos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), incluindo
inibidores da COX-II. Alguns pacientes relataram um resultado favorável
com topiramato e bloqueio do nervo occipital. Também pode haver um
papel para a neuromodulação, como estimulação do nervo occipital em
alguns pacientes.