Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
8.4 Estereoisomerismo nos Alquenos
Em adição aos seus nomes sistemáticos e comuns, alquenos também são
classificados pelo grau de substituição (Figura 8.3). Não confunda a
palavra substituição com o tipo de reação discutida no capítulo anterior. A
mesma palavra tem dois significados diferentes. No capítulo anterior, a
palavra “substituição” se refere a uma reação que envolve a substituição de
um grupo de saída por um nucleófilo. No presente contexto, a palavra
“substituição” se refere ao número de grupos alquila ligados a uma ligação
dupla.
FIGURA 8.3
O grau de substituição indica o número de grupos alquila ligados à ligação dupla.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
8.4 Classi que cada um dos seguintes alquenos como monossubstituído, dissubstituído,
trissubstituído ou tetrassubstituído:
8.4 Estereoisomerismo nos Alquenos Uso das Denominações cis e trans
Lembre-se de que uma ligação dupla é constituída por uma ligação σ e uma
ligação π (Figura 8.4).
FIGURA 8.4
As ligações σ e π de uma ligação dupla C=C.
A ligação σ é o resultado da sobreposição de orbitais com hibridização sp2,
enquanto a ligação π é o resultado da sobreposição de orbitais p. Vimos que
ligações duplas não apresentam rotação livre na temperatura ambiente,
dando origem ao estereoisomerismo:
Cicloalquenos constituídos por menos de sete átomos de carbono não
podem acomodar uma ligação π trans. Esses anéis podem acomodar apenas
uma ligação π em uma configuração cis:
Nestes exemplos, não existe necessidade de identificarmos o
estereoisomerismo da ligação dupla ao nomearmos cada uma destas
substâncias, porque o estereoisomerismo está implícito. Por exemplo, a
última substância é chamada de ciclo-hexeno, em vez de cis-ciclo-hexeno.
Um anel de sete membros contendo uma ligação dupla trans foi preparado,
mas esta substância (trans-ciclo-hepteno) não é estável à temperatura
ambiente. Um anel de oito membros é o menor anel que pode acomodar
uma ligação dupla trans e ser estável à temperatura ambiente:
Essa regra também se aplica às substâncias bicíclicas em ponte e é chamada
de regra de Bredt. Especificamente, a regra de Bredt afirma que não é
possível para um átomo de carbono cabeça de ponte de um sistema bicíclico
estar envolvido em uma ligação dupla C =C, se ele envolve uma ligação π
trans estando incorporada em um anel pequeno. Por exemplo, a substância
vista a seguir é muito instável para se formar:
Essa substância exigiria uma ligação dupla trans em um anel de seis
membros, destacado em vermelho. A substância não é estável porque a geometria da cabeça de ponte impede a manutenção da sobreposição
paralela de orbitais p necessária para manter a ligação π intacta. Como
resultado, este tipo de substância tem uma energia extremamente elevada e
sua existência é fugaz.
Substâncias bicíclicas em ponte só podem apresentar uma ligação dupla
em uma posição de cabeça de ponte se um dos anéis tem pelo menos oito
átomos de carbono. Por exemplo, a substância vista a seguir pode manter a
sobreposição paralela dos orbitais p e, como resultado, ela é estável a
temperatura ambiente:
Uso das Denominações E e Z
Os descritores estereoquímicos cis e trans só podem ser usados para indicar
a disposição relativa de grupos semelhantes. Quando um alqueno possui
grupos que não são semelhantes, o uso da terminologia cis-trans seria
ambíguo. Considere, por exemplo, as duas substâncias vistas a seguir:
Essas duas substâncias não são as mesmas; elas são estereoisômeros. Mas o
que deve ser chamado de substância cis e o que deve ser chamado de trans?
Em situações como esta, as regras da IUPAC nos fornecem um método para
atribuir descritores estereoquímicos diferentes e não ambíguos.
Especificamente, nós olhamos para os dois grupos em cada posição vinílica
e escolhemos a qual dos dois grupos é atribuída a maior prioridade:
Em cada caso, a prioridade é atribuída pelo mesmo método usado na Seção
5.3. Especificamente, a prioridade é dada ao elemento com o número
atômico mais elevado. Neste caso, F tem prioridade sobre C, enquanto N
tem prioridade sobre H. Em seguida, comparamos a posição dos grupos de
maior prioridade. Se eles estão no mesmo lado (como mostrado
anteriormente), a configuração é designada pela letra Z (para a palavra
alemã zussamen, que significa “juntos”); se eles estão em lados opostos, a
configuração é designada pela letra E (para a palavra alemã entgegen, que
significa “oposto”):
Esses exemplos são bastante simples, porque todos os átomos ligados
diretamente às posições vinílicas têm diferentes números atômicos. Outros
exemplos podem exigir a comparação de dois átomos de carbono. Nesses
casos, vamos usar as mesmas regras de desempate que usamos ao atribuir as
configurações dos centros de quiralidade no Capítulo 6. A seção
Desenvolvendo a Aprendizagem vista a seguir servirá como um lembrete
dessas regras.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
8.2 ATRIBUIÇÃO DA CONFIGURAÇÃO DE UMA LIGAÇÃO DUPLA
APRENDIZAGEM
Identi que a con guração do seguinte alqueno:
SOLUÇÃO
Essa substância tem duas ligações π, mas só uma deles é estereoisomérica. A ligação π mostrada
no canto inferior direito não é estereoisomérica porque tem dois átomos de hidrogênio ligados à
mesma posição vinílica.
Vamos nos concentrar na outra ligação dupla e tentar atribuir a sua con guração. Considere cada
posição vinílica separadamente. Vamos começar com a posição vinílica no lado esquerdo.
Comparamos os dois grupos ligados a ela e identi camos a qual grupo deve ser atribuída a
prioridade mais elevada.
ETAPA 1
Identi cação dos dois grupos ligados a uma posição vinílica e, a seguir, determinação de qual o
grupo que tem prioridade.
Neste caso, estamos comparando dois átomos de carbono (que têm o mesmo número atômico),
de modo que construímos uma lista para cada átomo de carbono (tal como zemos no Capítulo
6) e olhamos para o primeiro ponto de diferença:
Lembre-se de que nós não adicionamos números atômicos aos átomos em cada lista, em vez
disso, nós olhamos para o primeiro ponto de diferença. O átomo de O tem um número atômico
maior do que o átomo de C, de modo que consideramos que o grupo no canto superior esquerdo
tem prioridade sobre o grupo terc-butila.
Agora voltamos nossa atenção para o lado direito da ligação dupla. Usando as mesmas regras,
tentamos identi car qual o grupo que tem prioridade.
ETAPA 2
Identi camos os dois grupos ligados a outra posição vinílica e, em seguida, determinamos qual o
grupo que tem prioridade.
Mais uma vez, estamos comparando dois átomos de carbono, mas, neste caso, a construção das
listas não nos fornece um ponto de diferença. Ambas as listas são idênticas:
Logo, nos afastamos da ligação dupla do estereoisômero e, novamente, construímos listas e
procuramos pelo primeiro ponto de diferença. Lembre-se de que uma ligação dupla é tratada
como duas ligações simples separadas:
C tem um número atômico maior do que H, de modo que o grupo no canto inferior direito tem
prioridade sobre o grupo propila.
Finalmente, comparamos as posições relativas dos grupos prioritários. Esses grupos estão em
lados opostos da ligação dupla, de modo que a con guração é E:
ETAPA 3
Determinação se os grupos prioritários estão do mesmo lado (Z) ou em lados opostos (E) da
ligação dupla.
PRATICANDO
o que você aprendeu
8.5 Para cada um dos seguintes alquenos, atribua a con guração da ligação dupla como E ou Z: