Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Delirium e Mudanças Agudas da Personalidade
Delirium e Mudanças Agudas da
Personalidade
Delirium é um estado de confusão agudo visto comumente em pacientes
com doenças clínicas, especialmente entre a população geriátrica. O
delirium abrange quatro aspectos clínicos principais, incluindo (1) uma
perturbação da consciência com prejuízo da atenção e da concentração, (2)
a perturbação se desenvolve durante um curto período (horas a dias) e com
frequência flutua em termos de gravidade, (3) uma perturbação da
percepção não relacionada com uma condição preexistente como a
demência, e (4) uma condição clínica subjacente, intoxicação ou efeito
colateral de medicação é evidente. Aproximadamente 30% dos pacientes
idosos sofrem delirium no curso da hospitalização, com taxas maiores entre
pacientes mais frágeis e nos que passam por cirurgias complexas. Na
unidade de tratamento intensivo (UTI), a prevalência de delirium fica em
torno de 70%, conforme medidas de ferramentas diagnósticas e de triagem-
padrão.
Existem múltiplos mecanismos fisiopatológicos que podem causar
delirium; não há uma via comum final que permita uma abordagem simples
ao diagnóstico ou tratamento. A base neurobiológica do delirium é,
portanto, mal entendida, e o diagnóstico se baseia em uma avaliação clínica
abrangente com uso criterioso de estudos auxiliares. Em geral, as áreas do
cérebro que governam excitação, atenção, percepção e julgamento estão
afetadas. Essas áreas incluem o sistema reticular ativador ascendente
(SRAA) subcortical e regiões corticais integradas. O SRAA serve
predominantemente a mecanismos de excitação, enquanto a função cortical
integrada é necessária para a orientação apropriada a pessoa, lugar e tempo,
bem como a funções cognitivas superiores.
Dos mecanismos patogênicos neuroquímicos do delirium, o mais bem
entendido é o sistema colinérgico. Agentes anticolinérgicos estão
comumente implicados no delirium em pacientes sadios, porém bem mais
nos idosos. Condições que podem predispor ao delirium secundário à
depleção de acetilcolina incluem hipoóxia, hipoglicemia, deficiência de
tiamina e doença de Alzheimer. Além disso, muitos fármacos comumente
usados podem precipitar delirium devido a efeitos anticolinérgicos secundários. Outros sistemas de neurotransmissores que podem precipitar
delirium incluem GABA, endorfinas, neuropeptídeos, serotonina e
norepinefrina. Outros precipitadores neuroquímicos de delirium incluem
substâncias químicas endógenas como citocinas pró-inflamatórias e fator
alfa de necrose tumoral, o que pode explicar o delirium que ocorre no
contexto de infecção/sepse, cirurgia e fraturas de quadril. A barreira
hematoencefálica fica enfraquecida pela sepse, mesmo em casos
pediátricos. Além da idade avançada, doenças preexistentes do SNC como
doença de Alzheimer, doença de Parkinson, acidente cerebrovascular etc.,
respondem por um aumento significante no risco de ocorrer delirium. Na
verdade, um delirium novo em um paciente idoso pode ser um sinal
precursor de demência previamente não reconhecida ou iminente.
A apresentação do delirium é tipicamente aguda, dura dias a horas e pode
persistir por dias a meses. Pode haver uma fase prodrômica, especialmente
em pacientes idosos, incluindo fadiga e letargia, perturbações do sono,
ansiedade e/ou depressão ou inquietação. A agudeza da manifestação
diferencia delirium de demência na maioria dos casos, embora possa ser
difícil detectar delirium em um paciente demente, especialmente no início
do curso. Além disso, a gravidade da confusão pode flutuar ao longo do dia,
tornando-se particularmente mais pronunciada com a proximidade da noite.
Inicialmente, pode haver uma mudança sutil na clareza mental, desatenção
e desorientação antes de mudanças óbvias do comportamento se instalarem.
O paciente mostra-se com frequência distraído, incapaz de manter um
curso coeso do pensamento ou da ação. Os pacientes ficam tipicamente
desorientados ao tempo. Em casos mais avançados, os pacientes podem se
tornar mais nitidamente sonolentos e letárgicos, e até mesmo embotados.
Entretanto, o oposto pode ocorrer em algumas formas de delirium, nas quais
o paciente se torna hipervigilante, irritável e agitado, como visto na
abstinência alcóolica. Podem ocorrer alucinações. Déficits cognitivos,
incluindo amnésia, afasia, agnosia e apraxia, também podem surgir. Outras
manifestações clínicas podem incluir labilidade emocional, perturbação do
ciclo do sono, agitação motora e às vezes sinais motores como asterixis,
mioclonia ou tremores de ação. No paciente idoso, a apresentação mais
comum é de um estado retraído e silencioso tão patente que pode ser
facilmente tomado por depressão.
O delirium é com frequência mal atribuído a diagnósticos psiquiátricos –
geralmente depressão e esquizofrenia catatônica no delirium hipoativo, e
transtornos da personalidade e psicose no delirium hiperativo. Um paciente
com um primeiro episódio de psicose ou mania tem uma idade típica, ou
seja, é um adulto jovem, e parece geralmente bem, não diaforético, com
rubor, perturbado, ictérico ou desajeitado. A doença psiquiátrica geralmente
NÃO é responsável por desorientação e NÃO causa sintomas motores ou
febres. Flutuações no grau de alerta mental, sinais motores variáveis e
desempenho cognitivo irregular são esperados no delirium e não significam
uma personalidade manipuladora. O uso de medicação antipsicótica pode
permitir o cuidado, uma duração mais curta do delirium e melhorar a
mortalidade, mesmo quando a causa subjacente não for psiquiátrica.
FIGURA 4-23
Doença psiquiátrica é um diagnóstico de exclusão para delirium e deve
ser confirmada com uma consulta psiquiátrica quando suspeita. Da mesma
maneira, se um paciente delirante estiver sob cuidado psiquiátrico, deve-se marcar uma consulta neurológica. Tumores encefálicos frontais, esclerose
múltipla, epilepsia e demência podem ter delírios, alucinações, mania e
agressão como sinais de manifestação. Sequências repetidas de
comportamento estranho, atitude indiferente, amnésia, comportamento
atípico para a idade, ausência de história familiar ou pregressa de doença
mental e presença de reflexos primitivos indicam mais triagem para doença
neurológica.
O uso abusivo de substâncias com muita frequência leva a diversos
quadros confusionais. O uso de substâncias ilícitas e o uso abusivo de
álcool geralmente são negados em contextos clínicos; entretanto, a ingestão
de toxinas e superdosagem de drogas, seja recreacional ou por tentativa de
suicídio, devem ser considerados em todos os casos de delirium. Álcool,
barbitúricos e benzodiazepinas acarretam síndromes de abstinência
potencialmente fatais, bem como síndromes de intoxicação. Os
antipsicóticos não são um tratamento para síndromes de abstinência. A
terapia de reposição e a titulação controlada de pacientes dependentes de
álcool, benzodiazepinas e barbitúricos podem salvar vidas.
Muito raramente, uma encefalite antirreceptor N-metil-aspartato
(NMDAR), uma encefalopatia difusa nova e significativamente
subdiagnosticada, manifesta-se essencialmente (80%) em mulheres com
uma combinação de psicose, incluindo catatonia, bem como discinesias,
déficits de memória e convulsões. Os movimentos anormais são variados,
muitas vezes incluindo acatisia oro-língua-facial, mas também coreoatetose,
distonia, crise oculogírica, rigidez e opistótono. Com frequência há uma
história de menos de duas semanas de uma doença febril prodrômica,
incluindo cefaleia e sintomas respiratórios e gastrointestinais. Essa
encefalite anti-NMDAR é um distúrbio paraneoplásico, secundário a um
teratoma ovariano subjacente, ou um distúrbio autoimune primário
ocorrendo em adultos jovens e crianças. Trata-se de uma afecção
potencialmente reversível se reconhecida e tratada precocemente com
cirurgia e/ou imunossupressão. O prognóstico depende bastante da
imunoterapia adequada e, nos casos paraneoplásicos, da remoção completa
do tumor.
Independente do caso individual, a obtenção de uma história completa,
exame e revisão do prontuário médico devem ser feitos para determinar a(s)
causa(s) subjacente(s). Convulsões e sinais focais ao exame demandam imageamento encefálico (imagem por ressonância magnética
[RM]/tomografia computadorizada [TC] e/ou eletroencefalograma [EEG])
para avaliar a presença de lesões estruturais agudas, infecção ou
inflamação. A natureza da condição médica subjacente do paciente requer
testes laboratoriais padrão, incluindo hemoculturas, bem como exame do
líquido cefalorraquidiano para demonstrar evidência de possíveis infecções
sistêmicas, distúrbio eletrolítico, depleção de volume, insuficiência renal,
uremia, tirotoxicose e outros distúrbios sistêmicos.
É preciso que o examinador considere condições permanentemente
nocivas potenciais, como deficiência de tiamina (encefalopatia de
Wernickle), encefalite herpética ou encefalite NMDAR, todas elas
necessitando de terapia emergencial. Uma revisão cuidadosa de medicações
e triagens toxicológicas é essencial. A toxicidade medicamentosa responde
por 30% dos casos de delirium; medicações de venda sem prescrição, como
difenidramina, demandam atenção, e outras síndromes medicamentosas
também. Quando nenhum mecanismo for identificado como causador da
mudança de personalidade aguda, particularmente em mulheres jovens,
estudos de imageamento abdominal/pélvico, bem como de anticorpos anti-
NMDAR, devem ser avaliados ou feita a punção do líquido
cefalorraquidiano para excluir encefalite anti-NMDAR.
Medicações antipsicóticas podem precipitar a síndrome neuroléptica
maligna, uma tríade de confusão aguda, rigidez e hipertermia. Medicações
antipsicóticas, muitas vezes úteis para controlar o comportamento de um
paciente agitado, podem também causar sua própria síndrome
comportamental de inquietação motora grave, ou acatisia, geralmente
acompanhada por hipertonia e câimbras intensas. Combinações de
antidepressivos, medicações para migrânea e alguns antibióticos podem
desencadear a síndrome serotoninérgica, causando uma tríade de confusão,
instabilidaade autonômica e espasmos clônicos. O lítio, em conjunto com
outros agentes terapêuticos de janela estreita, como os digitálicos, pode
causar delirium até mesmo com níveis na faixa terapêutica recomendada. O
toxicidade por lítio geralmente se manifesta com vômitos ou diarreia,
tremores intensos e ataxia, enquanto a toxicidade por digitálicos geralmente
causa paranoia e alucinações. Níveis séricos de qualquer medicação que o
paciente esteja usando devem ser checados quando disponíveis, e todas as
medicações não essenciais devem ser suspensas.
O tratamento do delirium requer a identificação do problema clínico
subjacente, o uso criterioso de medicação psicoativa para manter a
segurança do paciente e de terceiros em relação ao comportamento
aberrante, e a manutenção de um ambiente tranquilo. A presença de
delirium é uma fonte bem-estabelecida de maior morbidade e mortalidade –
e uma síndrome com necessidade urgente de diagnóstico.