Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
5.2 Introdução à Estereoisomeria
Na seção anterior, nós revisamos a estereoisomeria cis-trans, mas existem
muitos outros tipos de estereoisômeros. Começamos nossa exploração dos
vários tipos de estereoisômeros investigando a relação de um objeto e sua
imagem especular.
Quiralidade
Qualquer objeto pode ser visto em um espelho, revelando a sua imagem
especular. Pegue, por exemplo, um par de óculos de sol (Figura 5.3). Para
muitos objetos, como os óculos de sol na Figura 5.3, a imagem especular é
idêntica ao próprio objeto. Diz-se que o objeto e sua imagem especular são
sobreponíveis. Esse não é o caso se removemos uma das suas lentes
(Figura 5.4). O objeto e sua imagem especular são agora diferentes.
Enquanto em um falta uma lente direita no outro está faltando a lente
esquerda. Agora, neste caso, o objeto e sua imagem especular são ditos não
sobreponíveis. Muitos objetos familiares como as mãos não são
sobreponíveis às suas imagens especulares. A mão direita e a mão esquerda
são imagens especulares uma da outra e não são idênticas; elas não são
sobreponíveis. A mão esquerda não vestirá uma luva direita, assim como a
mão direita não vestirá uma luva esquerda.
Objetos, como as mãos, que não são sobreponíveis com sua imagem
especular são chamados de objetos quirais, do grego cheir (que significa
mão). Todos os objetos tridimensionais podem ser classificados como
quirais ou aquirais. Moléculas são objetos tridimensionais e podem,
portanto, ser classificadas segundo estas duas classes. Moléculas quirais são
como as mãos: não são sobreponíveis com sua imagem especular.
Moléculas aquirais não são como as mãos: elas são sobreponíveis com sua
imagem especular. O que torna uma molécula quiral?
FIGURA 5.3
Um objeto sobreponível com sua imagem especular.
FIGURA 5.4
Um objeto não sobreponível com sua imagem especular.
OLHANDO PARA O FUTURO
Para outras fontes de quiralidade molecular veja os Problemas Integrados 5.58-5.60 no final deste capítulo.
Centros de Quiralidade
A fonte mais comum de quiralidade em moléculas é a presença de um
átomo de carbono contendo quatro grupos diferentes. Existem duas
maneiras de distribuir quatro grupos em torno de um átomo de carbono
central (Figura 5.5). Essas duas distribuições não são imagens especulares
sobreponíveis.
FIGURA 5.5
Existem duas maneiras de se distribuírem quatro grupos diferentes em torno de um átomo de carbono central.
A PROPÓSITO
Para visualizar que essas duas substâncias não são sobreponíveis, construa um modelo com a ajuda de qualquer kit de montagem de modelos moleculares existente.
Considere, por exemplo, a estrutura do 2-butanol, que pode ser representada
de duas maneiras no espaço tridimensional.
Essas duas substâncias não são imagens especulares sobreponíveis e
representam duas substâncias diferentes. Essas substâncias diferem apenas na distribuição espacial de seus átomos e são, portanto, estereoisômeros.
Em 1996, a IUPAC recomendou que um átomo de carbono tetraédrico
possuindo quatro grupos diferentes seja chamado de centro de quiralidade.
Muitos outros nomes ainda em uso comum incluem centro quiral,
estereocentro, centro estereogênico e centro assimétrico. No restante de
nossa discussão utilizaremos o termo recomendado pela IUPAC. A seguir
observamos exemplos de centros de quiralidade:
A PROPÓSITO
Apesar da recomendação da IUPAC para o uso do termo “centro de quiralidade”, os termos estereocentro e centro estereogênico são mais frequentemente usados. Entretanto, esses termos possuem uma definição mais ampla: um estereocentro ou um centro estereogênico é definido como o local onde o intercâmbio de dois substituintes gerará um estereoisômero. Essa definição inclui centros de quiralidade, mas também inclui ligações duplas cis e trans, que não são centros de quiralidade.
Cada carbono assinalado contém quatro grupos diferentes. Na última
substância, o átomo de carbono é um centro de quiralidade porque uma
trajetória em torno do anel é diferente da outra trajetória (uma trajetória
encontra a ligação dupla mais cedo). Por outro lado, a substância vista a
seguir não possui um centro de quiralidade. Neste caso, as trajetórias
horária e anti-horária são idênticas.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
5.2 LOCALIZAÇÃO DE CENTROS DE QUIRALIDADE
APRENDIZAGEM
Propoxifeno, vendido sob o nome comercial DarvonTM, é um analgésico e antitussígeno
(supressor da tosse). Identi que todos os centros de quiralidade no propoxifeno:
SOLUÇÃO
Estamos à procura de átomos de carbono tetraédricos com quatro grupos diferentes. Cada
átomo de carbono com hibridação 2 sp está ligado a apenas três grupos, em vez de quatro. Assim,
nenhum desses átomos de carbono pode ser um centro de quiralidade.
ETAPA 1
Ignoram-se átomos de carbono com hibridação 2 sp e sp.
Podemos também descartar qualquer grupo CH2 ou CH3, pois esses átomos de carbono não
possuem quatro grupo diferentes.
ETAPA 2
Ignoram-se grupos CH2 e CH3.
É importante estar treinado na identi cação de átomos de carbono que não podem ser centros
de quiralidade. Isso tornará mais fácil a percepção dos centros de quiralidade. Neste exemplo
existem apenas dois átomos de carbono que devemos considerar:
ETAPA 3
Identi cação de qualquer átomo de carbono com quatro grupos diferentes.
Cada uma dessas posições apresenta quatro grupos diferentes, então essas duas posições são
centros de quiralidade.
PRATICANDO
o que você aprendeu
5.4 Identi que todos os centros de quiralidade em cada uma das substâncias vistas a seguir:
APLICANDO
o que você aprendeu
5.5 Represente todos os isômeros constitucionais do C4H9Br e identi que o(s) isômero(s) que
possui(em) centro(s) de quiralidade.
5.6 Você espera que a substância vista a seguir seja quiral? Explique sua resposta (considere se
essa substância é sobreponível com sua imagem especular).
é necessário PRATICAR MAIS? Tente Resolver os Problemas 5.34b, 5.48
Enantiômeros
Quando uma substância é quiral, ela não será sobreponível a sua imagem
especular, chamada seu enantiômero (da palavra grega que significa
“oposto”). A substância e sua imagem especular constituem um par de
enantiômeros. A palavra “enantiômero” é utilizada na linguagem falada da
mesma maneira que a palavra “gêmeos”. Quando duas crianças são um par
de gêmeos, cada uma é chamada de gêmea da outra. De modo similar,
quando duas substâncias são um par de enantiômeros, cada substância é
dita ser um enantiômero da outra. Uma substância quiral terá exatamente
um enantiômero; nenhum a mais nem a menos. Vamos praticar
representando o enantiômero de uma substância quiral.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
5.3 REPRESENTAÇÃO DE UM ENANTIÔMERO
APRENDIZAGEM
A anfetamina é um estimulante controlado utilizado no tratamento de DDA (distúrbio do dé cit
de atenção) e da síndrome da fadiga crônica. Durante a Segunda Guerra Mundial ela foi
amplamente utilizada por soldados para reduzir a fadiga e aumentar o estado de alerta.
Represente o enantiômero da anfetamina.
SOLUÇÃO
Este problema está pedindo para representar a imagem especular da substância vista
anteriormente. Existem três maneiras de fazê-lo, porque existem três posições onde podemos
imaginar em colocar um espelho: (1) atrás, (2) ao lado ou (3) abaixo da molécula:
A PROPÓSITO
Na maioria dos casos, é mais fácil representar uma imagem especular colocando o
espelho atrás da molécula.
É mais fácil posicionar o espelho atrás da molécula, porque o esqueleto da molécula é
representado exatamente da mesma maneira, exceto que toda cunha cheia torna-se tracejada e
toda cunha tracejada torna-se cheia . Qualquer outro aspecto da molécula é representado
exatamente da mesma maneira:
A segunda maneira de representar um enantiômero é posicionar o espelho ao lado da molécula.
Ao fazer isso, representamos a imagem especular do esqueleto, mas as cunhas cheias
permanecem cheias e as cunhas tracejadas permanecem tracejadas:
Finalmente, podemos posicionar o espelho abaixo da molécula. Ao fazer isso representamos a
imagem especular do esqueleto; mais uma vez, as cunhas cheias permanecem cheias e as
cunhas tracejadas permanecem tracejadas:
Das três maneiras de representar um enantiômero, apenas a primeira envolve a troca entre
cunhas tracejadas e cunhas cheias. Mesmo assim, certi que-se de ter compreendido que todos
esses métodos produzem o mesmo resultado:
As três representações mostram a mesma molécula. Elas podem parecer diferentes, mas a
rotação de qualquer uma das representações irá gerar a outra representação. Lembre-se de que
uma molécula pode ter apenas um enantiômero, então todos os três métodos têm que produzir
a mesma resposta.
Em geral, é mais fácil usar o primeiro método. Simplesmente volte a representar a
substância trocando as cunhas cheias por tracejadas e as cunhas tracejadas por cheias.
Entretanto, esse método não funcionará em todas as situações. Em algumas representações
moleculares cunhas tracejadas e cunhas cheias não são escritas porque a estrutura
tridimensional está implícita no desenho. Este é o caso de substâncias bicíclicas. Quando tiver
que lidar com substâncias bicíclicas será mais fácil utilizar um dos outros métodos (posicionar o
espelho ou abaixo ou ao lado da molécula). Por exemplo:
Neste caso, é mais fácil colocar o espelho ao lado da substância A, o que permite representar a
substância B (o enantiômero da substância A).
PRATICANDO
o que você aprendeu
5.7 Represente o enantiômero de cada uma das substâncias vistas a seguir:
APLICANDO
o que você aprendeu
5.8 Ixabepilona é uma substância citotóxica aprovada pela FDA em 2007 para o tratamento de
câncer de mama em estágio avançado. A Bristol-Myers Squibb comercializa esse fármaco com o
nome de Ixempra. Represente o enantiômero desta substância: