Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
5.6 Simetria e Quiralidade
Simetria Rotacional versus Simetria Reflexional
Nesta seção aprenderemos como determinar se uma substância é quiral ou
aquiral. É verdade que qualquer substância com um único centro de
quiralidade é quiral. Mas esta afirmação não é necessariamente verdadeira
para substâncias com dois centros de quiralidade. Considere os isômeros cis
e trans do 1,2-dimetilciclo-hexano:
Cada uma dessas substâncias tem dois centros de quiralidade, mas o
isômero trans é quiral, enquanto o cis não é quiral. Para entender o porquê,
precisamos explorar a relação entre simetria e quiralidade. Vamos
rapidamente revisar os diferentes tipos de simetria.
De modo geral, existem apenas dois tipos de simetria: simetria
rotacional e simetria reflexional. A primeira substância na figura anterior
(o isômero trans) exibe simetria rotacional. Para visualizar, imagine que o
anel do ciclo-hexano é espetado com um espeto imaginário. Então imagine,
enquanto os seus olhos estão fechados, que giramos o espeto:
Se após abrir os olhos for impossível determinar se a rotação ocorreu ou
não, então a molécula apresenta simetria rotacional. Esse espeto imaginário
é chamado de eixo de simetria.
Agora consideremos a estrutura do isômero cis:
Essa substância não possui o mesmo eixo de simetria que exibe o isômero
trans. Se espetarmos o espeto imaginário, teríamos que girar 360º para
gerar a mesma imagem. O mesmo ocorre se espetarmos a molécula a partir
de qualquer ângulo. Portanto, essa substância não exibe simetria rotacional.
Entretanto, a substância exibe simetria reflexional. Enquanto fecha os
olhos, imagine a molécula refletida sobre o plano mostrado na Figura 5.12.
Isto é, tudo do lado direito é refletido no lado esquerdo, e tudo do lado
esquerdo é refletido no lado direito. Quando você abre os seus olhos, você
não terá condições de determinar se ocorreu ou não a reflexão. Essa
molécula possui um plano de simetria.
FIGURA 5.12
Uma ilustração apresentando o plano de simetria presente no cis-1,2-dimetilciclo-hexano.
Resumindo, a molécula com um eixo de simetria possui simetria
rotacional e a molécula com um plano de simetria possui simetria
reflexional. Com o conhecimento desses dois tipos de simetria, podemos
agora explorar a relação entre simetria e quiralidade. Particularmente, a quiralidade é independente da simetria rotacional. Isto é, a presença ou
ausência de um eixo de simetria é completamente irrelevante quando
determinamos se uma substância é quiral ou aquiral. Vimos que o trans-1,2-
dimetilciclo-hexano possui simetria rotacional, todavia, a substância é
quiral e exibe um par de enantiômeros:
Mesmo a presença de diversos eixos de simetria não indica se a molécula é
quiral ou aquiral. A quiralidade é dependente somente da presença ou
ausência de simetria reflexional. Qualquer substância que possuir um plano
de simetria em qualquer conformação será aquiral. Vimos que o isômero
cis do 1,2-dimetilciclo-hexano exibe um plano de simetria e, portanto, a
substância é aquiral. Ela é idêntica à sua imagem especular. Ela não possui
enantiômero.
Apesar da presença de um plano de simetria mostrar que uma molécula
é aquiral, o inverso não é sempre verdadeiro; isto é, a ausência de um plano
de simetria não necessariamente significa que a substância é quiral. Por
quê? Porque o plano de simetria é apenas um tipo de simetria reflexional.
Existem outros tipos de simetria refexional e a presença de qualquer tipo de
simetria reflexional fará com que uma substância seja aquiral. Como
exemplo, considere a seguinte substância:
Essa substância não possui um plano de simetria, mas possui outro tipo de
simetria reflexional. Em vez de refletir em um plano, imagine a reflexão
sobre um ponto no centro da molécula. A reflexão sobre um ponto (em vez
de um plano) é chamada de inversão. Durante o processo de inversão, o
grupo metila situado na parte de cima da representação (com cunha cheia) é
refletido para a parte debaixo da estrutura (com cunha tracejada). De modo
semelhante, o grupo metila situado na parte debaixo da representação (com
cunha tracejada) é refletido para a parte de cima (com cunha cheia). Todos
os outros grupos são também refletidos em torno do centro dessa
substância. Se os seus olhos estiverem fechados quando ocorre a reflexão,
você não será capaz de afirmar se ocorreu alguma coisa. Diz-se que a
substância possui um centro de inversão, que faz com que a substância
tenha simetria reflexional. Como resultado, a substância é aquiral apesar de
não possuir um plano de simetria.
Existem também outros tipos de simetria reflexional, mas eles estão
além do escopo de nossa discussão. Para os nossos propósitos, será
suficiente procurar por um plano de simetria. Podemos resumir a relação
entre simetria e quiralidade com as três afirmações vistas a seguir:
• A presença ou ausência de simetria rotacional é irrelevante para a
quiralidade.
• Uma substância que apresentar plano de simetria será aquiral.
• Uma substância que não possuir um plano de simetria será
provavelmente quiral (apesar de existirem raras exceções, que
podem ser ignoradas para os nossos propósitos).
Iremos agora praticar a identificação de planos de simetria.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
5.23 Para cada um dos objetos vistos a seguir determine se ele possui ou não um plano de
simetria:
5.24 Um dos objetos anteriores tem três planos de simetria. Identi que esse objeto.
5.25 Cada uma das moléculas vistas a seguir tem um plano de simetria. Encontre o plano de
simetria em cada caso: (Sugestão: Um plano de simetria pode dividir um átomo em dois.)
Substâncias Meso
Vimos que a presença de um centro de quiralidade não necessariamente faz
com que uma substância seja quiral. Especificamente, uma substância que
possui simetria reflexional será aquiral apesar de possuir centros de
quiralidade. Tais substâncias são chamadas de substâncias meso. Uma
família de estereoisômeros contendo uma substância meso terá menos do
que 2 n estereoisômeros. Como exemplo, considere a seguinte substância:
Essa substância tem dois centros de quiralidade e, portanto, seriam
esperados 22 (=4) estereoisômeros. Em outras palavras, esperamos dois
pares de enantiômeros:
O primeiro par de enantiômeros está de acordo com as nossas expectativas.
Entretanto, o segundo par é na verdade apenas uma substância. Ela possui
simetria reflexional e é, portanto, uma substância meso:
A substância não é quiral e não tem um enantiômero. Para ajudar a
visualizar, imagine uma família com três crianças. Um par de gêmeos e
outra criança. O par de gêmeos é idêntico um ao outro em quase todos os
sentidos exceto pela presença de uma marca de nascença. Uma criança tem
a marca no lado direito do rosto enquanto a outra tem a marca de nascença
no lado esquerdo. Elas são imagens especulares, não sobreponíveis, uma da
outra. Por outro lado, a terceira criança tem duas marcas de nascença, uma
em cada lado do rosto. Esta criança é sobreponível com a sua própria
imagem especular; ela não possui um gêmeo. Essa família de três crianças é
semelhante à família molecular de três estereoisômeros mostrada
anteriormente.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
5.8 IDENTIFICAÇÃO DE SUBSTÂNCIAS MESO
APRENDIZAGEM
Represente todos os possíveis estereoisômeros do 1,3-dimetilciclopentano:
SOLUÇÃO
Essa substância tem dois centros de quiralidade, então esperamos quatro possíveis
estereoisômeros (dois pares de enantiômeros):
Antes de concluirmos que existem quatro estereoisômeros aqui, precisamos procurar ver se
algum par de enantiômeros é, na verdade, apenas uma substância meso. O primeiro par
representa realmente um par de enantiômeros.
Estudantes geralmente têm di culdades em ver que essas duas substâncias não são
sobreponíveis. É um erro comum acreditar que girando a primeira substância se formará a
segunda substância. Isso não é verdade! Lembre-se de que um grupo metila em uma cunha
tracejada está apontando para longe de nós (para trás do papel), enquanto um grupo metila em
uma cunha cheia está apontando para nós (para a frente do papel). Quando a substância vista
anteriormente é girada sobre um eixo vertical, o grupo metila do lado esquerdo termina no lado
direito da substância, mas ele não continua com uma cunha cheia. Por quê? Antes da rotação,
ele estava apontando para nós, mas após a rotação, ele está apontando para longe de nós (um
kit de montagem de modelos moleculares ajudará você a visualizar isso). Como resultado, esse
grupo metila termina como uma cunha tracejada no lado direto da substância. O destino do
outro grupo metila é similar. Antes da rotação, ele se encontra em uma cunha tracejada no lado
direito da substância, mas após a rotação ele termina no lado esquerdo como uma cunha cheia.
Como resultado, a rotação dessa substância irá apenas regenerar a mesma representação:
A rotação dessa substância jamais irá dar o seu enantiômero:
Essas substâncias são enantiômeros porque elas não possuem simetria re exional. Possuem
apenas simetria rotacional, o que é completamente irrelevante.
Por outro lado, o segundo par de substâncias não representa um par de enantiômeros; em
vez disso, representa duas representações de uma mesma substância (uma substância meso):
Essa família molecular é, portanto, constituída de apenas três estereoisômeros – um par de
enantiômeros e uma substância meso: