Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Exame Motor Cerebelar
FIGURA 8-14
Exame Motor Cerebelar
A incoordenação cerebelar se caracteriza pelo distúrbio da frequência, do
ritmo e da força dos movimentos. Isso se manifesta por alteração do controle oculomotor; da articulação (disartria); da postura, do equilíbrio e
da marcha (ataxia); e do movimento dos membros (dismetria). A gravidade
do envolvimento pode ser graduada usando-se escalas para a avaliação de
ataxia.
Movimentos Oculares
As lesões cerebelares produzem uma fixação ocular instável na posição
primária, oscilações microsacádicas, abalos de onda quadrada, flutter
ocular, oscilações oculares horizontais e opsoclonia. Os movimentos
oculares de acompanhamento evidenciam intrusões sacádicas — arrancos
ao se acompanhar um alvo em movimento. O olhar volitivo (sácades) se
mostra hipermétrico (passar do ponto) ou hipométrico (ficar aquém do
ponto/compensar). O nistagmo evocado pelo olhar com batidas direcionais
apresenta uma fase rápida na direção do olhar excêntrico e uma fase lenta
na direção oposta. O nistagmo de batidas descendentes no olhar primário
indica lesões na junção cervicobulbar, um nistagmo de batidas ascendentes
indica lesões na linha média ou toxicidade de fármacos.
O reflexo vestíbulo-ocular (RVO) mantém a estabilização na retina de
imagens visualizadas durante o movimento da cabeça. Os olhos do paciente
não devem se mover acompanhando a cabeça na rotação passiva do tronco
e da cabeça enquanto ele focaliza sua própria mão. O não cancelamento do
RVO por lesões do vestibulocerebelo se manifesta por movimentos oculares
sacádicos.
A lentificação dos movimentos oculares ocasionando oftalmoplegia
ocorre nas ataxias espinocerebelares e nos transtornos mitocondriais. Os
pacientes que apresentam apraxia oculomotora não conseguem dirigir o
olhar voluntariamente e efetuar impulsos da cabeça para iniciar esses
movimentos.
Fala/Deglutição
A disartria cerebelar é descrita como “fala escandida.” As sílabas são mal
articuladas, a cadência é mais lenta e irregular e as consoantes bucais,
palatinas e linguais rápidas ou alternadas são degradadas. A disartria é
complicada por um controle deficiente do volume. A respiração atáxica afeta a qualidade da fala. A alteração do controle dos músculos da
deglutição ocasiona disfagia e um risco de aspiração.
Controle Motor
O tônus em repouso nas patologias puramente cerebelares se mostra
geralmente diminuído, ou hipotônico. Pode haver uma dificuldade espástica
ou uma espasticidade franca na presença concomitante de uma patologia
medular espinal em alguns transtornos atáxicos hereditários. As lesões
cerebelares não produzem fraqueza, mas pode haver a lentificação do início
e da geração de força. A ataxia do tronco ocorre em lesões da linha média,
incluindo a titubeação, ou seja, a oscilação da cabeça e do tronco. O
paciente tem uma postura estática de base mais ampla e é incapaz de ficar
de pé com os pés em tandem (um pé atrás do outro) ou em um pé só. A
marcha atáxica cerebelar é cambaleante, desigual, irregular e oscilando de
um lado para o outro. As lesões unilaterais causam um cambalear para o
lado afetado.
Coordenação de Braços e Pernas
A dismetria (do grego dis e metron [medir]) é o distúrbio da capacidade de
regular, julgar e controlar o comportamento, tanto no domínio motor quanto
no cognitivo (Fig. 8-15). A síndrome motora cerebelar causa dificuldade na
avaliação de distâncias, da trajetória de movimentos intencionais e da força
necessária para os movimentos. São particularmente afetados os
movimentos compostos (envolvendo mais de uma articulação). A orientação
visual melhora minimamente o resultado final.
O tremor postural é avaliado com os braços estendidos na posição
pronada. O rebote é testado com o examinador deslocando o braço para
baixo, observando quanto à ultrapassagem do alvo acima do ponto de
partida. As características da dismetria incluem o tremor no ponto final,
ultrapassar os alvos visados (hipermetria) ou ficar aquém deles (hipometria)
e a oscilação no cotovelo. Essas alterações são avaliadas pelo teste dedo-
nariz; o paciente leva o dedo indicador a seu nariz e depois ao dedo do
examinador mantido firme com o braço estendido. O tremor aumenta com a
proximidade do alvo; a direção do tremor é geralmente perpendicular à
direção do movimento. O teste de perseguição/espelho do dedo mede o passar do ponto/ficar aquém dele. O paciente aponta para o dedo do
examinador mantido com o braço estendido, acompanhando seus
movimentos sequenciais horizontal e verticalmente. A disdiadococinesia é
a degradação dos movimentos alternados rápidos, testada pela
pronação/supinação do antebraço. Bater o dedo indicado na prega do
polegar avalia o controle motor fino. A disritmia é uma incapacidade de
gerar ritmos normais, avaliada batendo-se rapidamente a mão em uma
superfície ou o calcanhar no solo.
O teste do calcanhar ao joelho, realizado com o paciente em decúbito
dorsal, avalia a coordenação das pernas. O calcanhar é colocado sobre o
joelho oposto e movido canela abaixo. Em pacientes presos a uma cadeira
de rodas o calcanhar é levado até o joelho da perna oposta, mantida paralela
ao solo. A ultrapassagem do ponto proximal ocorre quando o calcanhar é
colocado sobre o joelho e há tremor enquanto o calcanhar é mantido nessa
posição. Lentificação, abalos espasmódicos ou movimentos de um lado para
o outro são notados enquanto o calcanhar se move perna abaixo. No teste de
desenho de um círculo, o paciente em decúbito dorsal traça um círculo no
ar; a decomposição se manifesta por movimentos irregulares ou caóticos.
O tremor cerebelar é de grande amplitude, de 2 a 3 Hz e pode envolver
muitas partes do corpo. O tremor rubral, por lesões do núcleo rubro e de
suas conexões, envolve múltiplas articulações, muda de direção e é com
frequência rotatório. O tremor palatino é lento e semirrítmico, decorrendo
de lesões do triângulo mioclônico de Guillain-Mollaret dessa rede neuronal
do tronco encefálico/cerebelo (do núcleo denteado ao núcleo rubro e ao
núcleo olivar inferior).