Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
■ Medicamente Falando | Identificação do Farmacóforo
FIGURA 2.2
Representações comuns que mostram a tridimensionalidade para substâncias cíclicas, acíclicas e bicíclicas.
medicamente
Identi cação do Farmacóforo
falando
Como mencionado na abertura deste capítulo, existem muitas técnicas que os
cientistas empregam no projeto de novos fármacos. Uma dessas técnicas,
chamada de modi cação da substância protótipo, envolve a modi cação da
estrutura de uma substância conhecida como tendo propriedades medicinais desejáveis. A
substância conhecida “orienta” o caminho para o desenvolvimento de outras substâncias
semelhantes e por isso é chamada de substância protótipo. A história da mor na fornece um
bom exemplo desse processo.
A mor na é um analgésico (um supressor da dor) muito potente conhecido por atuar sobre
o sistema nervoso central como um depressor (causando a sedação e função respiratória mais
lenta) e como um estimulante (aliviando sintomas de ansiedade e causando um estado geral de
euforia). Como a mor na provoca dependência, ela é usada principalmente para o tratamento
de curto prazo da dor aguda e para doentes terminais que sofrem de dor extrema. As
propriedades analgésicas da mor na têm sido exploradas por mais de um milênio. Ela é o
componente principal do ópio, obtido a partir das vagens de sementes imaturas da papoula,
uma planta chamada Papaver somniferum. A mor na foi isolada do ópio pela primeira vez em
1803, e, em meados de 1800, foi muito usada para controlar a dor durante e após
procedimentos cirúrgicos. Ao nal da década de 1800, as propriedades de dependência da
mor na se tornaram aparentes, o que alavancou a busca de analgésicos que não provocassem
dependência.
Em 1925, a estrutura da mor na foi corretamente determinada. Esta estrutura funcionou
como uma substância protótipo e foi modi cada para produzir outras substâncias com
propriedades analgésicas. As modi cações iniciais foram focadas na substituição dos grupos
hidroxila (OH) por outros grupos funcionais. Exemplos incluem a heroína e a codeína. A heroína
apresenta maior atividade do que a mor na e causa dependência extrema. A codeína mostra
menor atividade do que a mor na e provoca menos dependência. A codeína é atualmente
utilizada como analgésico e supressor da tosse.
Em 1938, as propriedades analgésicas da meperidina, também conhecida como Demerol,
foram fortuitamente descobertas. De acordo com a história, a meperidina foi originalmente
preparada para funcionar como um agente antiespasmódico (para suprimir espasmos
musculares). Quando administrada a camundongos, ela curiosamente fez com que as caudas
dos ratinhos cassem eretas. Já se sabia que a mor na e substâncias a ns produziam um efeito
semelhante em ratinhos, de modo que a meperidina foi testada mais tarde e descobriu-se que
ela tinha propriedades analgésicas. Esta descoberta gerou muito interesse, fornecendo novas
perspectivas na busca de outros analgésicos. Ao comparar as estruturas da mor na, da
meperidina e dos seus derivados, os cientistas foram capazes de determinar quais as
características estruturais essenciais para a atividade analgésica. Essas características estruturais
são vistas a seguir em vermelho:
Quando a mor na é representada desta maneira, a sua semelhança estrutural com a
meperidina torna-se mais aparente. Especi camente, as ligações indicadas em vermelho
representam a parte de cada substância responsável pela atividade analgésica. Esta parte da
substância é chamada farmacóforo. Se qualquer parte do farmacóforo for removida ou alterada,
a substância resultante não será capaz de se ligar ao receptor biológico apropriado, e a
substância não exibe propriedades analgésicas. O termo auxoforo refere-se ao resto da
substância (as ligações mostradas em preto na gura anterior). A remoção de qualquer dessas
ligações pode ou não afetar a força com a qual o farmacóforo se liga ao receptor, afetando assim
a potência analgésica da substância. Quando se está modi cando uma substância protótipo, as
regiões auxofóricas são as partes-alvo para modi cação. Por exemplo, as regiões auxofóricas da
mor na foram modi cadas para desenvolver a metadona e a etor na.
A metadona: desenvolvida na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, é usada para tratar
dependentes de heroína que sofrem de sintomas de abstinência. A metadona liga-se ao mesmo
receptor que a heroína, mas tem um tempo maior de retenção no corpo, permitindo assim que o
corpo lide com os níveis decrescentes do fármaco que normalmente causam sintomas de
abstinência. A etor na é mais de 3000 vezes mais potente do que a mor na e é utilizada
exclusivamente em medicina veterinária para imobilizar elefantes e outros mamíferos de
grande porte.
Os cientistas estão constantemente à procura de novas substâncias protótipo. Em 1992,
pesquisadores do NIH (National Institutes of Health) em Bethesda, Maryland (EUA), isolaram a
epibatidina da pele da rã equatoriana, Epipedobates tricolor. Veri cou-se que a epibatidina é um
analgésico 200 vezes mais potente do que a mor na. Estudos adicionais indicaram que a
epibatidina e a mor na se ligam a diferentes receptores. Esta descoberta é muito interessante,
uma vez que signi ca que a epibatidina pode servir como uma nova substância protótipo.
Embora esta substância seja muito tóxica para uso clínico, um número signi cativo de
pesquisadores está atualmente trabalhando para identi car o farmacóforo da epibatidina e para
desenvolver derivados não tóxicos. Esta é uma área de pesquisa que parece de fato promissora.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
2.20 Acredita-se que a troglitazona, a rosiglitazona e a pioglitazona, todos fármacos
antidiabéticos introduzidos no mercado no nal da década de 1990, atuem sobre o mesmo
receptor:
(a) Com base nessas estruturas, tente identi car o farmacóforo provável responsável pela
atividade antidiabética desses fármacos.
(b) Considere a estrutura da rivoglitazona (vista a seguir). Esta substância está sendo estudada
como tendo potencial atividade antidiabética. Baseado em sua análise do farmacóforo
provável, você acredita que a rivoglitazona apresenta propriedades antidiabéticas?