Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I

Doença de alzheimer: distribuição da patologia

Doença de alzheimer: distribuição da

 

patologia

O diagnóstico de doença de Alzheimer é determinado na autópsia com base

na presença de suas características histopatológicas cardeais, os

emaranhados neurofibrilares e as placas amilóideas.

As placas amilóideas são abundantes no córtex encefálico dos indivíduos

com doença de Alzheimer, particularmente nas regiões parietal e frontal.

Também se observa com frequência a deposição amilóidea nas artérias

leptomeníngeas como uma angiopatia amilóidea. Estudos de autópsia e,

mais recentemente, técnicas de imagens amilóideas, revelaram que as

placas amilóideas começam a se acumular no encéfalo anos, talvez décadas,

antes do surgimento de sintomas clinicamente reconhecíveis, e são

encontradas nas regiões corticais com alta atividade metabólica, como a

rede em modo padrão (default mode) que é ativa quando um indivíduo está

em repouso e não participa de uma tarefa cognitiva específica. As regiões,

como o pré-cúneo e cingulado posterior, que possuem fortes conexões com

o hipocampo estão entre as áreas afetadas primeiro.

Os emaranhados neurofibrilares (ENF) se acumulam de modo previsível,

à medida que o indivíduo envelhece, e são um acompanhamento

onipresente do envelhecimento. O acúmulo desses ENFs começa no lobo

temporal medial (amígdala e córtex entorrinal) estendendo-se gradualmente

a todo o sistema límbico (hipocampo e córtices do cíngulo) e

posteriormente a todo o isocórtex. O padrão estereotipado de acúmulo é

usado no estagiamento patológico da doença (estagiamento de Braak). O

estagiamento patológico de DA baseia-se em um padrão hierárquico de

aparecimento dos emaranhados neurofibrilares em várias regiões. Existem

dois estágios transentorrinais “pré-sintomáticos”, nos quais os ENFs

permanecem no córtex perirrinal. No estágio III, os ENFs envolvem as

regiões límbicas e a camada II do córtex entorrinal. O estágio IV da DA é

marcado por ENFs mais extensos nas regiões límbicas, na camada IV

entorrinal e região CA1 hipocampal. Esses últimos estágios (III e IV)

correspondem clinicamente a comprometimento cognitivo leve (CCL) e não

à demência. O CCL representa um estágio intermediário entre o

envelhecimento normal e a demência. Tipicamente, os pacientes notam problemas de memória subjetiva, necessidade de fazer listas assim como

“deslizes” da memória a curto prazo; mas essas alterações não são graves o

suficiente para interferir nas atividades diárias. À medida que o estágio

patológico da DA progride, os ENFs se acumulam nas regiões

inferotemporal, retrosplenial e, eventualmente, no córtex de associação,

enquanto o córtex motor primário é poupado. Nesses estágios, as

características clínicas de DA estão presentes e incluem comprometimentos

de memória, julgamento, orientação, linguagem e tomada de decisões.

É interessante notar que algum emaranhado patológico está presente em

todos os idosos, embora os indivíduos com DA tenham maior carga de

emaranhados neurofibrilares e uma distribuição muito mais difusa em todo

o isocórtex. A região CA1 do hipocampo e o córtex entorrinal são

particularmente suscetíveis ao acúmulo tanto de placas quanto de

emaranhados nos estágios iniciais da doença. Essas regiões são importantes

para mediar a formação de memórias, e sua degeneração é responsável

pelos comprometimentos proeminentes na memória a curto prazo

observados em pacientes de DA.

Os dados bioquímicos dos pacientes com DA revelam diminuição inicial

na colina acetiltransferase e acetilcolinesterase, indicando disfunção da via

neural que utiliza acetilcolina como neurotransmissor. O número de

neurônios encontra-se reduzido no núcleo basilar (de Meynert), que possui

inervações neuronais colinérgicas na maior parte do córtex cerebral. A

degeneração seletiva dos neurônios colinérgicos mesencefálicos basais

resulta em um déficit colinérgico que contribui para os sintomas da DA.

Esses achados levaram ao desenvolvimento dos primeiros tratamentos

efetivos em melhorar os sintomas de DA, os inibidores da

acetilcolinesterase, que agem pelo aumento dos níveis cerebrais de

acetilcolina.

FIGURA 2-26