Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Subdivisões e Vias Aferentes do Cerebelo
FIGURA 8-8
Subdivisões e Vias Aferentes do Cerebelo
O cerebelo é dividido em três lobos: anterior, posterior e floculonodular
(Fig. 8-2). Ele é também divido em três sub-regiões mediolaterais com base na filogenia e na função. O arquicerebelo, ou vestibulocerebelo, inclui as
partes do verme e do hemisfério do lóbulo IX (úvula) e o lóbulo I/II
(língula); ele está ligado aos núcleos vestibulares e está relacionado com os
movimentos oculares e o equilíbrio. O paleocerebelo, ou espinocerebelo,
nos lóbulos vérmicos e paravérmicos III a VI e no lóbulo VIII, recebe
aferentes cutâneos e cinestésicos da medula espinal, do tronco encefálico e
dos hemisférios encefálicos. O verme anterior está ligado ao núcleo do
fastígio rostral, influencia o sistema motor medial através de projeções
reticuloespinais e vestibuloespinais ao tronco encefálico e controla os
músculos do tronco e do cíngulo dos membros, possibilitando o equilíbrio e
a marcha. As áreas paravérmicas estão ligadas ao núcleo interpósito, à
parte posterior do núcleo denteado, ao núcleo rubro e ao córtex motor
primário, influenciando sistemas motores laterais descendentes e
controlando os movimentos distais dos membros. O neocerebelo
(pontocerebelo) inclui os lóbulos VI e VII no verme e nos hemisférios. Ele
recebe aferentes do córtex encefálico através da ponte. Os hemisférios
cerebelares laterais fazem projeção através do núcleo denteado ventral ao
tálamo e a áreas associativas encefálicas; o verme posterior está ligado a
áreas límbicas através do núcleo do fastígio caudal. O neocerebelo parece
estar envolvido na cognição e na emoção.
O conhecimento das conexões cerebelares a estruturas extracerebelares é
criticamente importante para a compreensão dos diversos papéis do
cerebelo e das consequências das lesões cerebelares. Os aferentes ao
cerebelo são transmitidos principalmente por fibras musgosas e por fibras
trepadeiras, que estão organizadas de maneira fundamentalmente diferente
(Figs. 8-6 e 8-7).
Vias de fibras musgosas
Vias Espinocerebelares
As aferências provenientes da medula espinal terminam de forma
somatotópica na representação sensitivo-motora primária nos lóbulos III a
V e na representação sensitivo-motora secundária no lóbulo VIII, com
estímulos colaterais aos núcleos cerebelares profundos (NCP). O tronco e
os membros inferiores são servidos pelo trato espinocerebelar dorsal e o ventral e a cabeça, o pescoço e os membros superiores pelo trato
cuneocerebelar, o trato espinocerebelar rostral e o trato cervical central.
Todos esses tratos são não cruzados, subindo pela medula espinal
ipsilateral, exceto trato espinocerebelar central (anterior) (TECV), que
decussa e sobe pelo lado contralateral.
O trato espinocerebelar dorsal (posterior) (TECD) e o trato
cuneocerebelar (TCC) transmitem informações proprioceptivas e
exteroceptivas análogas dos membros dianteiros e dos membros traseiros,
respectivamente. Ambos chegam ao cerebelo pelo pedúnculo cerebelar
inferior (PCI). As informações proprioceptivas são provenientes de (1)
aferentes de fusos musculares que transmitem sinais do comprimento dos
músculos (fibras dos grupos Ia e II) e (2) órgãos tendíneos de Golgi que
transmitem sinais da tensão muscular (fibras do grupo Ib). Os neurônios do
TECD ou do TCC transmitem informações relativas a músculos
intimamente relacionados; alguns deles retransmitem informações de
receptores articulares. Os sinais exteroceptivos levam até o cerebelo
aferentes cutâneos que se originam de receptores de tato e de movimento de
pelos em pequenas áreas da pele. O TECD no funículo posterolateral
transmite aferentes proprioceptivos e exteroceptivos do tronco e das pernas,
com origem na lâmina VII do corno dorsal nos segmentos C8 a L3 da
medula espinal. Ele termina em áreas de projeção dos membros dianteiros
na parte intermediária do lobo anterior e do lóbulo VIII ipsilaterais. O TCC
sobe a partir da medula oblonga, transmitindo aferentes proprioceptivos dos
braços, originando-se do núcleo cuneiforme externo, e fibras exteroceptivas
do núcleo cuneiforme principal.
O trato espinocerebelar ventral (anterior) e o trato espinocerebelar
rostral (TECR) transmitem informações ao cerebelo relativas a repertórios
motores complexos. Os aferentes se originam (1) de interneurônios em
centros motores espinais que controlam os membros dianteiros (TECV) os
membros traseiros (TECR), (2) de aferentes musculares do grupo I de
órgãos tendíneos de Golgi em grupos de músculos envolvidos em
movimentos sincronizados e (3) de vias multissinápticas espinais ativadas
por aferentes cutâneos e por aferentes musculares de limiar elevado. O
TECV se origina de células da borda espinal, principalmente na lâmina VII
de Rexed, no setor posterolateral do corno anterior da medula espinal
lombossacra. Ele decussa próximo aos corpos celulares, sobe pelo funículo anterolateral contralateral e entra no cerebelo pelo pedúnculo cerebelar
superior (PCS). Muitas de suas fibras cruzam para o outro lado, portanto
com um duplo cruzamento. Ele termina em zonas longitudinais nas
representações dos membros dianteiros no lobo anterior e, em escala menor,
no lóbulo VIII. O TECR se origina de neurônios na base do corno espinal
posterior na lâmina VII de Rexed aos níveis C4 a C8 da medula espinal,
sobe pelo funículo posterolateral ipsilateral e entra no cerebelo tanto pelo
PCI quanto pelo PCS, terminando bilateralmente em representações
sensitivo-motoras primárias e secundárias dos membros dianteiros.
FIGURA 8-9
O sistema corticoespinal facilita efeitos excitatórios ou inibitórios de
fibras aferentes cutâneas e musculares no TECV e no TECR, enquanto o
sistema reticuloespinal inibe esses efeitos. A via rubroespinal e a via
proprioespinal produzem excitação independentemente dos aferentes
espinais.
As aferências de C1 a C4 são transmitidos pelo trato cervical central
(TCC). Esse trato se origina do núcleo cervical central, na camada VII de
Rexed, que integra informações relacionadas com a rotação da cabeça,
como estímulos aferentes do grupo I de músculos do pescoço e estímulos
vestibulares dos canais semicirculares. O TCC leva informações através do
PCI e do PCS até o lobo anterior e o lóbulo VIII.
As projeções trigeminocerebelares do núcleo sensitivo principal do
trigêmeo seguem pelo PCI até as representações da face na parte caudal do
lóbulo V e no lóbulo VI; em contraste, as projeções cerebelares do núcleo
mesencefálico do trigêmeo seguem pelo PCS. O trato tectocerebelar,
proveniente do colículo superior e do colículo inferior, faz projeção
bilateralmente ao lóbulo VIII e ao IX (o paraflóculo posterior, ou dorsal, e a
úvula) e a área visual do verme no lóbulo VII.
As projeções reticulocerebelares agem sobre amplas áreas do cerebelo e
dos NCPs. Elas se originam do núcleo reticular lateral (NRL) e do núcleo
reticular paramediano na medula oblonga, do núcleo reticular do
tegumento pontino (NRTP) na ponte e da formação reticular medial
(magnocelular). Projeções de feedback se originam dos NCPs,
especialmente o núcleo do fastígio.
O NRTP recebe aferentes corticais encefálicos da região sensitivo-
motora, do lobo frontal e da região parietal superior e aferentes subcorticais
de núcleos vestibulares e de núcleos relacionados com a visão ou com os
movimentos oculares, incluindo o colículo superior. Os estímulos de
estruturas relacionadas com o sistema límbico incluem o giro do cíngulo e
os corpos mamilares. As fibras do NRTP chegam ao cerebelo pelo
pedúnculo cerebelar médio e se projetam amplamente, com um foco nos
lóbulos do verme VI e VII e no lóbulo X. O NRTP está envolvido na
vergência e na acomodação ocular e na orientação visual dos movimentos
oculares. O retransmissor límbico fornece ao cerebelo informações
emocionalmente relevantes (Fig. 8-15).
O núcleo reticular lateral (NRL) recebe estímulos da medula espinal, do
núcleo vestibular lateral, do núcleo rubro, do colículo superior e do córtex
encefálico. Suas fibras entram no cerebelo pelo PCI; muitas delas cruzam
para o lado contralateral, enviando colaterais aos NCPs e terminando em
múltiplas zonas parassagitais. As conexões do NRL estão dispostas
somatotopicamente: a região parvicelular ventrolateral transmite aferentes da medula espinal lombar a representações primárias e secundárias dos
membros traseiros bilateralmente; a parte magnocelular dorsomedial
transmite estímulos da medula espinal cervical às regiões cerebelares dos
membros dianteiros. Os neurônios do NRL se assemelham àqueles do
TECV ou do TECR, mas carecem de estimulação de músculos do grupo I,
são excitados por fibras vestibuloespinais descendentes e respondem à
estimulação de áreas maiores da superfície corporal.
O núcleo reticular paramediano na medula oblonga recebe aferentes dos
núcleos vestibulares e das regiões somatossensitivas do córtex encefálico e
se projeta através do PCI até o verme.
Núcleos Peri-hipoglossais
Esses núcleos bulbares, relacionados com o controle dos músculos
extraoculares, recebem informações do olhar vertical e do olhar horizontal
de núcleos mesencefálicos e pontinos e da região da face do córtex
sensitivo-motor. Eles têm interconexões recíprocas com componentes
vérmicos e hemisféricos do lóbulo X do cerebelo (nódulo e flóculo) e com o
núcleo do fastígio e o núcleo interpósito.
Trato Arqueado Cerebelar
As fibras do núcleo arqueado na medula oblonga ventral formam as estrias
medulares, visíveis na superfície posterior da medula oblonga. Elas entram
no cerebelo pelo PCI e terminam no lóbulo X do hemisfério ipsilateral. O
núcleo arqueado está envolvido na quimiossensibilidade reflexa central e na
atividade cardiorrespiratória.
Vias Vestibulocerebelares
A estimulação vestibular ao cerebelo se origina de fibras aferentes
vestibulares primárias e de projeções de neurônios nos núcleos vestibulares.
Essas fibras levam informações de receptores do labirinto vestibular, que
sinalizam a posição e o movimento da cabeça no espaço (Fig. 8-11).
Vias Pontocerebelares
Os neurônios da base da ponte recebem estímulos de múltiplas áreas do
córtex encefálico e se projetam como fibras pontocerebelares pelo PCM contralateral ao córtex cerebelar. A organização, a somatotopia e a
relevância funcional do sistema corticopontocerebelar são consideradas na
Figura 8-13.
Vias de fibras trepadeiras
As fibras trepadeiras das olivas inferiores se projetam ao córtex cerebelar
pelo PCI contralateral. A anatomia, as conexões e a fisiologia das fibras
trepadeiras são mostradas nas Figuras 8-6 e 8-7.
Fibras monoaminérgicas
Estímulos dopaminérgicos menores ao cerebelo se originam da substância
negra — estímulos noradrenérgicos do locus ceruleus se projetam
difusamente ao verme e aos hemisférios laterais e fibras serotoninérgicas de
núcleos da rafe se projetam difusamente a muitas regiões do córtex
cerebelar.