Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Transtornos Paraneoplásicos Imunologicamente Mediados
Transtornos Paraneoplásicos
Imunologicamente Mediados
Os transtornos paraneoplásicos (TPN) são condições associadas a um
câncer que não podem ser explicadas pela invasão direta dos tecidos pelo
tumor ou pelas consequências de seu tratamento. Muitos transtornos
neurológicos paraneoplásicos refletem uma autoimunidade específica do
sistema nervoso. Tipicamente essas síndromes de início subagudo e de
evolução rápida precedem o reconhecimento inicial do tumor ou sua
recorrência. Alguns pacientes portadores de TPN apresentam inicialmente
síndromes típicas; outros vêm a apresentar quadros clínicos complexos,
com envolvimento simultâneo do sistema nervoso central e do periférico.
A doença neurológica paraneoplásica (TPN) imunologicamente mediada
ocorre em consequência da resposta imune do organismo a uma neoplasia.
Esta é uma interação complexa, que evolui durante o desenvolvimento do
tumor, variando com o tipo do tumor, os órgãos envolvidos e o indivíduo
em si. A autoimunidade, ou a lesão imunologicamente mediada de órgãos
específicos, é uma consequência da perda da tolerância imune. Em
combinação à desregulação dos pontos normais de ativação imune,
variando por órgão ou sistema e de acordo com alguns fatores intrínsecos
do indivíduo, as respostas imunes primárias ativas proporcionam o contexto
para lesões específicas de base imunológica.
A detecção de autoanticorpos proporciona marcadores importantes para a
identificação de diversos TPN. No contexto do câncer, eles são
consequências de respostas imunes específicas ao tumor ou marcadores
menos específicos da autoimunidade, subsequentemente à desregulação dos
pontos de controle imunológico. Está tendo um reconhecimento crescente
um espectro em evolução de autoanticorpos TPN, associados a um amplo
espectro de transtornos do sistema nervoso. Sua presença, portanto, serve
principalmente como um fator de predição de uma neoplasia subjacente e
não de uma síndrome neurológica específica.
Esses autoanticorpos de TPN, disponíveis para a medida clínica,
constituem muito provavelmente um subgrupo daqueles gerados pela
resposta imune do organismo à neoplasia. Em relação à autoimunidade
neurológica associada, os anticorpos podem ou não constituir mediadores efetivos da lesão tecidual. Nos casos em que são os mediadores da doença
neurológica, esses anticorpos afortunadamente não apenas servem como
marcadores específicos para esse transtorno como podem se tornar alvos
terapêuticos. Infelizmente os autoanticorpos com frequência não são nem
necessários nem suficientes para expressar a lesão neurológica. Tipicamente
as lesões neurológicas decorrem de expressões complexas de elementos
celulares ativados, citocinas e anticorpos, em combinação a padrões
específicos de desregulação imune e de perda da tolerância.
Essa resposta imune, que ocorre durante todo o ciclo vital da neoplasia,
pode ser concebida como uma imunoedição (Schreiber, 2011). Uma
neoplasia ocorre provavelmente devido a um complexo conjunto de
variações da linha germinativa, mutações genéticas de tecidos específicos e
interações ambientais, acarretando um processo de transformação tecidual.
A senescência, a apoptose e elementos de resposta imune inata e adaptativa
podem se combinar para restaurar esse tecido à saúde, acabando finalmente
por eliminar a neoplasia. Em outros casos a transformação neoplásica
continua a evoluir, potencializando processos intrinsecamente
imunogênicos e uma variedade de elementos da resposta imune que podem
ter êxito na eliminação ou na supressão da neoplasia.
Clinicamente essas neoplasias podem não ser detectáveis, ser ocultas ou
ser detectáveis, porém em um estágio de doença inicial limitada não causar
sintomas teciduais específicos ou apenas sintomas muito limitados.
Portanto, algumas neoplasias existem em um equilíbrio indefinido com uma
resposta imune, deixando de evoluir sem qualquer esforço clínico (cirurgia,
radioterapia, quimioterapia) para suprimi-las ou removê-las. Infelizmente
uma neoplasia se mantém frequentemente em uma trajetória de mutação e
modificação genética e epigenética. Depois que se torna menos
imunogênica, modificando sua relação para com o microambiente tecidual,
ela acaba por sofrer uma imunossupressão local. Se escapar do controle
imune, o tumor pode então evoluir.
Quando uma neoplasia evolui da eliminação potencial para um
imunoequilíbrio e vem finalmente a escapar, são ativadas as respostas
imunes a antígenos específicos do tumor. Esses antígenos constituem
componentes específicos da superfície celular do tumor ou componentes
intracelulares expostos ao ambiente local após a ocorrência da apoptose em
sua evolução natural. Macrófagos teciduais locais processam esses antígenos, apresentando-os a células T citotóxicas ou a células dendríticas
teciduais migrando para linfonodos regionais, ativando assim linfócitos T e
B. O padrão de ativação imune em relação a células Th1, Th2, Th17 e
células T reguladoras (Treg), controlado pelo meio de citocinas, dita os
efeitos da resposta imune.
A expressão autoimune nesse contexto de imunoedição do câncer é
regulada adicionalmente por múltiplos pontos de controle imune. Sem se
limitar a isso, esses pontos incluem o estado das Treg regionais e
sistêmicas, os mediadores das células Th17, as células B reguladoras (B10
através da interleucina-10 [IL-10]), a ativação relativa de fatores de
transcrição STAT4 versus STAT6, a variação genética e epigenética
regulando a resposta imune e a produção de tolerância num dado indivíduo,
o estado de importantes reguladores negativos da ativação mune, como o
antígeno de linfócitos T citotóxicos 4 (CTLA-4) e de morte celular
programada 1 (PD-1) e seu ligando B7-H1 (ou PD-L1). O bloqueio de
CTLA-4, por exemplo, leva ao desenvolvimento da autoimunidade em
diversos órgãos e sistemas. A expressão da autoimunidade no sistema
nervoso está igualmente relacionada com vários outros fatores, incluindo a
regulação do acesso efetor imune através da barreira hematoencefálica ou
da barreira hematonervosa periférica, assim como a mecanismos de
apresentação de antígenos no sistema nervoso.
FIGURA 10-20
A autoimunidade neurológica paraneoplásica ocorre no contexto de uma
resposta imune em evolução a uma neoplasia em desenvolvimento, é expressa por uma variedade complexa de efetores imunes e depende do
estado de inúmeros reguladores da ativação imune e de lesões. Por
conseguinte, esses transtornos têm atributos específicos, dos quais não é o
menor sua frequente associação a um painel identificável de autoanticorpos,
predizendo potencialmente a presença de um câncer específico em um
estágio limitado e servindo possivelmente como um alvo terapêutico.
A evolução de nosso conhecimento da autoimunidade paraneoplásica
começou por descrições de síndromes específicas associadas a cânceres
específicos e a identificação subsequente de autoanticorpos individuais. O
autoanticorpo antinuclear neuronal tipo 1 (ANNA-1), também designado
como anti-Hu, foi relatado inicialmente em pacientes apresentando
neuronopatias sensitivas relacionadas com o câncer de pequenas células do
pulmão (CPCP). O autoanticorpo ao citoplasma de células de Purkinje tipo
1 (PCA-1), também designado como anti-Yo, foi reconhecido pela primeira
vez em uma mulher apresentando ataxia cerebelar e um carcinoma
ovariano. O ANNA-2 (também designado como anti-Ri) foi relatado
inicialmente em mulheres apresentando opsoclonias/mioclonias
relacionadas com o carcinoma de mama. O anticorpo antianfifisina foi
relatado pela primeira vez em mulheres apresentando a síndrome do
“homem rígido” em relação a um carcinoma de mama.
Em contraste, muitos autoanticorpos paraneoplásicos se associam a um
quadro clínico inicial neurológico multifocal variável, envolvendo
múltiplos níveis do neuroeixo em muitos pacientes. Além disso, os padrões
de envolvimento variam significativamente de um paciente a outro apesar
da presença do mesmo autoanticorpo ou do mesmo perfil de autoanticorpos.
Ao se tabular os padrões de disfunção do sistema nervoso por
autoanticorpos associados relatados, torna-se evidente que, embora
determinados anticorpos se associem a quadros clínicos iniciais
sindrômicos específicos, esses quadros clínicos não se associam de forma
específica ao autoanticorpo e nem a expressão de autoanticorpos se associa
especificamente ao nível de acometimento do sistema nervoso. Entretanto,
ao se tabular autoanticorpos específicos pelo valor preditivo na
identificação de neoplasias subjacentes, o anticorpo ou o padrão de
anticorpos prediz basicamente o câncer e não transtornos neurológicos
específicos. Torna-se mais fácil compreender a complexidade e a
heterogeneidade da autoimunidade neurológica em pacientes determinados apresentando condições malignas específicas quando se sabe que a resposta
imune a um tumor é muito complexa e que a expressão da autoimunidade
está relacionada com a desregulação da função imune em um número
qualquer de pontos de controle em potencial.
Os cânceres associados a transtornos neurológicos paraneoplásicos são
com grande frequência clinicamente assintomáticos e por si sós indefinidos,
até que o aparecimento da síndrome clínica específica dita uma avaliação
para essa condição e essa avaliação pode nem sempre levar inicialmente a
um diagnóstico. Por vezes o câncer permanece não identificado meses a
anos após o aparecimento da síndrome neurológica paraneoplásica. Um
paradigma diagnóstico levando a um diagnóstico potencialmente específico
vem a emergir ao se considerar conjuntamente a concepção atual da
fisiopatologia da autoimunidade relacionada com o câncer, o
reconhecimento dos autoanticorpos como marcadores de uma complexa
resposta imunizante em evolução e o fato de se saber que esses anticorpos
são marcadores da resposta imune a um câncer específico e não de uma
síndrome neurológica específica. O transtorno neurológico específico leva a
uma avaliação que inclui um meio para se localizar a doença e se afastar
outras doenças que tenham manifestações clínicas iniciais semelhantes. A
suspeita da autoimunidade neurológica leva ao teste de um painel de
autoanticorpos paraneoplásicos conhecidos e à pesquisa de um câncer
subjacente apropriado à idade, ao sexo e a fatores de risco do paciente como
o uso excessivo de tabaco. Alguns anticorpos indicam investigações quanto
a cânceres específicos ou, quando não revelam nada digno de nota após
uma pesquisa apropriadamente exaustiva, uma necessidade de vigilância
por um período mais longo. A necessidade da imunoterapia é ditada pela
gravidade do transtorno neurológico subjacente, pelos planos para o
tratamento do tumor primário e pela experiência anterior com a resposta a
abordagens imunoterapêuticas específicas a condições conhecidas. Há
sempre o risco intrínseco e paradoxal de que iniciar-se a terapia
imunomoduladora pode suprimir a capacidade corporal de combater o
câncer, possibilitando que ele apareça mais cedo do que poderia acontecer e
bloqueando essa intervenção terapêutica.
FIGURA 10-21