Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Estabelecendo a diversidade celular no encéfalo e medula espinal embrionária
FIGURA 1-18
Estabelecendo a diversidade celular no
encéfalo e medula espinal embrionária
A transformação morfogenética do encéfalo embrionário de um tubo neural,
durante o início do primeiro trimestre, para um órgão semelhante ao
encéfalo definitivo, no final da gestação, é impulsionada basicamente pela proliferação contínua de células-tronco, neurogênese e diferenciação. Essa
“histogênese” depende da especificação e acúmulo de células-tronco
neurais com distintas capacidades para gerar diversas classes de neurônios e
células gliais. Subsequentemente, essas células-tronco, baseadas em sua
posição nos eixos anterior-posterior, assim como no eixo posterior-anterior
do tubo neural e seu acesso, tanto a sinais locais quanto circulantes,
estabelecem a identidade, que é mantida em sua progênie pós-mitótica.
Assim, a posição das células-tronco neurais é um determinante-chave da
organização final de cada região cerebral. Essa relação pode ser usada para
entender a organização básica no adulto de todo o sistema nervoso central.
As células-tronco neurais que dão origem a neurônios encefálicos
definitivos e glia, com poucas exceções, compreendem uma camada de
células que reveste o espaço ventricular do tubo neural em toda a sua
extensão anterior-posterior. Essa camada, conhecida como camada
ependimária ou zona ventricular do neuroepitélio em desenvolvimento,
geralmente é a única região das células-tronco neurais: as células
proliferativas no sistema nervoso que se dividem simétrica e lentamente
para produzir células-tronco adicionais com capacidade de gerar todos os
tipos de células nessa região. Um tipo distinto de célula proliferativa, a
progenitora intermediária ou amplificadora de trânsito, é encontrado na
camada do manto (também conhecida como zona intermediária). Além
disso, muitos novos neurônios pós-mitóticos também são encontrados na
camada do manto. Finalmente, a região do epitélio do tubo neural é referida
como camada, ou zona, marginal. A zona marginal possui alguns neurônios
pós-mitóticos e glia, bem como alguns processos axonais e dendríticos
nascentes provenientes de neurônios de diferenciação locais. Na medula
espinal e metencéfalo (bulbo e mesencéfalo), a zona marginal geralmente
também é o local das vias axonais que se desenvolvem de outras regiões do
encéfalo para inervar os neurônios-alvo locais. Assim, essas três camadas
neuroepiteliais – ependimária/ventricular, manto/intermediária e marginal –
mantêm células-tronco neurais locais, facilitam a neurogênese e dão suporte
à diferenciação neuronal inicial. As zonas do manto e marginal também são
importantes para o suporte à diferenciação neuronal inicial e para
estabelecer conexões iniciais entre dendritos locais e axônios locais ou a
longa distância. O tubo neural também adquire distinções regionais no eixo
posterior-anterior as quais refletem a divisão final da medula espinal, metencéfalo, mesencéfalo e diencéfalo em regiões sensitivas e motoras, ou
recebem informações dos receptores periféricos (sensitivas) e as
retransmitem para regiões cerebrais adicionais, ou enviam axônios para os
músculos esqueléticos ou gânglios autonômicos para regular a homeostasia
e o comportamento. Do local mais posterior da medula espinal até a
extremidade anterior do diencéfalo, o tubo neural se divide em placas
posterior ou alar e anterior ou basal. Essas zonas se distinguem umas das
outras por um sulco local, chamado sulco limitante, que indenta a zona
ependimária/ventricular. Por toda a extensão da placa posterior ou alar são
gerados neurônios que se tornam alvos dos axônios aferentes sensitivos da
periferia ou retransmitem informações sensitivas de outros centros
cerebrais. Assim, na medula espinal, bulbo, mesensecéfalo e diencéfalo,
derivados da placa posterior se tornam zonas de retransmissão sensitiva ou
núcleos de retransmissão sensitiva distinta. Na medula espinal, a zona de
retransmissão sensitiva é referida como corno posterior e eventualmente se
torna altamente laminada em ordem com as diferentes classes de
informações sensitivas. No bulbo, a placa posterior dá origem a núcleos de
coordenação sensitiva, ou de retransmissão, para os nervos cranianos. No
mesencéfalo, a placa posterior dá origem aos colículos superior e inferior,
que recebem informações diretamente do olho (superior) ou indiretamente
do nervo auditivo (inferior). Estes dois núcleos são cruciais para integrar as
informações sensitivas com o início dos comandos motores. Finalmente, no
diencéfalo, a placa posterior dá origem a todos os núcleos de coordenação
sensitiva talâmica, ou núcleos de retransmissão para os sentidos: visão
(núcleo geniculado lateral), audição (núcleo geniculado medial),
somatossensibilidade (complexo anterobasal), paladar (complexo
anterobasal) e olfação (núcleo medioposterior). Por toda a região da medula
espinal, bulbo, mesencéfalo e diencéfalo, a zona do manto se torna o local
de tratos axonais que transportam axônios aferentes sensitivos.
Em paralelo com a diferenciação da placa posterior/alar, a placa
anterior/basal produz grupos de neurônios, cujos axônios se projetam
diretamente para os músculos estriados (neurônios motores esqueléticos),
gânglios autonômicos (neurônios motores pré-ganglionares), músculos
cranianos principalmente derivados da crista (neurônios motores cranianos),
ou cujos axônios se projetam para os neurônios esqueléticos, pré-
ganglionares ou cranianos para proporcionar regulação do SNC de seus comandos para músculos e glândulas periféricas. A posição de vários
derivados da placa anterior ao longo do eixo anterior-posterior, da medula
espinal, através do bulbo e mesencéfalo, através do diencéfalo, determina o
tipo de neurônio motor que é gerado. Assim, em toda a medula espinal, a
maioria dos neurônios motores no corno anterior ou coluna é de neurônios
motores esqueléticos. Além disso, na medula espinal torácica, neurônios
motores pré-ganglionares (ou viscerais) são gerados no corno lateral,
aproximadamente na região do sulco limitante. No bulbo, há uma variedade
de núcleos motores cranianos que possuem nervos motores cranianos que
se projetam para os músculos da cabeça e do pescoço motor, as mandíbulas,
a língua e os olhos. No mesencéfalo, há uma série de núcleos que
influenciam a função motora (incluindo a área tegmentar ventral ou TAV,
que possui neurônios dopaminérgicos), assim como o núcleo rubro, cujos
neurônios projetam para os neurônios motores esqueléticos que regulam,
entre outras coisas, os movimentos grosseiros do braço. Finalmente, a placa
basal do diencéfalo se torna uma coleção de núcleos de controle motor do
hipotálamo que se projeta para os neurônios motores viscerais pré-
ganglionares, que regulam uma ampla variedade de funções homeostáticas
e reprodutivas. A zona do manto de cada região da placa anterior
transforma-se em distintos tratos axonais que principalmente transportam
axônios dos neurônios de controle motor que se projetam dos altos centros
(como o mesencéfalo ou hipotálamo) para os neurônios motores no bulbo e
medula espinal.
Assim, com base na posição das células-tronco neurais, na camada
ependimária/ventricular de toda a medula espinal rudimentar, bulbo,
mesencéfalo e diencéfalo, há especificação ordenada de distintos neurônios
sensitivos e motores que servem a distintas regiões do corpo: o tronco,
membros e vísceras para a medula espinal; a cabeça, pescoço e vísceras
para o bulbo; mesencéfalo e diencéfalo. Essa consistente especificação
conta com o estabelecimento de centros que fornecem sinais moleculares
para a placa posterior/alar anterior/basal da medula espinal posterior através
do mesencéfalo anterior. Na linha média anterior encontra-se a placa do
assoalho, uma região fina de células neuroepiteliais que secreta a principal
proteína sinalizadora - a proteína SHH - sonic hedgehog, assim como vários
outros sinais para estabelecer a identidade do neurônio motor. Na linha
média posterior encontra-se a placa do teto, que fornece sinais que igualmente influenciam a diferenciação dos neurônios sensitivos. Estes
incluem as proteínas morfogenéticas ósseas (PMO), sinais
wingless/integração (WNT) e ácido retinoico. Consequentemente, a
organização neuroanatômica e funcional básica da medula espinal, bulbo,
mesencéfalo, tálamo e hipotálamo reflete a posição de desenvolvimento e
história da sinalização molecular das células-tronco neurais que geram os
neurônios de cada região cerebral.