Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
10.7 Hidratação dos Alquinos
Hidratação dos Alquinos Catalisada por Ácido
No capítulo anterior, vimos que alquenos sofrem hidratação catalisada por
ácido quando tratados com solução aquosa ácida (H O+). A reação ocorre 3
através de uma adição Markovnikov, assim, um grupo hidroxila é inserido
na posição mais substituída:
Alquinos também são observados ao sofrerem hidratação catalisada por
ácido, mas a reação é mais lenta do que a reação correspondente com
alquenos. Como observado anteriormente neste capítulo, a diferença de
velocidade é atribuída ao carbocátion vinílico, intermediário de alta energia,
que se forma quando um alquino é protonado. A velocidade de hidratação
do alquino é significativamente aumentada na presença de sulfato de
mercúrio (HgSO ), que catalisa a reação: 4
O produto inicial da reação tem uma ligação dupla (en) e um grupo OH
(ol), e é por isso chamado de um enol. Mas o enol não pode ser isolado
porque é rapidamente convertido em uma cetona. A conversão de um enol
em uma cetona será vista novamente em muitos capítulos subsequentes e,
portanto, merece uma discussão mais aprofundada. A conversão de um enol em uma cetona, catalisada por ácido, ocorre por meio de duas etapas
(Mecanismo 10.2).
MECANISMO 10.2 TAUTOMERIZAÇÃO CATALISADA POR ÁCIDO
A ligação π do enol é protonada em primeiro lugar gerando um
intermediário estabilizado por ressonância, que é então desprotonado para
dar origem à cetona. Observe que ambas as etapas deste mecanismo são
transferências de prótons. O resultado deste processo é a migração de um
próton a partir de um local para outro, acompanhado por uma mudança na
localização da ligação π:
O enol e a cetona são chamados de tautômeros, que são isômeros
constitucionais que se interconvertem rapidamente através da migração de
um próton. A interconversão entre um enol e uma cetona é chamada de
tautomerização cetoenólica. A tautomerização é um processo de
equilíbrio, o que significa que o equilíbrio vai estabelecer as concentrações
específicas do enol e da cetona. Geralmente, a cetona é muito favorecida, e a concentração de enol será muito pequena. Tenha muito cuidado para não
confundir tautômeros com estruturas de ressonância. Tautômeros são
isômeros constitucionais que existem em equilíbrio um com o outro. Uma
vez que o equilíbrio foi atingido, as concentrações de cetona e de enol
podem ser medidas experimentalmente. Ao contrário, estruturas de
ressonância não são substâncias diferentes e elas não estão em equilíbrio
entre si. Estruturas de ressonância são simplesmente representações
diferentes de uma substância.
RELEMBRANDO
Para uma revisão de estruturas de ressonância, consulte a Seção 2.7.
A tautomerização cetoenólica é um processo de equilíbrio, que é
catalisado mesmo por pequenas quantidades de ácido (ou de base). A
vidraria que é cuidadosamente limpa terá ainda pequenas quantidades de
ácido ou de base adsorvida à sua superfície. Como resultado, é
extremamente difícil de evitar uma tautomerização cetoenólica de atingir o
equilíbrio.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
10.3 REPRESENTAÇÃO DO MECANISMO DE TAUTOMERIZAÇÃO CETOENÓLICA
CATALISADA POR ÁCIDO
APRENDIZAGEM
Sob condições normais, o 1-ciclo-hexenol não pode ser isolado ou armazenado em uma garrafa,
uma vez que sofre tautomerização rápida produzindo ciclo-hexanona. Represente um
mecanismo para esta tautomerização:
SOLUÇÃO
O mecanismo de uma tautomerização cetoenólica catalisada por ácido tem duas etapas: (1)
protonação e, em seguida, (2) desprotonação. Para representar este mecanismo, é essencial
lembrar onde ocorre a protonação na primeira etapa. Existem dois locais onde a protonação
poderia possivelmente ocorrer: o grupo OH ou a ligação dupla. Realmente, sob essas condições,
ambos os sítios são reversivelmente protonados (em condições ácidas, os prótons são
transferidos para trás e para frente, na medida do possível). A m de escolher onde protonar,
vamos considerar com cuidado as posições dos prótons envolvidos nessa transformação:
ATENÇÃO
Não dê ao OH outro próton, pois esse caminho não levará rapidamente à cetona. Os
estudantes que tentam protonar o grupo OH invariavelmente continuam através da
perda de água como um grupo de saída formando um carbocátion vinílico. Esse
caminho tem demasiada energia e simplesmente não conduz ao produto.
Em condições ácidas, devemos protonar primeiro e só depois desprotonar. A m de realizar a
transformação anterior, a ligação dupla tem que ser protonada em vez do grupo OH. Pode ser
tentador protonar o grupo OH primeiro (e isso é um erro muito comum), mas olhe atentamente
para o grupo OH no enol. O OH tem que perder o seu próton no decurso da reação (de modo a
formar a cetona). Certi que-se de começar por protonar a ligação π em vez do grupo OH:
ETAPA 1
Protonação da ligação π do enol.
Como é o caso para todas as etapas de transferência de prótons, são necessárias duas setas
curvas. Certi que-se de representar as duas.
Em seguida, representamos a estrutura de ressonância do intermediário formado quando o
enol é protonado:
ETAPA 2
Representação das estruturas de ressonância do intermediário.
Finalmente, removemos um próton para formar a cetona. Mais uma vez, duas setas curvas são
necessárias:
ETAPA 3
Remoção de um próton para formar a cetona.
PRATICANDO
o que você aprendeu
10.16 Os enóis vistos a seguir não podem ser isolados. Eles rapidamente tautomerizam
produzindo cetonas. Em cada caso, represente a cetona esperada e mostre um mecanismo para
a sua formação sob condições de catálise por ácido (H 3O+).
APLICANDO
o que você aprendeu
10.17 Considere o seguinte equilíbrio:
Esses isômeros constitucionais se interconvertem rapidamente na presença mesmo que de
pequenas quantidades de ácido e são, portanto, chamados de tautômeros um do outro.
Represente um mecanismo para essa transformação.
é necessário PRATICAR MAIS? Tente Resolver os Problemas 10.49b, 10.63, 10.64,10.67
Vimos que mesmo pequenas quantidades de ácido irão catalisar uma
tautomerização cetoenólica. Portanto, o enol inicialmente produzido por
hidratação de um alquino imediatamente tautomeriza para formar uma
cetona. Quando for pedido para prever o produto de hidratação do alquino, não cometa o erro de representar um enol. Simplesmente represente a
cetona.
A hidratação catalisada por ácido de alquinos internos não simétricos
produz uma mistura de cetonas:
A falta de controle regioquímico torna esse processo muito menos útil. É
frequentemente mais utilizado para a hidratação de um alquino terminal, o
que gera uma metilcetona como produto:
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
10.18 Represente o(s) produto(s) principal(is) esperado(s) quando cada um dos seguintes
alquinos é tratado com solução aquosa ácida na presença de sulfato de mercúrio (HgSO4):
10.19 Identi que o alquino que você usaria para preparar cada uma das seguintes cetonas
através de hidratação catalisada por ácido:
Hidroboração-Oxidação de Alquinos
No capítulo anterior, vimos que os alquenos sofrem hidroboração-oxidação
(Seção 9.6). A reação prossegue através de uma adição anti-Markovnikov,
inserindo, portanto, um grupo hidroxila na posição menos substituída:
Observa-se que os alquinos também sofrem um processo semelhante:
O produto inicial da reação é um enol que não pode ser isolado porque é
rapidamente convertido em aldeído através de uma tautomerização. Como
vimos na seção anterior, a tautomerização não pode ser evitada, e é
catalisada por ácido ou base. Neste caso, as condições básicas são
empregadas, de modo que o processo de tautomerização ocorre através de
um mecanismo catalisado por base (Mecanismo 10.3).
MECANISMO 10.3 TAUTOMERIZAÇÃO CATALISADA POR BASE
OLHANDO PARA O FUTURO
Enolatos são intermediários muito úteis e nós vamos explorar a sua química no Capítulo 22, do Volume 2.
Observe que a ordem dos eventos, sob condições de catálise por base, é o
inverso da ordem dos eventos sob condições de catálise por ácido. Isto é, o
enol é inicialmente desprotonado e só então é protonado (sob condições de
catálise por ácido, a primeira etapa é a protonação do enol). Em condições
básicas, a desprotonação do enol leva a um ânion estabilizado por
ressonância chamado de íon enolato, que é então protonado para gerar o
aldeído.
Acredita-se que a hidroboração-oxidação de alquinos se desenvolve através
de um mecanismo que é semelhante ao mecanismo considerado para a
hidroboração-oxidação de alquenos (Mecanismo 9.3). Especificamente, o
borano se adiciona ao alquino em um processo concertado que dá uma
adição anti-Markovnikov. Existe, no entanto, uma diferença fundamental.
Ao contrário de um alqueno, que só possui uma ligação π, um alquino
possui duas ligações π. Como resultado, duas moléculas de BH 3 podem ser
adicionadas ao alquino. Para evitar a segunda adição, um dialquil-borano
(R BH) é utilizado em vez do BH . Os dois grupos alquila proporcionam 2 3 impedimento estérico que evita a segunda adição. Dois dialquil-boranos
comumente utilizados são disiamilborano e 9-BBN:
Com esses reagentes de borano modificados, a hidroboração-oxidação é um
método eficiente para a conversão de um alquino terminal em um aldeído:
Observe que o produto final desta sequência de reações é um aldeído, em
vez de uma cetona.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
10.20 Represente o produto principal para cada uma das seguintes reações:
10.21 Identi que o alquino que você utilizaria para preparar cada uma das substâncias vistas a
seguir por meio de hidroboração-oxidação:
Controlando a Regioquímica da Hidratação de Alquinos
Nas seções anteriores, exploramos dois métodos para a hidratação de um
alquino terminal:
A hidratação catalisada por ácido de um alquino terminal produz uma
metilcetona, enquanto a hidroboração-oxidação produz um aldeído. Em
outras palavras, o resultado regioquímico da hidratação do alquino pode ser
controlado através da escolha dos reagentes. Vamos começar a praticar
determinando que reagentes devem ser usados.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
10.4 ESCOLHA DOS REAGENTES APROPRIADOS PARA A HIDRATAÇÃO DE UM
ALQUINO
APRENDIZAGEM
Identi que os reagentes que você usaria para realizar a seguinte transformação:
SOLUÇÃO
O material de partida é um alquino terminal e o produto tem uma ligação C =O. Essa reação
pode, por conseguinte, ser realizada através da hidratação do alquino de partida. Para
determinar que reagentes devem ser utilizados, inspecionamos cuidadosamente o resultado
regioquímico do processo. Especi camente, o átomo de oxigênio é colocado na posição mais
substituída para produzir uma metilcetona:
ETAPA 1
Identi cação do resultado regioquímico.
Essa transformação exige uma adição Markovnikov, o que pode ser conseguido através de uma
hidratação catalisada por ácido:
ETAPA 2
Identi cação dos reagentes que fornecem o resultado regioquímico desejado.
PRATICANDO
o que você aprendeu
10.22 Identi que os reagentes que você usaria para realizar cada uma das seguintes
transformações:
APLICANDO
o que você aprendeu
10.23 Identi que os reagentes que você usaria para realizar cada uma das seguintes
transformações:
10.24 Nos próximos capítulos vamos aprender um método de duas etapas para realizar a
transformação vista a seguir. Enquanto isso, use as reações que já aprendemos para obter essa
transformação: