Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
11.5 Seletividade da Halogenação
Quando o propano sofre uma reação de halogenação radicalar, existem dois
produtos possíveis, e ambos são formados.
Estatisticamente, devemos ser capazes de prever qual deve ser a
distribuição de produtos (quanto de cada produto é esperado), baseados no
número de cada tipo de átomo de hidrogênio:
Baseados nesta análise, deveríamos esperar que a halogenação ocorresse na
posição primária com uma frequência três vezes maior que na posição
secundária. Entretanto, essas expectativas não são corroboradas pelas
observações:
Esses resultados mostram que a halogenação ocorre na posição secundária
mais rapidamente do que sugerido pela estatística. Por quê? Lembre-se de
que a etapa determinante da velocidade é a primeira etapa de propagação –
abstração de hidrogênio. Portanto, vamos centralizar a nossa atenção nesta
etapa. Especificamente, comparamos o estado de transição para a abstração
na posição primária com o estado de transição para a abstração na posição
secundária (Figura 11.12). Comparamos energia dos estados de transição
destacados em verde na Figura 11.12. Em cada estado de transição, um
elétron desemparelhado (radical) está se desenvolvendo sobre um átomo de
carbono.
FIGURA 11.12
Um diagrama de energia mostrando a abstração de hidrogênio produzindo um radical primário ou um radical secundário.
Este radical em desenvolvimento é mais estável na posição secundária do
que na posição primária. Como resultado, a Ea é menor para a abstração de
hidrogênio na posição secundária, e a reação ocorre mais rapidamente
naquele sítio. Isso explica a observação da cloração ocorrer na posição
secundária mais rapidamente do que é previsto somente pela estatística.
Quando o propano sofre uma bromação radicalar (em vez de cloração),
a seguinte distribuição de produtos é observada:
Esses resultados indicam que a tendência para bromação na posição
secundária é mais pronunciada, com 97% de produto ocorrendo a partir da
reação na posição secundária. Diz-se que a bromação é mais seletiva que a
cloração. Para compreender a razão desta seletividade, lembre-se de que a
etapa determinante da velocidade da reação para a cloração é exotérmica,
enquanto a etapa determinante da velocidade da reação para a bromação é
endotérmica. Na seção anterior, usamos esse fato para explicar por que a
bromação é mais lenta do que a cloração. Agora usaremos este fato para
explicar por que a bromação é mais seletiva do que a cloração.
Lembre-se do postulado de Hammond (Seção 6.6), que descreve a
natureza do estado de transição em cada caso. Para o processo de cloração,
a etapa determinante da velocidade é exotérmica e, portanto, a energia e
estrutura do estado de transição assemelham-se mais aos reagentes do que
aos produtos (Figura 11.13).
FIGURA 11.13
Utilização do postulado de Hammond para comparar os estados de transição na primeira etapa de propagação das reações de cloração e bromação radicalares.
Isso significa que a ligação C—H começou a romper e o carbono tem
um pequeno caráter radicalar. No caso da bromação, a etapa determinante
da velocidade é endotérmica e, portanto, a energia e estrutura do estado de transição assemelham-se mais com a dos intermediários que dos reagentes
(Figura 11.13). Como resultado, a ligação C —H está quase completamente
rompida no estado de transição, e o átomo de carbono tem um caráter
radicalar significativo (Figura 11.14). Em ambos os casos, o átomo de
carbono tem um caráter radicalar parcial (δ•), mas durante a cloração, este
caráter radicalar é pequeno. Durante a bromação, o caráter radicalar é muito
maior. Como resultado, o estado de transição será mais sensível à natureza
do substrato durante a reação de bromação. No diagrama de energia para o
processo de cloração, há apenas uma pequena diferença na energia entre os
estados de transição que conduzem aos radicais primário, secundário ou
terciário (Figura 11.15, esquerda). Por outro lado, o diagrama de energia
para o processo de bromação mostra uma grande diferença de energia entre
os estados de transição que conduzem aos radicais primário, secundário ou
terciário (Figura 11.15, direita). Desse modo, a bromação apresenta maior
seletividade que a cloração.
FIGURA 11.14
Uma comparação dos estados de transição durante a primeira etapa de propagação nas reações de cloração e bromação radicalares.
FIGURA 11.15
Diagramas de energia para a primeira etapa de propagação para as reações de cloração e bromação, comparando a diferença entre os estados de transição que conduzem a radicais primário, secundário ou terciário.
Aqui temos outro exemplo que ilustra a diferença de seletividade entre
cloração e bromação:
Neste caso, a seletividade da bromação é extremamente pronunciada porque
existem apenas dois resultados possíveis: halogenação em uma posição
primária ou halogenação em uma posição terciária. Para o processo de
bromação, a diferença em energia dos estados de transição será bastante
significativa.
A Tabela 11.2 resume a seletividade relativa de fluoração, cloração e
bromação. O flúor apresenta apenas uma pequena seletividade pela posição terciária em relação à primária. O flúor é o mais reativo de todos os
halogênios e, portanto, o menos seletivo. Por outro lado, o bromo apresenta
uma grande seletividade para a halogenação na posição terciária (1600
vezes maior que na posição primária). O bromo é menos reativo que o flúor
e o cloro, sendo, portanto, o mais seletivo. A relação entre reatividade e
seletividade é uma tendência geral e a observaremos muitas vezes ao longo
deste livro (não apenas em reações radicalares). Especificamente existe uma
relação inversa entre reatividade e seletividade: reagentes que são menos
reativos serão geralmente mais seletivos.
TABELA 11.2 SELETIVIDADE RELATIVA DA FLUORAÇÃO, CLORAÇÃO E BROMAÇÃO
PRIMÁRIO SECUNDÁRIO TERCIÁRIO
F 1 1,2 1,4
Cl 1 4,5 5,1
Br 1 82 1600
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
11.5 PREVISÃO DA SELETIVIDADE DA BROMAÇÃO RADICALAR
APRENDIZAGEM
Preveja o produto principal obtido a partir da bromação radicalar do 2,2,4-trimetilpentano.
SOLUÇÃO
Analise todas as posições possíveis que podem sofrer bromação, e identi que cada posição como
primária, secundária ou terciária:
ETAPAS 1 E 2
Identi cação de todas as posições possíveis e determinação da posição mais estável para a
formação de um radical.
Certi camo-nos de evitar selecionar uma posição quaternária, uma vez que posições
quaternárias não possuem uma ligação C—H. A bromação não pode ocorrer em um sítio
quaternário. Espera-se que o produto principal resulte a partir da bromação na posição terciária:
ETAPA 3
Representação do produto de bromação na posição onde o radical é mais estável.
PRATICANDO
o que você aprendeu
11.12 Preveja qual o produto principal é obtido em uma bromação radicalar de cada uma das
seguintes substâncias: