Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Transmissão sináptica química

FIGURA 2-15

 

Transmissão sináptica química A transmissão sináptica química ocorre em três etapas: (1) a liberação da

substância transmissora do botão em resposta à chegada de um potencial de

ação, (2) a alteração das permeabilidades iônicas da membrana pós-

sináptica causada pelo transmissor, e (3) a remoção do transmissor da fenda

sináptica. Dependendo do tipo das alterações da permeabilidade produzidas

na segunda etapa, a ativação sináptica pode ter um efeito excitatório ou

inibitório sobre a célula pós-sináptica.

As substâncias transmissoras sinápticas estão concentradas em vesículas

sinápticas dentro do botão. Embora o exato mecanismo de sua liberação

seja desconhecido, parece que a substância transmissora é liberada em

pacotes, ou quanta, de 1.000 a 10.000 moléculas de uma vez, e a

probabilidade de liberação desses quanta aumenta com o grau de

despolarização da membrana terminal. Assim, a intensa despolarização

causada por um potencial de ação aciona a liberação quase simultânea de

um grande número de quanta. Uma hipótese razoável para explicar a

natureza quântica do transmissor é que os conteúdos de uma vesícula inteira

são descarregados de uma vez na fenda sináptica, talvez pelo processo de

exocitose.

Após sua liberação, as moléculas do transmissor se difundem através da

fenda sináptica e se combinam com as moléculas receptoras específicas na

membrana pós-sináptica. Essa combinação dá origem a uma alteração na

permeabilidade iônica da membrana pós-sináptica e resulta em um fluxo de

íons pelos gradientes de potencial eletroquímico. Esse fluxo iônico não é

sincrônico com a chegada do potencial de ação no terminal, mas começa

depois de uma demora sináptica de 0,3 a 0,5 ms, que é o tempo exigido

para a liberação e difusão do transmissor e para se completarem as reações,

dentro da membrana pós-sináptica, que alteram a permeabilidade da

membrana.

A direção do fluxo de corrente produzido pela ação do transmissor

depende de quais permeabilidades iônicas são alteradas. Em uma sinapse

excitatória, o transmissor causa o aumento da permeabilidade da membrana

pós-sináptica aos íons sódio (Na+) e aos íons potássio (K+). Devido aos seus

respectivos gradientes de concentração através da membrana neuronal (Fig.

2-15), o Na+ tende a se deslocar para dentro da célula pós-sináptica e K+

para fora. Mas o potencial negativo do citoplasma neuronal auxilia no fluxo

interno de íons positivos e retarda seu fluxo de saída para que a força eletroquímica para o influxo de Na+ exceda muito a do efluxo de K+. Assim,

o movimento iônico predominante através da membrana pós-sináptica é um

fluxo de entrada de Na+. Como se demonstrou, o fluxo de corrente

resultante causa um desvio da membrana celular pós-sináptica na direção

despolarizante. Essa alteração do potencial despolarizante, que é chamado

de potencial pós-sináptico excitatório (PPSE), aproxima a célula pós-

sináptica de seu limiar para iniciar o potencial de ação.

Em uma sinapse inibitória, a ação do transmissor causa um aumento da

permeabilidade da membrana pós-sináptica a K+ e íons cloreto (Cl-), mas

não a Na+. Como Cl- está aproximadamente em equilíbrio eletroquímico

através da membrana neuronal, o principal movimento iônico é um fluxo de

saída de K+. O fluxo de corrente resultante é em direção oposta à do fluxo

de corrente em uma sinapse excitatória, e dá origem a um desvio do

potencial de membrana celular em direção hiperpolarizante. Essa alteração

do potencial hiperpolarizante, que é chamado de potencial pós-sináptico

inibitório (PPSI), afasta-se do limiar para o início do potencial de ação. O

aumento da permeabilidade iônica da membrana pós-sináptica também

contribui para o efeito inibitório pela tendência a “encurtar” qualquer

despolarização de membrana que ocorra simultaneamente. A corrente

iônica e a resultante alteração do potencial de membrana têm diferentes

cursos de tempo porque a corrente sináptica carrega a capacitância da

membrana, que então se descarrega passivamente durante um período de 10

a 15 ms. A curta duração da corrente sináptica é a consequência da remoção

do transmissor da fenda sináptica. Essa remoção é realizada em parte por

meio de difusão passiva e em parte por mecanismos específicos que levam

à captação do transmissor pelas células circundantes ou decomposição do

transmissor por degradação enzimática.