Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Síndrome do Homem Rígido
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Síndrome do Homem Rígido
Introdução
A síndrome do homem rígido (SHR) é um transtorno autoimune crônico
que se manifesta geralmente na meia-idade, por espasmos dolorosos
intermitentes e finalmente uma rigidez grave afetando predominantemente a
musculatura paraespinal, abdominal e das pernas. As mulheres são mais
comumente afetadas. O início é insidioso; um ruído alto ou uma surpresa
repentina pode ocasionar espasmos musculares agudos, com uma extensão
inadequada das pernas precipitando por vezes quedas súbitas.
As variantes da SHR incluem a síndrome do membro rígido, a
encefalomielite progressiva com rigidez e mioclonias (EPRM) e um
processo paraneoplásico associado ao câncer de mama. Ataxias idiopáticas
da marcha acompanham por vezes a SHR. Houve um caso de SHR familiar,
afetando o pai e uma de suas filhas, com a transferência transplacentária de
anticorpos a uma neta.
Etiologia
A SHR autoimune primária clássica se associa tipicamente em raras
ocasiões com autoanticorpos com o ácido glutâmico descarboxilase (GAD-
65) e em raras ocasiões a uma variante paraneoplásica com anticorpos
antianfifisina. Outros transtornos autoimunes comumente associados à
autoimunidade à GAD-65 incluem o diabetes melito tipo 1, tireoidite,
vitiligo e anemia perniciosa. O papel fisiopatológico exato do anticorpo
ainda não foi esclarecido. Na SHR clássica o processo autoimune pode ser
dirigido aos interneurônios inibitórios espinais produtores de ácido γ-
aminobutírico (GABA). Os anticorpos a GAD do soro de pacientes
portadores da SHR inibem a síntese de GAD e de GABA in vitro.
Manifestações clínicas
A SHR generalizada clássica se caracteriza por rigidez paraespinal,
abdominal e das pernas, com a hiperlordose lombar como uma
característica-chave. A rigidez das pernas dificulta o caminhar. Espasmos
dolorosos superpostos vêm a ocorrer, precipitados por vezes por um ruído
súbito, a ansiedade ou um contato físico. Os espasmos são ocasionalmente
abruptos e vigorosos, ocasionando quedas repentinas e agorafobia, com
medo de sofrer uma queda em público. Nos casos em que a musculatura abdominal é afetada, a dor e a rigidez concomitantes podem imitar
potencialmente um abdome agudo.
O exame neurológico é com frequência normal de início em pacientes
que apresentam apenas espasmos intermitentes; entretanto, mais
tardiamente na evolução da SHR generalizada à contração concomitante da
musculatura paraespinal e abdominal é evidente, com hiperlordose lombar e
rigidez dos membros inferiores. Alguns pacientes se tornam extremamente
temerosos simplesmente até de se mover, porque isso pode precipitar
espasmos fortes e dolorosos. Por vezes o toque do examinador no paciente
causa um espasmo em opistótono generalizado, imitando o tétano. Os
reflexos extensores musculares se mostram normais a vivos, associando-se
ocasionalmente ao sinal de Babinski.
As variantes apendiculares primárias da SHR se manifestam focalmente
em uma das pernas por rigidez e espasmos; o envolvimento axial não é tão
proeminente. O envolvimento dos músculos abdominais e do tronco acaba
por ocorrer se a SHR não for diagnosticada e tratada com presteza.
Os pacientes de SHR com EPRM apresentam anticorpos a receptores
para glicina (GlyR-abs). Uma das síndromes de SHR é paraneoplásica,
apresentando manifestações variadas. Ela se associa frequentemente a
anticorpos antianfifisina, tornando necessária a pesquisa de um câncer de
mama subjacente; todavia, o câncer de pequenas células do pulmão, o
câncer do colo intestinal e o linfoma também se associam a essa condição.
Outra variante idiopática, presumida como sendo autoimune, não se
associa a um autoanticorpos identificável e pode ser rapidamente
progressiva, ocasionando incapacidade grave e morte.
Diagnóstico diferencial
Os pacientes portadores da SHR já tiveram anteriormente múltiplas
consultas médicas sem um diagnóstico. Achados normais de exame ao
início levam por vezes o médico que não suspeite da condição a rotular
esses pacientes como histéricos ou somatomorfos, levando a avaliações
psiquiátricas. Outras considerações diagnósticas incluem discos
lombossacros, distonia, esclerose múltipla, acidentes vasculares encefálicos,
artrite, mielopatias ou transtornos dos núcleos da base, doença de Lyme,
poliomielite, mioclonias espinais, tumores e o envenenamento por estricnina. Em condições agudas é preciso considerar-se o tétano, devido
aos graves espasmos musculares com enrijecimento em tábua da parede
abdominal. Os músculos maxilares poupados e a ausência de trismo e do
riso sardônico na SHR afastam o tétano. Duas canalopatias acompanhadas
de rigidez muscular, quais sejam a miotonia congênita e a síndrome de
Isaac, são pouco prováveis; essas condições não são dolorosas.
A SHR é basicamente um diagnóstico clínico e algumas características
devem ajudar a chamar a atenção do clínico para esse diagnóstico. Essas
características incluem o endurecimento e a rigidez dolorosos dos
músculos, predominantemente axiais, porém ocasionalmente de membros
individuais; a hiperlordose lombar acentuada; os espasmos musculares
superpostos; e a avaliação normal do tronco encefálico, do sistema
extrapiramidal e do neurônio motor inferior.
Títulos séricos marcadamente elevados de autoanticorpos a GAD-65
apoiam esse diagnóstico. Na SHR clássica de 60% a 90% dos pacientes têm
títulos séricos muito altos de anticorpos a GAD-65, geralmente acima de 20
nmol/L. níveis mais baixos de anticorpos a GAD-65 podem ocorrer no
diabetes melito tipo I. Anticorpos elevados a anfifisina sugerem cânceres
ocultos, geralmente de mama. A EPRM se associa a títulos elevados de
anticorpos anti-GliR.
Embora a eletromiografia (EMG) se mostre com frequência normal ao
início da evolução da SHR, isso não deve dissuadir o clínico de obter
estudos de anticorpos em um contexto clínico apropriado. A EMG acaba
por revelar uma característica descarga concomitante e contínua de
potenciais da unidade motora em músculos agonistas e antagonistas.
Tratamento
O diazepam constitui a terapia sintomática de primeira linha. Os
benzodiazepínicos são agonistas dos receptores para GABA , inibindo a A
descarga excessiva das unidades motoras e, portanto, as contrações
musculares dolorosas. Baclofen, um agonista dos receptores para GABA , B
também se mostra eficaz. A imunoterapia requer corticosteroides em altas
doses (p. ex., prednisona 1 mg/kg/dia ou a dose intravenosa equivalente). Outras opções são a imunoglobulina intravenosa (IGIV), a plasmaférese e a
azatioprina.
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