Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Transtorno da Personalidade Borderline
FIGURA 4-18
Transtorno da Personalidade Borderline O termo borderline era atribuído inicialmente a pacientes que não eram nem
neuróticos, nem psicóticos, mas que se mostravam como casos clinicamente
problemáticos. Atualmente, um diagnóstico de transtorno da personalidade
borderline (TPB) se refere a pacientes caracterizados por distúrbio
emocional e potencial crônico para o suicídio. De acordo com o Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR), é preciso
que pacientes com TPB mostrem um “padrão difuso de instabilidade das
relações interpessoais, autoimagem e afetos, com impulsividade marcante
manifestando-se no início da idade adulta e presente em uma variedade de
contextos”. Mais especificamente, é preciso que os pacientes apresentem
pelo menos cinco sintomas dentre nove possíveis que podem ser
organizados em quatro categorias: afetivos, impulsivos, interpessoais e
cognitivos.
Sintomas afetivos incluem reatividade extrema do humor, sentimentos de
vazio crônico e raiva indevida ou intensa. Os sintomas impulsivos incluem
comportamento suicida recorrente, incluindo ideação, ameaças e tentativas
de suicídio, bem como atos automutilantes como cortar-se, queimar-se e
arranhar-se. Esses indivíduos podem exibir dois ou mais outros
comportamentos potencialmente prejudiciais a si mesmos, incluindo uso
abusivo de substâncias, gastos excessivos, comportamento sexual indevido,
compulsão alimentar ou direção imprudente. Mudanças repentinas e
drásticas em suas opiniões sobre os outros ocorrem com frequência. Dentro
do domínio interpessoal, pacientes com TPB podem sentir temores intensos
de abandono acoplados à raiva indevida, bem como uma sensação de
instabilidade de si mesmos caracterizada por metas e valores em constante
mutação. Os sintomas cognitivos podem ocorrer sob estresse extremo e
podem ser sentidos como ideação paranoide transitória ou sintomas
dissociativos. O estilo comportamental moderno de indivíduos com TPB é
de automutilação, funcionamento abaixo do nível verdadeiro de inteligência
ou capacidade, variando entre idealização e desvalorização nas relações
interpessoais e demonstrando um estilo cognitivo inflexível e impulsivo.
A prevalência de TPB é de aproximadamente 2% na população geral; a
maioria é de mulheres. Pacientes com TPB em geral se apresentam
clinicamente aos 18 anos de idade, tendem a usar mais serviços de
tratamento ambulatoriais, emergências e hospitais psiquiátricos. Atos de
comportamento automutilante são comuns, particularmente durante a idade adulta jovem. O suicídio consumado, o resultado mais devastador de
qualquer doença psiquiátrica, ocorre em 10% dos pacientes com TPB.
Transtornos comórbidos, em particular transtornos de humor e por uso de
substâncias, complicam o quadro de TPB e interferem na recuperação
sintomática, bem como no funcionamento psicossocial. Pacientes com TPB
são com frequência subdiagnosticados em virtude da sobreposição
sintomática com outras doenças. A gravidade e a prevalência do TPB
diminuem com a idade; aproximadamente 75% dos pacientes recuperam o
funcionamento próximo ao normal até os 40 anos de idade e, até os 50 anos,
quase 90% se recuperam.
Tanto fatores biológicos quanto psicossociais contribuem para o
desenvolvimento de TPB. Estudos de gêmeos demonstraram uma influência
genética no TPB, bem como nos sintomas centrais de instabilidade afetiva e
impulsividade. Parentes em primeiro grau de indivíduos com TPB exibem
taxas maiores de transtornos impulsivos. Déficits serotoninérgicos estão
ligados à impulsividade, embora nenhum marcador biológico específico do
transtorno global tenha sido identificado até agora. Fatores psicossociais
também contribuem e incluem disfunção familiar, eventos traumáticos
frequentes na infância, ambientes anuladores e histórias de uso abusivo
sexual ou físico.
Enquanto a farmacoterapia tem um papel no controle dos sintomas,
tratamentos psicossociais são considerados o método primário para tratar
TPB. A terapia comportamental dialética (TCD) é o tratamento psicossocial
mais intensamente pesquisado. Radicada na terapia cognitivo-
comportamental, a TCD usa terapia individual e de grupo para tratar a
impulsividade e a instabilidaade afetiva, ensinando habilidades de atenção
plena, regulagem das emoções e tolerância à pressão. Esse tratamento
reduziu tentativas de suicídio, hospitalizações e idas à emergência, além do
abandono da terapia. Treinamento em sistemas de terapia cognitivo-
comportamental para previsibilidade emocional e solução de problemas, e
até mesmo tratamentos psicodinâmicos (i.e., terapia baseada em
mentalização e terapia focada em transferência), demonstram resultados
preliminares favoráveis.
Existe muita controvérsia a respeito do uso da farmacoterapia para TPB.
No Reino Unido, a farmacoterapia não é recomendada para outra coisa
além do tratamento de transtornos comórbidos. Uma metanálise recente da farmacoterapia parece demonstrar efeitos benéficos para diversos grupos de
sintomas centrais. A patologia interpessoal sofreu um impacto significante
pelo antipsicótico aripiprazola. Anticonvulsivantes, incluindo topiramato,
valproato e lamotrigina, são os agentes de primeira linha preferenciais para
desregulagem afetiva, enquanto antipsicóticos de segunda geração (ASG) e
haloperidol também mostraram resultados positivos. O tratamento com
inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) só é recomendado
para pacientes com uma condição comórbida de eixo I (i.e., um episódio
depressivo maior) que demande tratamento antidepressivo. Não há
evidências de eficácia para outros sintomas de TPB, ou seja, componentes
impulsivos e cognitivos. Ao selecionar um tratamento farmacológico para o
transtorno da personalidade borderline, é importante considerar o potencial
de mau uso ou dependência, bem como os efeitos tóxicos potenciais de
superdosagem. Embora muitos sintomas de TPB sejam tratáveis com
farmacoterapia, o tratamento medicamentoso por si só não leva à remissão
desse transtorno.