Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Vias Cerebelovestibulares
A parte rostral e a parte dorsomedial do núcleo denteado (o
paleodenteado) fazem projeção à lâmina dorsal e à curva da oliva principal.
A parte ventral e a parte caudal do núcleo denteado (o neodenteado) fazem
projeção à lâmina ventral da oliva principal.
Os destinos complexos e variados das projeções dos NCPs e dos núcleos
vestibulares ressaltam o papel do cerebelo em múltiplos domínios da função
neurológica. Lesões dessas diferentes vias produzem uma grande variedade
de alterações, motoras e de outros tipos. Os danos aos NCPs superpostos à
disfunção cortical cerebelar parecem ter consequências adversas sobre a
recuperação em um período mais longo, conforme exemplificado em
pacientes apresentando um acidente vascular ou um tumor cerebelar.
FIGURA 8-11
Vias Cerebelovestibulares
O sistema vestibular está intimamente relacionado com o lóbulo do verme
IX (úvula), com as partes do verme e hemisférica do lóbulo X (nódulo e
flóculo, respectivamente) e com o lóbulo do verme I/II (língula) — regiões
filogeneticamente antigas, que são por isso designadas tanto como
arquicerebelo quanto como vestibulocerebelo. O sistema vestibular também está relacionado com o paleocerebelo através de suas conexões ao lobo
anterior do verme e ao núcleo do fastígio.
Projeções vestibulocerebelares
São cinco os órgãos terminais vestibulares; as cristas nos três canais
semicirculares em orientação ortogonal detectam movimentos no sentido de
rotação angular no plano horizontal, no arremesso e na rolagem e as
máculas nos dois otólitos captam o efeito da aceleração linear da gravidade
durante a rolagem-inclinação (utrículo) e o arremesso (sáculo).
Os aferentes vestibulares desses órgãos terminais se combinam no nervo
vestibular. Um ramo termina no córtex cerebelar ipsilateral, levando
profusos aferentes vestibulares primários dos otólitos ao lóbulo IX do
verme e dos canais semicirculares ao lóbulo X do verme. O outro ramo
termina com graus variáveis de intensidade em diferentes sub-regiões de
todos os quatro núcleos vestibulares: medial, lateral, superior e inferior.
Com exceção da parte posterior do núcleo vestibular lateral (núcleo de
Deiters), esses núcleos enviam aferentes vestibulares colinérgicos
secundários bilateralmente às regiões do verme e do hemisfério dos lóbulos
IX e X e ao verme anterior. Juntamente com o núcleo peri-hipoglossal, eles
fazem projeção também ao núcleo do fastígio como colaterais de fibras
vestibulocorticais. Os axônios de ambas as vias terminam como fibras
musgosas de projeção difusa em glomérulos de células granulares no córtex
cerebelar. Aferentes vestibulares terciários chegam aos lóbulos IX e X do
verme como fibras trepadeiras derivadas da sub-região da oliva acessória
medial (subnúcleo β e coluna celular dorsomedial). Esses núcleos olivares
recebem estímulos inibitórios do núcleo parassolitário, que, por sua vez,
recebe projeções do labirinto. As terminações olivocerebelares estão
dispostas em zonas parassagitais discretas, retransmitindo informações do
canal semicircular vertical e do anterior.
Projeções vestibulocerebelares
As projeções das partes do verme e do hemisfério dos lóbulos IX e X se
dirigem a todos os núcleos vestibulares. O lobo anterior do verme faz
projeção ao núcleo do fastígio e, além disso, células de Purkinje da zona B do verme anterior fazem projeção diretamente à parte do núcleo vestibular
lateral que é desprovida de aferentes vestibulares e dá origem ao trato
vestibuloespinal lateral. As fortes projeções em arranjo topográfico aos
núcleos vestibulares também derivam do núcleo do fastígio. O núcleo do
fastígio rostral, ligado ao verme anterior receptor espinal, faz projeção aos
núcleos medial, superior e peri-hipoglosso. A região caudoventral do núcleo
do fastígio, dedicada ao controle oculomotor, faz projeção ao núcleo
vestibular inferior e à parte do núcleo vestibular lateral que recebe
estímulos corticais da zona B. As projeções da parte rostral do núcleo do
fastígio são ipsilaterais, enquanto fibras do núcleo do fastígio caudal
cruzam no feixe uncinado de Russell para excitar neurônios vestibulares
contralaterais. Assim, as células de Purkinje do verme cerebelar podem
deprimir a atividade de neurônios nos núcleos vestibulares seja por inibição
direta seja por inibir a descarga de neurônios no núcleo fastigial,
diminuindo assim a atividade excitatória que chega aos neurônios
vestibulares por vias fastigiovestibulares, um exemplo de desfacilitação.
Considerações funcionais
O sistema vestibular tem importância crítica para o controle dos
movimentos oculares com vistas à orientação no espaço intrapessoal e no
extrapessoal e para o controle da musculatura axial, essencial para o
equilíbrio. As conexões vestibulocerebelares fornecem ao cerebelo um
mapa topográfico do espaço, servindo de substrato anatômico para a
modulação dos reflexos posturais evocados pela estimulação vestibular e
optocinética. O vestibulocerebelo prediz os ambientes espaciais e,
modulando a amplitude dos movimentos produzidos por reflexos como o
reflexo vestíbulo-ocular, compensa os movimentos da cabeça para guiar de
maneira ótima o comportamento. A relevância clínica desses circuitos
vestibulocerebelares é exemplificada pela perda de alterações plásticas no
reflexo vestíbulo-ocular horizontal em indivíduos com danos ao lóbulo X
(flóculo) e pela incapacidade de se recordar ajustes posturais a uma posição
da cabeça no espaço mantida anteriormente após a ocorrência de danos aos
lóbulos IX e X. A lesão aguda ao sistema vestibular produz náuseas,
vômitos e vertigens violentas. O paleocerebelo recebe um nível modesto de
estimulação vestibular aferente, mas recebe estímulos extensos dos tratos espinocerebelares. A ação principal do paleocerebelo sobre o sistema
vestibular consiste em regular a atividade vestibular relativamente às
informações proprioceptivas e exteroceptivas referentes à cabeça, ao tronco
e às extremidades. Isso é criticamente importante para a postura, o
equilíbrio estático e o equilíbrio dinâmico.
FIGURA 8-12