Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Disrafismo espinal
FIGURA 1-7
Disrafismo espinal Espinha bífida oculta
As formas mais benignas de disrafismo espinal incluem anormalidades
ósseas ocultas, não acompanhadas de deslocamento dos conteúdos do canal
espinal, e com ou sem estigmas cutâneos. Nesses casos, não ocorre a fusão
óssea entre as duas lâminas das vértebras envolvidas (Fig. 1-7). A espinha
bífida oculta não tem significado clínico, quando ocorre isoladamente sem
envolvimento intraespinal.
Os estigmas cutâneos da espinha bífida oculta incluem covinhas, seios
dermais, lipomas subcutâneos, tufos de pelos ou hemangiomas. Podem
ocorrer lesões cutâneas isoladamente ou prenunciarem uma medula
subjacente presa devido a um cone de implantação baixo ou um filamento
infiltrado com gordura. Apenas um pequeno subgrupo de lesões cutâneas
está associado a uma anomalia intraespinal, e em geral a RM realizada com
alguns meses de idade pode excluir o diagnóstico sem radiação ou sedação.
Ocorre síndrome da medula presa quando um filamento terminal
hipertrofiado é bastante inflexível e causa tração progressiva e relativo
deslocamento caudal do cone medular, à medida que a espinha se
desenvolve. Essa tração pode produzir progressiva isquemia no cone
medular e levar a sintomas de disfunção esfinctérica e anormalidades da
marcha. É provável que um terço dos bebês com medula presa congênita
eventualmente desenvolva disfunção neurológica, se a medula presa ficar
sem tratamento. A soltura profilática por secção microcirúrgica do
filamento terminal, idealmente antes de 1 ano de idade, permite a imediata
ascensão do cone medular em direção a uma localização mais normal
dentro do canal espinal, minimizando a chance de desenvolvimento de
déficits neurológicos, à medida que a espinha se desenvolve. No caso de
crianças mais velhas, com uma apresentação sintomática mais tardia, o
tratamento pode minimizar a progressão dos déficits neurológicos. Se
ocorrer espinha bífida oculta em conjunto com seio dermal (um trato do
revestimento epitelial que liga o saco dural à superfície da pele), existe um
potencial para a comunicação entre a pele e os conteúdos intraespinais e
subsequente infecção. Os seios dermais, localizados acima da região
sacrococcígea, devem ser removidos cirurgicamente após obtenção de
imagens de RM, para avaliar para outras lesões associadas.
Espinha bífida aberta
As condições disráficas nas quais há manifestações evidentes do defeito
ósseo de base são referidas como “espinha bífida aberta” (Fig. 1-8). Dentro
desse grupo, a progressão de sequelas neurológicas é definida, em grande
medida, pelo grau em que os conteúdos do canal espinal estão deslocados
de sua localização normal. No caso de meningocele, a forma mais benigna
de espinha bífida aberta, há extrusão de um cisto meníngeo livre de
elementos neurais. Geralmente, a meningocele pode ser completamente
removida por cirurgia e o defeito é fechado.
FIGURA 1-8
A diastematomielia é uma malformação congênita em que a medula
espinal divide-se em duas partes, ou hemimedulas. Geralmente está associada a um tufo de pelos cutâneos na linha média, e deve-se fazer a
triagem com ressonância magnética – RM em todos os bebês com um tufo
preocupante. Frequentemente, um septo ósseo ou cartilaginoso separa as
partes divididas. Os pacientes com malformação de medula dividida correm
o risco de desenvolver escoliose associada e mielopatia progressiva na
medida em que a coluna se desenvolve. A excisão cirúrgica do septo da
linha média pode deter a condição degenerativa e, em alguns casos, levar à
restauração da função.
Uma variante mais devastadora de espinha bífida aberta é a
mielomeningocele, em que a medula espinal ou as raízes nervosas, ou
ambas, se projetam através de defeitos ósseos ou cutâneos posteriores
devido ao não fechamento do neuróporo posterior. A gravidade dos déficits
de uma mielomeningocele correlaciona-se com a sua localização ao longo
do canal espinal, ocorrendo déficits cada vez maiores no caso de lesões
mais rostrais. Os déficits neurológicos são decorrentes de desenvolvimento
anormal in utero por todo o SNC. O fechamento pós-natal da
mielomeningocele no bebê a termo é realizado em alguns dias do
nascimento para se minimizar o risco de meningite, e está associado a baixa
morbidade. O fechamento fetal pré-natal pode ser uma opção para um
grupo muito selecionado de pacientes e está associado a complicações,
incluindo parto prematuro.
A suplementação pré-natal de folato tem diminuído acentuadamente a
incidência de bebês nascidos com mielomeningocele assim como a
gravidade da lesão. Os bebês com lesões sacrais e lombares inferiores
geralmente alcançam algum grau de deambulação, e aproximadamente 80%
podem obter controle esfincteriano da bexiga e ânus. Aproximadamente
metade dos bebês com mielomeningocele lombar ou sacral desenvolverá
hidrocefalia que requer tratamento cirúrgico (Fig. 1-7). A maioria desses
bebês terá malformação de Chiari II associada, com deslocamento do verme
cerebelar para dentro do canal cervical, mas somente uma pequena
porcentagem se tornará sintomática em algum ponto da vida. As crianças
correm o risco de desenvolver a síndrome da medula presa quando a
cicatriz da meninomielocele se aderir ao local de reparo durante o
desenvolvimento da espinha. Todas as meningomieloceles reparadas
parecerão aderidas até certo ponto na RM, e o diagnóstico de medula presa
nessa população é efetuado clinicamente. Embora sejam necessários cuidados multidisciplinares ao longo de todo o ciclo vital das crianças