Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Dislexia do desenvolvimento
FIGURA 1-27
Dislexia do desenvolvimento A dislexia do desenvolvimento, ou distúrbio desenvolvimentar da leitura, é
definida como um significativo comprometimento no desenvolvimento da
leitura e das habilidades relacionadas, como soletração, escrita e
compreensão da leitura, devido a problemas de processamento fonológico,
apesar de uma inteligência adequada e instrução convencional. Esse
distúrbio geralmente ocorre em associação com outras deficiências
específicas de aprendizagem, como distúrbios de compreensão auditiva,
linguagem expressiva, articulação e discriminação visual. É o transtorno da
linguagem identificado com mais frequência e que atualmente se percebe
que afeta igualmente ambos os sexos, estando em geral presente em irmãos
e outros membros da família.
Como o déficit primário na dislexia do desenvolvimento ocorre na leitura
e na escrita, em geral a anormalidade não é identificada até os primeiros
anos de vida escolar, quando as crianças começam a ler. A maioria dos pais
não está ciente de qualquer distúrbio em seu filho antes desse estágio. Por
ser comum e afetar habilidades recém-adquiridas pelo homem, a dislexia do
desenvolvimento pode ter tido certas vantagens em sociedades pré-
literárias, porque as pessoas disléxicas muitas vezes tinham habilidades
visuoespaciais e artísticas maiores.
Teorias Etiológicas
Os primeiros pesquisadores postularam que a dislexia do desenvolvimento
era causada por uma lesão no giro angular esquerdo, uma área do encéfalo
na qual a lesão, em adultos, produz cegueira de palavras. Posteriormente,
Orton (1925) percebeu que o distúrbio era causado por áreas de associação
visual equipotenciais nos dois hemisférios encefálicos que competiam
ativamente entre si, com um lado enxergando a imagem em espelho do
outro. Orton ficou particularmente impressionado com a inversão das letras
e de sequências de letras de palavras, a inconsistência desses erros e a
capacidade de alguns estudantes disléxicos de ler melhor com o auxílio de
um espelho. Problemas emocionais e instrução inadequada também eram
considerados causas de dislexia.
Investigações passadas, incluindo tomografia computadorizada, estudos
eletroencefalográficos evocados computadorizados e estudos post-mortem
produziram evidências de uma base estrutural para a dislexia. Mais recentemente, a RM demonstrou uma variedade de alterações estruturais no
corpo caloso, lobos temporais esquerdos, tálamo, giro frontal inferior,
caudado e cerebelo (Pennington, 1999; Eliez, 2000; Brown, 2011; Leonard,
2001; Rae, 2002; Robichon, 2000; Elnakib, 2012).
Historicamente, Drake (1968) notou giros com formação anormal nas
regiões parietais e neurônios ectópicos na substância branca, capturados
durante sua migração para o córtex cerebral. O exame de um segundo
cérebro por Galaburda e Kemper (1979) mostrou anormalidades corticais
cerebrais caracterizadas por displasia focal e verrucosa na área sensitiva da
fala (área de Wernicke) e da linguagem no hemisfério cerebral esquerdo
dominante. O terceiro cérebro examinado demonstrou somente displasia
verrucosa quase exclusivamente confinada ao hemisfério cerebral esquerdo
(Kemper, 1984). Assim, o exame dos três cérebros demonstrou
malformações menores.
A análise de malformações humanas e em modelos animais indica que a
displasia verrucosa provavelmente surge durante os estágios finais da
migração neuronal para o córtex encefálico, e parece resultar da migração
de neurônios para dentro de áreas focais de destruição cortical. No homem,
a migração neuronal para o córtex encefálico ocorre da oitava até
aproximadamente a décima sexta semana de gestação. Compatível com esse
momento é a presença de neurônios ectópicos na substância branca em dois
dos três cérebros examinados. A natureza desse processo destrutivo
postulado é desconhecida. Geschwind e Behan (1982) notaram significativo
agrupamento de dislexia, canhotismo, doença autoimune e enxaqueca em
pessoas aparentadas, indicando uma associação entre esses distúrbios.
Atualmente, percebe-se que a dislexia do desenvolvimento é um
distúrbio das conexões de rede, demonstrada por Vandermosten (2012).
Usando tratografia por RM, ele notou que adultos com dislexia
apresentavam redução do fascículo arqueado esquerdo, que conecta as áreas
temporal posterior e frontal. Isso pode representar uma área de diminuição
da mielinização.
Tratamento
A identificação e a avaliação da dislexia são essenciais para o tratamento
adequado. A abordagem educacional ideal é multissensorial, incluindo percepção fonêmica e aumento do processamento fonológico, ao qual
praticamente todos respondem. Entretanto, como a dislexia é um distúrbio
vitalício, muitos indivíduos continuam a se esforçar na vida adulta, quando
são apresentados a palavras novas ou pouco familiares, ou em situações de
compreensão de leitura. O tratamento deve visar à habilitação dos
indivíduos no sentido de superar os déficits, quando possível, e ao
aprendizado de estratégias para contornar e compensar as dificuldades que
não possam superar.