Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Transtorno Depressivo Maior
FIGURA 4-2
Transtorno Depressivo Maior
O transtorno depressivo maior (TDM) é um transtorno do humor
caracterizado pela ocorrência de um ou mais episódios depressivos maiores durante a vida. Para diagnosticar um episódio depressivo maior, é preciso
que cinco (ou mais) dos seguintes nove sintomas estejam presentes todos os
dias ou quase todo dia durante o mesmo período de duas semanas e
representarem uma mudança em relação a um nível anterior de
funcionamento. Pelo menos um sintoma deve ser (1) humor deprimido ou
(2) anedonia (diminuição marcante do interesse ou do prazer em todas, ou
quase todas, as atividades). Os outros sete critérios são (3) aumento ou
diminuição significante no apetite ou no peso, (4) insônia ou hipersonia, (5)
retardo ou agitação psicomotora, (6) fadiga ou perda de energia, (7)
sentimentos de desvalia ou culpa excessiva ou indevida, (8) má
concentração ou dificuldade para tomar decisões e (9) pensamentos
recorrentes de morte, ideação suicida, ou uma tentativa de suicídio. É
preciso que esses sintomas causem sofrimento clinicamente significante ou
comprometam as áreas social, ocupacional ou outras áreas importantes do
funcionamento e que não se devam aos efeitos fisiológicos diretos de uma
substância (p. ex., uma droga de uso abusivo, uma medicação) ou a uma
condição médica geral (p. ex., hipotiroidismo).
Os subtipos de depressão podem ser definidos pela presença de aspectos
psicóticos (delírios, alucinações), catatonia (distúrbios motores, como
imobilidade e agitação, movimentos estereotipados, mutismo), melancolia
(perda de peso, insônia, piora do estado pela manhã) ou atipismo
(hipersonia, hiperfagia), ou início de depressão no pós-parto.
Em estudos epidemiológicos, a relevância de TDM em 12 meses e
vitalícia era de, respectivamente, 5% a 7% e 13% a 18%, e a prevalência
não parece se dever predominantemente a etnia ou geografia (região do país
ou contextos urbanos). Em um recente levantamento epidemiológico nos
EUA, características como gênero feminino; origem indígena americana;
estado civil viúvo(a), separado(a) ou divorciado(a); estar desempregado, ou
incapacitado, ou ter baixa renda estavam significativamente associadas a
taxas mais elevadas de TDM. A média de idade de manifestação do TDM é
no começo dos 30 anos. As chances de manifestação de TDM na infância
são relativamente baixas, aumentam acentuadamente entre 12 e 16 anos de
idade e continuam a aumentar, embora mais gradualmente, até o começo
dos 40 anos. O diagnóstico de TDM está associado à presença de um ou
mais transtornos psiquiátricos durante a vida em quase 75% dos casos, incluindo transtornos de ansiedade (60%), transtornos por uso de
substâncias (25%) e transtornos do controle de impulsos (30%).
A base neurológica e a fisiopatologia do TDM continuam a ser
enigmáticas. É provável que tal obscuridade se deva à heterogenicidade do
TDM, que pode representar um grupo de transtornos com diversas
patologias subjacentes, nas quais tanto fatores genéticos quanto ambientais
têm uma influência. Estudos investigaram transtornos em vários
neurotransmissores (serotonina [5-HT, i.e., 5-hidroxitriptamina],
norepinefrina [NE] e dopamina e, mais recentemente, glutamato); em
mecanismos neuroendócrinos e neuroimunes, em particular o eixo
hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal envolvido na resposta ao estresse; e
em fatores neurotróficos que regulam a plasticidade cerebral. É importante
enfatizar que neurotransmissores e hormônios estão integrados em um
circuito anatômico e funcional que interage em diversos níveis. Estudos de
imagem e de exame post-mortem sugerem que pacientes com TDM
apresentam alterações moleculares e celulares estruturais sutis, dentro de
uma rede neural complexa envolvendo o córtex pré-frontal, o córtex do
cíngulo subgenual, o hipocampo e a amígdala.
A genética do TDM é complexa e multifatorial; esse transtorno ocorre
com frequência em famílias, tendo uma hereditariedade estimada de
aproximadamente 40%. Por meio de estudos de acoplamento, de associação
e genômicos, vários genes e regiões candidatos do genoma foram
identificados e podem contribuir ao TDM; entretanto, esses achados não são
consistentes em estudos de variáveis. É provável que cada gene individual
contribua apenas para uma proporção muito pequena da variância,
interagindo com fatores ambientais.
As opções de tratamento inicial do TDM são influenciadas por uma série
de fatores, incluindo gravidade dos sintomas, co-ocorrência de condições
médicas e psiquiátricas, fatores de estresse psicossociais e a preferência do
paciente. Medicações antidepressivas incluem inibidores seletivos da
recaptação de serotonina (ISRSs), geralmente usados como uma primeira
escolha, inibidores da recaptação de serotonina-norepinefrina (IRSNs),
antidepressivos tricíclicos (TGAs), inibidores da monoaminoxidase
(IMAOs) e outros, incluindo bupropiona, nefazodona, trazodona e
mirtazapina. A escolha por um antidepressivo se baseia no perfil de efeitos colaterais, tolerabilidade, segurança e história de resposta anterior ao
tratamento.
Depois de uma fase inicial de tratamento farmacológico de 2 a 3 meses
voltada para conseguir a remissão completa dos sintomas, a farmacoterapia
é tipicamente mantida por aproximadamente 4 a 9 meses para prevenir a
recidiva precoce. A psicoterapia, sozinha ou aliada a medicações, também
pode ser considerada como tratamento inicial para pacientes com TDM leve
a moderado. A terapia eletroconvulsivante (TEC) tem um grande potencial
de sucesso como opção de tratamento para pacientes mais gravemente
doentes, que apresentem aspectos psicóticos ou catatonia ou para os que se
encontram em estados agudamente suicidas.