Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Coagulopatias
FIGURA 9-30
Coagulopatias Papel das plaquetas na trombose arterial
A hemostase normal depende de um equilíbrio complicado entre os
processos pró-trombóticos e antitrombóticos, com o objetivo de manter o
fluxo sanguíneo normal e a integridade estrutural da vasculatura. Estes
processos são mediados por componentes celulares, proteínas solúveis do
plasma e fatores derivados do endotélio. Qualquer estímulo que perturbe a
natureza normalmente antitrombogênica do sistema vascular, tais como a
ruptura de uma placa aterosclerótica expondo elementos do tecido
subendotelial, inicia uma resposta hemostática. A primeira defesa após uma
lesão vascular, denotada hemostasia primária, consiste em interações nos
vasos sanguíneos e plaquetas que levam à formação do tampão de plaquetas
fisiológico. As plaquetas são produzidas por megacariócitos multinucleados
na medula óssea e liberadas no sangue periférico, onde eles existem por
cerca de 7 a 10 dias. Estes fragmentos celulares permanecem discoides, não
nucleados, normalmente circulam individualmente e em um estado
desativado. A ativação e a agregação de plaquetas são suprimidas por
produtos do endotélio normal, principalmente o óxido nítrico, a
prostaciclina, e a mais recentemente descrita ectoadenosina (di)trifosfatase
AD [TE] Pase (CD39).
A exposição da matriz do subendotélio leva à adesão quase instantânea
de plaquetas para o local da lesão vascular. Duas moléculas no subendotélio
são críticas para este passo: o fator de Von Willebrand (FVW) e o colágeno.
As plaquetas se ligam ao FVW e as fibrilas de colágeno via receptores de
glicoproteína (GP) Ib e Ia/IIa, respectivamente. Esta interação receptor-
ligante inicia o processo de ativação plaquetária; desencadeando uma série
de eventos de sinalização intracelular que resultam em um rearranjo
citoesquelético, mudança de forma e liberação dos grânulos alfa e densos.
Estes grânulos armazenados contêm substâncias, como a adenosina
difosfato (ADP), serotonina, fibrinogênio, trombospondina, que promovem
agregação e recrutamento de plaquetas adicionais ao crescimento do tampão
hemostático. Além disso, o tromboxane A2, formado após a clivagem de
ciclo-oxigenase de ácido araquidônico e liberado durante a ativação
plaquetária, é ao mesmo tempo um potente agonista plaquetário e
vasoconstritor.
O receptor de plaquetas GP IIb/IIIa então submete-se a uma mudança
conformacional dependente do cálcio (Ca++), que permite que ele se ligue ao
FVW adicional e ao fibrinogênio circulante. A GP IIb/IIIa é a glicoproteína
mais abundante na superfície das plaquetas, com aproximadamente 50.000
cópias expressas em plaquetas em repouso e receptores GP IIb/IIIa
adicionais dentro do citosol são mobilizados para a superfície depois da
ativação. O fibrinogênio pode simultaneamente ligar dois receptores GP
IIb/IIIa, ligando assim as plaquetas vizinhas. Isso resulta em agregação
plaquetária, na formação de uma rede de fibrina, e finalmente na
estabilização da massa para um trombo branco. Os glóbulos vermelhos
eventualmente se tornam enredados no agregado de plaqueta-fibrina e
produzem um trombo vermelho mais completamente formado. Plaquetas
agregadas em seguida fornecem uma superfície celular fosfolipídica para a
reunião dos fatores complexos de coagulação, formando uma ligação com
os processos da hemostasia secundária.
As plaquetas são particularmente relevantes na circulação arterial de alta
pressão, onde o dano vascular menor pode rapidamente levar a uma
hemorragia grave. O sistema hemostático deve, por conseguinte,
prontamente controlar a hemorragia. As plaquetas assumem um papel
fundamental nesta resposta, porque elas inicialmente contêm a perda de
sangue e em segundo lugar, fornecem uma superfície ativa para rápida
formação de fibrina e em última análise, de coágulo. Em contraste, na
circulação venosa de baixa pressão, as plaquetas são menos relevantes em
relação à reação crucial no controle de hemostatos, que é a taxa de geração
de trombina.
Estas diferenças patofisiológicas definem os agentes antitrombóticos ou
anticoagulantes utilizados em cada situação. Os agentes antiplaquetários são
o tratamento de escolha para prevenir a doença arterial coronariana ou o
AVE isquêmico arterial, enquanto as intervenções baseadas em
antitrombina, tais como heparina e varfarina, são usadas para profilaxia e
tratamento de trombose venosa encefálica e sistêmica. A aspirina é um
inibidor irreversível da atividade plaquetária da ciclo-oxigenase 1 (COX-1),
bloqueando assim a formação de tromboxano A2 pelo tempo de vida
daquela plaqueta. O clopidrogel inibe a ativação plaquetária e a agregação
através da ligação irreversível de seu metabólito ativo para os receptores de
ADP nas plaquetas, impedindo a ativação do receptor GP IIb/IIIa. O dipiridamol inibe a fosfodiesterase plaquetária, elevando assim os níveis de
adenosina monofosfato cíclica (cAMP) e interferindo na agregação
plaquetária. Fármacos anti-inflamatórios não esteroides (NSAIDs) se ligam
à COX-1 reversível e competitivamente e, portanto, seus efeitos são
dependentes dos níveis de plasma do fármaco, ao contrário da aspirina.
FIGURA 9-31
Trombofilias herdadas
Pacientes com eventos trombóticos venosos e arteriais inexplicados exigem
investigação para estados de hipercoagulabilidade. Indivíduos com
tendência aumentada à trombose são designados como tendo trombofilia,
tanto adquirida (p. ex., síndrome do anticorpo antifosfolipídico) quanto
hereditária, devido a defeitos genéticos em compostos de proteína
diretamente ou indiretamente envolvidos na hemostasia. Clinicamente, a
trombofilia hereditária é caracterizada por um ou mais dos seguintes elementos: (1) eventos trombóticos ocorrendo antes de 45 a 50 anos de
idade; (2) eventos espontâneos, recorrentes ou com risco de vida; (3)
trombose ocorrendo em locais anormais, incluindo sistema nervoso central;
e (4) história familiar de eventos tromboembólicos.
A hemostasia secundária ou a coagulação sanguínea é iniciada pela
interação do sangue com o subendotélio vascular ou o fator tecidual exposto
nas superfícies celulares após a lesão celular. As vias intrínsecas e
extrínsecas de coagulação convergem através de uma série de passos para
formar um caminho comum, levando finalmente à geração de trombina. A
cascata de coagulação transduz rapidamente pequenos estímulos iniciais em
grandes coágulos de fibrina. Os mecanismos anticoagulantes endógenos
compensam a natureza potencialmente explosiva desta cascata através da
regulação cuidadosa da extensão da geração da coagulação de serina-
protease. Os anticoagulantes naturais permitem a coagulação para continuar
localmente enquanto evitam que se inicie um processo sistêmico. Estados
congênitos e adquiridos de hipercoagulabilidade surgem quando um
desequilíbrio se desenvolve entre atividades plasmáticas pró-trombóticas e
anticoagulantes em favor da trombose. Na maioria das trombofilias
hereditárias, as variações genéticas das proteínas que regulam a hemostasia
levam, em última análise, à geração aumentada ou neutralização
prejudicada da trombina, predispondo a eventos trombóticos. Os estados de
hipercoagulabilidade são mais clinicamente relevantes como causas de
tromboembolismo venoso (TEV) do que a doença arterial trombótica.
Deficiência de Antitrombina III, Proteína S e Proteína C
Estes são os três anticoagulantes naturais mais importantes. A antitrombina
III (AT III) inibe a atividade de diversas proteases serinas de vias de
coagulação comuns e intrínsecas, particularmente a trombina. Na presença
de sulfato de heparina, a taxa de inativação é aumentada por
aproximadamente 1.000 vezes. A proteína C e a proteína S formam o
segundo sistema regulatório. Quando ligada à proteína trombomodulina na
membrana endotelial, a trombina ativa a proteína C, que por sua vez, se une
a fatores VIIIa e Va. A proteína S serve como um cofator de aceleração
desta reação. Embora mutações genéticas nestes anticoagulantes naturais
sejam incomuns, quando presentes elas levam à trombose venosa e à arterial no início da idade adulta. Se isso ocorrer em homozigozitia, ocorre
grave trombogênese durante a infância e primeira infância, o que muitas
vezes é incompatível com a vida.
Fator V de Leiden (FVL)
Este é o defeito genético mais comum relacionado com a trombose venosa,
presente em 10% a 50% dos indivíduos afetados. Mundialmente, as
frequências variam de 1% a 15%; e é altamente prevalente entre os
caucasianos. Este ponto de mutação no fator de coagulação do gene V torna
o fator mutante V resistente à degradação proteolítica pela proteína C
ativada, uma característica denominada resistência à ativação da proteína C.
Isso leva a um aumento na geração da trombina e um estado pré-coagulante.
A FVL heterozigótica aumenta o risco de TVP de 3 a 8 vezes; a
homozigótica está associada a um risco aumentado de 50 a 100 vezes. O
seu papel na trombose arterial é debatido. Porque ele interage
sinergicamente com o tabagismo, contraceptivos orais e outras trombofilias
hereditárias, há um fator de risco potencial para AVE isquêmico em
pacientes jovens com fatores de risco vasculares adicionais.
Mutação Genética da Protombina
A protombina é um zimogênio vitamina K dependente, que em sua forma
ativada (trombina) converte fibrinogênio em fibrina. Uma substituição do
gene G para o A da protombina no 3’ – região não traduzida está associada
a níveis elevados de protombina plasmática e aumento do risco trombótico.
Esta é a segunda trombofilia hereditária mais comum, que leva a um
aumento do risco de TVP de 2 a 5 vezes. A prevalência da heterozigozitia é
de 2% em caucasianos. A relação com a trombose arterial e o AVE
permanece controversa; embora esta mutação esteja associada a um
aumento moderado na doença trombótica arterial, ela assume importância
particular em determinados subgrupos, incluindo jovens mulheres que
tomam contraceptivos orais e crianças.
Hiper-homocisteinemia
Homocisteína é um aminoácido sulfurado formado como um composto
intermediário durante o metabolismo da metionina e metabolizado tanto pela remetilação quanto pela transulfuração. As vitaminas B12, B6 e o
folato são cofatores essenciais nestas vias. As elevações de homocisteína
plasmática podem ser causadas por fatores genéticos (mutações genéticas
na metilenetetraidrofolato reductase [MTHFR] e cistationina ß-sintase
[CBS]), nutricionais (deficiências de vitamina B e folato) e fatores
adquiridos (p. ex., insuficiência renal). Efeitos deletérios da hiper-
homocisteinemia incluem disfunção endotelial, ativação de plaquetas e
formação de trombos venosos e arteriais. Fatores nutricionais e homozigose
do polimorfismo de MTHFR levam a formas leves de hiper-
homocisteinemia com modesto aumento do risco trombótico. As mutações
do gene CBS levam a hiper-homocisteinemia grave, manifestada
clinicamente com aterosclerose grave, prematura, eventos tromboembólicos
precoces, retardo mental, deformidades esqueléticas e subluxação do
cristalino.
FIGURA 9-32
Síndrome do anticorpo antifosfolipídico A síndrome do anticorpo antifosfolipídico (SAF), também conhecida como
síndrome de Hughes, é uma condição protrombótica autoimune adquirida
caracterizada clinicamente pela presença de trombose vascular e/ou perda
fetal recorrente durante a gravidez, associada a evidência em laboratório de
anticorpos dirigidos contra fosfolipídeos ou proteínas de ligação de
fosfolipídeos. Os subgrupos mais vulgarmente detectados de anticorpos
antifosfolipídicos são anticoagulante de lúpus (AL), anticorpos
anticardiopilina (aCL) e anti-ß-glicoproteína 1 (anti-ß-GP1). O distúrbio 2 2
pode ser primário ou secundário a outra doença autoimune maior, mais
comumente lúpus eritematoso sistêmico. Esta é uma das poucas condições
que podem se manifestar tanto com tromboembolismo venoso quanto com
arterial e podem afetar tanto vasos grandes, quanto pequenos. Cada vez
mais, a doença microtrombótica está sendo reconhecida como uma
manifestação da SAF, em particular na forma de microangiopatia
trombótica renal.
As características principais da SAF incluem manifestações trombóticas,
perda fetal recorrente e trombocitopenia. Anormalidades valvulares
cardíacas, livedo reticular e anemia hemolítica são achados comuns
adicionais. Os pacientes têm tipicamente de 35 a 45 anos de idade quando
desenvolvem seu primeiro evento trombótico. Homens e mulheres são
igualmente afetados. Quase dois terços dos pacientes têm trombos limitados
ao sistema venoso, 20% a 30% são arteriais e em 10% a 15% dos
indivíduos ambas as circulações são afetadas. A maioria dos pacientes se
apresenta com trombose venosa profunda das extremidades inferiores, até a
metade dos quais desenvolve subsequentemente a embolia pulmonar. A
trombose também pode afetar o sistema encefálico venoso profundo e
superficial e normalmente faz isso em uma idade relativamente jovem, com
envolvimento mais extenso.
O AVE isquêmico e os AITs são as apresentações mais comuns da
doença arterial SAF. Isso ocorre em cerca de um quinto dos pacientes
seguido por infarto do miocárdio em cerca de metade desta frequência. A
maioria destes eventos é clinicamente indistinguível em relação aos AVEs
ateroscleróticos ou de pequenos vasos, portanto, exigindo um alto grau de
suspeição. Esta síndrome deve ser suspeitada em pacientes jovens com AVE
isquêmico quando outros leitos vasculares atípicos estão envolvidos, particularmente a artéria subclávia, renal ou da retina ou quando um
paciente experimenta eventos sem etiologia definida. Note-se que nem
todos os episódios arteriais são de origem trombótica. Êmbolos,
especialmente de vegetações da válvula mitral ou da válvula aórtica, podem
conduzir a eventos encefálicos. A embolização paradoxal através do forame
oval patente pode ocorrer. A associação do livedo reticular à trombose
encefálica caracteriza a síndrome de Sneddon. A forma mais grave e,
felizmente, infrequente é catastrófica em que os pacientes desenvolvem
insuficiência de múltiplos órgãos subsequentes à doença trombótica
generalizada. A taxa de mortalidade é superior a 50%.
Os mecanismos pelos quais os anticorpos antifosfolipídicos induzem a
trombose não são totalmente conhecidos. Postula-se que estes anticorpos
interfiram com as vias de anticoagulantes endógenos, liguem e ativem
plaquetas, e levem à ativação da cascata do complemento. A trombose na
SAF pode ocorrer espontaneamente ou no ambiente de fatores
predisponentes incluindo tabagismo, uso de contraceptivos orais, estase
vascular, cirurgia ou trauma. Mulheres estão particularmente em alto risco
para tromboembolismo venoso durante a gravidez e seu período pós-parto.
Algumas pacientes, geralmente aquelas com trombose venosa ou em vez de
trombose arterial, também têm condições recorrentes trombofílicas
genéticas. Não há associação definitiva entre manifestações clínicas
específicas e subgrupos particulares de anticorpos antifosfolipídicos. No
entanto, o risco de recorrência após um primeiro episódio de
tromboembolismo venoso na presença de aCL é particularmente alta
(aproximadamente 30%), o que se correlaciona com a titulação do
anticorpo.
O diagnóstico de SAF é feito através da combinação de recursos clínicos
com evidências laboratoriais com anticorpos antifosfolipídicos circulantes
titulares médios ou altos que são identificados como presentes em duas ou
mais ocasiões, em pelo menos duas semanas de intervalo. Os anticorpos
podem ser tanto do subtipo IgG quanto IgM e são medidos por uma norma
imunossorvente ligada à enzima (ELISA). O termo anticoagulante de lúpus
é um equívoco que resultou da observação inicial de que sua presença pode
prolongar o tempo parcial de tromboplastina (TPT). No entanto, pacientes
com SAF precisam ser rastreados para possível lúpus eritematoso sistêmico
(LES) concomitante.
Dado o elevado risco de tromboembolismo recorrente que caracteriza
esta condição, a base do tratamento em pacientes com SAF é a terapia
antitrombótica. A varfarina é o fármaco de escolha habitual, com a razão
normalizada internacional (RNI) frequentemente mantida no alcance
superior para a anticoagulação (i.e., RNI 3,0-4,0). A adição de aspirina
também pode precisar ser considerada. Devido à trombocitopenia ser um
achado frequente em pacientes com SAF, a terapia deve ser cuidadosamente
equilibrada contra os riscos de hemorragia associados a uma baixa
contagem de plaquetas.