Coleção Netter de Ilustrações Médicas, Volume 7: Sistema Nervoso, Cérebro Parte I
Neurobiologia da Epilepsia
FIGURA 3-9
Neurobiologia da Epilepsia A principal geradora dos sinais eletroquímicos do encéfalo é a membrana
dos neurônios. Como todas as membranas celulares, a membrana dos
neurônios é uma bicamada de fosfolipídeos. Essa bicamada lipídica evita a
troca de substratos ionizados entre a célula e seu ambiente, que é
fundamental para a sinalização elétrica. O interior da célula em repouso é
carregado negativamente, comparado com o exterior da mesma, devido às
diferenças nas concentrações de íons. Sódio (Na+), cálcio (Ca2+) e cloreto
(Cl-) são encontrados predominantemente no espaço extracelular, enquanto
K+ e íons orgânicos estão concentrados no espaço intracelular. Essas
diferenças de concentração são decorrentes dos transportadores específicos
de íons, que usam o suprimento de energia das células para movimentar
continuamente os íons dentro e fora da célula. Essas bombas produzem
diferenças de concentrações (entre o interior e o exterior do neurônio) pelo
transporte de íons contra seus gradientes de concentração (de regiões de
baixa concentração para regiões de alta concentração). Esse gradiente de
concentração através da membrana proporciona a energia eletroquímica
para conduzir a sinalização. Esses íons fluirão através da membrana pelos
canais proteicos. A maioria dos canais é íon-seletivo, e permitirá a
passagem de um íon específico. Ao contrário do transporte contínuo pelas
bombas de íons, o transporte pelos canais de íons não é contínuo. Os canais
de íons abrem e fecham em resposta aos sinais de seu ambiente. Os canais
dependentes de voltagem abrem ou fecham em resposta às alterações no
potencial elétrico através da membrana celular, enquanto os canais
dependentes de ligantes necessitam de uma ligação de uma molécula de
sinalização específica para abrir ou fechar.
Os dois íons mais importantes na transmissão de potenciais de ação são
Na+ e potássio K+. Os canais de Na+ dependentes de voltagem apresentam
três tipos de classificação: desativado (fechado), ativado (aberto) e
inativado (fechado). Durante a excitação da célula, os canais de Na+ são
ativados através da remoção de uma “porta de ativação” intracelular, e p
Na+ começa a fluir dentro da célula. Uma vez que alguns canais de íons de
Na+ começam a abrir, a voltagem apresenta uma queda adicional,
desencadeando mais canais para abertura até a despolarização da
membrana. Os canais de Na+ são mais sensíveis à alteração de voltagem do
que os canais de K+, e abrem mais rapidamente. Desse modo, em uma
despolarização, os íons de Na+ seguirão mais rapidamente para dentro da célula do que os íons de K+ se movimentam para fora. Essa despolarização
repentina denominada como um potencial de ação, resultará rapidamente
em uma diferença potencial de +30 milivolts. Uma vez que os canais de
íons de K+ dependentes de voltagem e de abertura lenta tenham aberto e
permitido a saída do K+, o potencial de ação está finalizado. Depois que os
canais de Na+ são ativados, eles são inativados rapidamente devido a uma
“porta de inativação” que bloqueia o interior do canal logo após ele ter sido
ativado. Durante um potencial de ação, o canal permanece inativado
durante alguns milissegundos (ou milésimos de segundos) após a
despolarização. A inativação é removida quando o potencial da membrana
celular repolariza após a fase de queda do potencial de ação. Isso permite os
canais serem ativados novamente, durante o próximo potencial de ação.
Desse modo, os canais de íons de Na+ iniciam o potencial de ação, e o
canais de íons de K+ concluem esse procedimento. Os canais então fecham,
e a bomba de sódio pode restaurar o potencial de repouso de -70 milivolts.
A polaridade da membrana é afetada também pelos canais dependentes
de ligantes, que abrem quando neurotransmissores, os ligantes da
transmissão sináptica, ligam-se aos receptores específicos conectados aos
canais. O glutamato é o neurotransmissor excitatório primário, e o ácido
gama-aminobutírico (GABA), o principal transmissor inibitório. A
transmissão sináptica é mediada pelo glutamato que é liberado dos
neurônios piramidais, e despolariza e excita os neurônios-alvo através dos
receptores ionotrópicos (NMDA, α-amino-3-hidroxi-5-metilisoxazol-4-
ácido propiônico (AMPA), e ácido kaínico [(KA)]. A abertura do canal de
glutamato permite que o Na+ e o Ca2+ entrem na célula, resultando em
despolarização, enquanto com a abertura do canal de GABA, o Cl- entra na
célula, resultando em hiperpolarização.
FIGURA 3-10
Uma vez que o potencial de ação seja produzido, ocorre a propagação
para a sinapse. Dependendo do tipo de célula, é liberado um neurotransmissor inibitório ou excitatório. O efeito do neurotransmissor na
membrana pós-sináptica determinará o fluxo da corrente dentro ou fora da
célula pós-sináptica, determinando desse modo se a célula pós-sináptica
produzirá potenciais de ação.
A epilepsia é um distúrbio paroxístico caracterizado por descargas
neuronais anormais. Apesar de a epilepsia ter muitas causas, o distúrbio
fundamental é secundário às descargas síncronas anormais de uma rede de
neurônios. A epilepsia é secundária a um desequilíbrio entre a entrada
inibitória e excitatória para as células.
A característica dos neurônios epilépticos em modelos experimentais de
epilepsia é a despolarização da membrana, que resulta em um pico interictal
registrado pelo EEG. Durante uma descarga interictal, a membrana celular
próxima do soma (pericário ou corpo celular do neurônio) é submetida a
uma voltagem relativamente alta (aproximadamente 10 a 15 mV) e a uma
despolarização relativamente longa (de 100 a 200 μsec = microssegundos).
A despolarização longa apresenta o efeito de produzir uma sequência de
potenciais de ação que são conduzidos distante do soma ao longo do axônio
do neurônio. Essa despolarização ampla é denominada de desvio
despolarizante paroxístico (DDP). O DDP é causado por um desequilíbrio
da excitação sobre a inibição. Essa excitação intensificada, ou a inibição
reduzida, pode ser secundária a diversas anormalidades, incluindo
perturbações nas propriedades intrísecas das membranas neuronais,
excitação excessiva através dos receptores NMDA (N-Metil-D-Aspartato) e
AMPA (ácido α-amino-3-hidroxi-5-metil-4-isoxazol propiônico), inibição
reduzida através dos canais de GABA, e anormalidades dos canais de cálcio
e potássio. O efeito final é um desequilíbrio de excitação sobre a inibição. O
DDP interictal é seguido por uma ampla hiperpolarização, que serve para
limitar a duração do paroxismo interictal. É importante lembrar que uma
zona epiléptica é constituída de inúmeros neurônios anormais que
descarregam de um modo síncrono anormal. O DDP pode ocorrer devido às
anormalidades da membrana intrínseca em um grupo de neurônios ou por
causa da entrada excitatória excessiva (ou entrada inibitória reduzida) para
um grupo de neurônios.
Com o passar do tempo, pode ocorrer uma perda progressiva de
hiperpolarização após o DDP no foco epiléptico. Durante as crises, os
neurônios epilépticos são submetidos a uma despolarização prolongada com ondas de potenciais de ação durante a fase tônica da crise, e oscilações de
potenciais de membranas com rajadas de potenciais de ação, separadas por
períodos calmos durante a fase clônica. Um EEG registrado no couro
cabeludo nesse período evidencia picos contínuos, que geralmente
coincidem com o estágio tônico de uma crise tônico-clônica generalizada.
Durante o próximo estágio, ocorrem potenciais inibitórios amplos (com
desaceleração ou abrandamento do EEG de superfície). Esse padrão
coincide geralmente com o estágio clônico da crise.
FIGURA 3-11
As crises focais podem disseminar-se ao longo do córtex e se propagar
para regiões distantes através dos tratos de substância branca. Muitos pacientes com crises focais apresentarão uma aura no início. O tipo de aura
depende da região do encéfalo na qual a crise foi originada. Por exemplo,
pacientes com início das crises no lobo temporal podem sentir déjà vu (a
experiência de ter certeza que já testemunhou ou foi submetido àquela
situação), enquanto o paciente com início das crises no lobo parietal pode
sentir dormência ou formigamento. Com a propagação, cada vez mais
neurônios são envolvidos no disparo síncrono, que pode culminar em uma
crise tônico-clônica generalizada.
Crises generalizadas
Ao contrário das crises focais, que envolvem um grupo relativamente
restrito de neurônios no início, as crises generalizadas resultam da
disfunção das redes de neurônios envolvendo diversas regiões do encéfalo.
O mecanismo básico subjacente na ausência de crises, e possivelmente
outros tipos de crises generalizadas, envolve o circuito tálamo-cortical e a
geração de ritmos oscilatórios anormais na rede neural. O circuito neuronal,
responsável pela produção do disparo tálamo-cortical oscilatório observado
durante a ausência de crises, inclui neurônios piramidais corticais,
neurônios de transmissão talâmica, e núcleos reticulares talâmicos (NRTs).
As principais conexões sinápticas do circuito tálamo-cortical incluem fibras
glutamatérgicas entre as células piramidais neocorticais e os NRTs;
conexões GABAérgicas entre as células dos NRTs, que ativam os
receptores de GABA ; e fibras GABAérgicas dos neurônios NRT, que A
ativam os receptores de GABA e GABA nos neurônios de transmissão A B
talâmica.
Os eventos celulares que fundamentam a capacidade dos neurônios NRT
de promover a alteração entre um modo de disparo tônico e oscilatório são
os picos de baixo limiar (T) Ca2+ que estão presentes nos neurônios NRT e
tálamo-corticais. Esses canais de Ca2+ Tipo T representam uma propriedade
fundamental das membranas envolvidas na excitação do disparo, e estão
associados à alteração para o disparo oscilatório nas células tálamo-
corticais. A ligeira despolarização desses neurônios é suficiente para ativar
esses canais e permitir o fluxo do Ca2+ extracelular. A despolarização
complementar produzida pelo fluxo de Ca2+ excederá o limiar para o disparo de potenciais de ação. Após a ativação dos canais-T, ocorrerá a
inativação muito rápida dos mesmos, originando desse fato a denominação
transitória. A desativação dos canais-T requer uma hiperpolarização
relativamente prolongada. A hiperpolarização mediada pelos receptores
GABA é um fator primário na desativação dos canais-T. B
As fibras GABAérgicas colaterais recorrentes dos neurônios NRT ativam
os receptores GABA nos neurônios NRT adjacentes. A ativação dos A
receptores GABA nos NRTs desse modo resulta em um impedimento da A
saída inibitória para os neurônios de transmissão talâmica. Considerando a
ativação reduzida de GABA , haveria uma pequena possibilidade para a B
ocorrência da desativação de Ca2+. Isso poderia resultar no disparo
oscilatório reduzido. Entretanto, a ativação direta de GABA e GABA dos A B
neurônios de transmissão talâmica poderia causar efeitos prejudiciais,
aumentando a hiperpolarização, e desse modo aumentando a probabilidade
de desativação dos canais-T. Os ritmos oscilatórios anormais nas crises de
ausência podem ser causados pelas anormalidades dos canais de Ca2+ tipo-T
ou da função acentuada dos receptores GABA . B