Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
14.11 Tióis e Sulfetos
Tióis
O enxofre está diretamente abaixo do oxigênio na tabela periódica (na
mesma coluna) e, portanto, muitas substâncias contendo oxigênio têm
análogos de enxofre. Os análogos de enxofre de álcoois contêm um grupo
SH, em substituição ao um grupo OH e são chamados tióis. A nomenclatura
dos tióis é semelhante à dos álcoois, mas o sufixo do nome é “tiol” em vez
de “ol”:
Observe que o “o” é mantido antes do sufixo “tiol”. Quando outro grupo
funcional está presente na substância, o grupo SH é nomeado como um
substituinte e é chamado grupo mercapto:
O nome “mercapto” é derivado do fato de que os tióis uma vez foram
chamados mercaptanos. Esta terminologia foi abandonada pela IUPAC há
várias décadas, mas os velhos hábitos custam a morrer, e muitos químicos
ainda se referem aos tióis como mercaptanos. O termo é oriundo do latim
mercurium captans (captação de mercúrio), e descreve a capacidade dos
tióis em formar complexos com o mercúrio, bem como com outros metais.
Essa capacidade é utilizada pelo fármaco chamado dimercaprol, usado para
tratar envenenamento por mercúrio e por chumbo.
Os tióis são mais notórios pelos seus odores desagradáveis. Gambás
usam tióis como um mecanismo de defesa para afastar os predadores
borrifando uma mistura que proporciona um cheiro forte. O metanotiol é
adicionado ao gás natural, de modo que escapamentos de gás podem ser
facilmente detectados. Se você já sentiu o cheiro de um vazamento de gás,
você estava cheirando o metanotiol (CH3SH) no gás natural, pois o gás
natural é inodoro. Surpreendentemente, os cientistas que trabalharam com tióis relatam que o odor desagradável, na verdade, torna-se agradável depois
de exposição prolongada. O autor deste livro pode atestar esse fato.
Tióis podem ser preparados através de uma reação SN2 entre
hidrossulfeto de sódio (NaSH) e um haleto de alquila apropriado, por
exemplo:
Essa reação pode ocorrer mesmo em substratos secundários sem competição
de reações E2, porque o íon hidrossulfeto (HS−) é um nucleófilo excelente e
uma base fraca. Quando este nucleófilo ataca um centro de quiralidade,
observa-se a inversão de configuração.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
14.22 Que reagentes você usaria para preparar cada um dos seguintes tióis:
Tióis facilmente sofrem oxidação para produzir dissulfetos.
A conversão de tióis em dissulfetos requer um reagente de oxidação, tal
como bromo em hidróxido aquoso. O processo começa com a
desprotonação do tiol gerando um íon tiolato (Mecanismo 14.7). O
hidróxido é uma base suficientemente forte para que o equilíbrio favoreça a formação do íon tiolato. Esse íon tiolato é um nucleófilo excelente e pode
atacar o bromo molecular em um processo S N2. Um segundo processo SN2
produz então o dissulfeto.
MECANISMO 14.7 OXIDAÇÃO DE TIÓIS
DESPROTONAÇÃO DO TIOL
FORMAÇÃO DO DlSSULFETO
Há muitos agentes de oxidação que podem ser usados para converter os
tióis em dissulfetos. Na verdade, a reação é realizada com tanta facilidade
que o oxigênio atmosférico pode comportar-se como um agente oxidante
produzindo dissulfetos. Os catalisadores podem ser utilizados para acelerar
o processo. Dissulfetos são também facilmente reduzidos novamente a tióis,
quando tratados com um agente redutor, tal como o HCl na presença de
zinco.
A facilidade de interconversão entre tióis e dissulfetos é atribuída à natureza
da ligação S—S. Ela tem uma energia de ligação de aproximadamente 220
kJ/mol, que é cerca da metade da energia de muitas outras ligações
covalentes. A interconversão entre tióis e dissulfetos é extremamente
importante na determinação da forma de muitas substâncias biologicamente
ativas, como iremos explorar na Seção 25.4, do Volume 2.
Sulfetos
Os análogos de enxofre dos éteres são chamados sulfetos, ou tioéteres.
A nomenclatura dos sulfetos é semelhante à dos éteres. Os nomes comuns
são atribuídos usando-se o sufixo “sulfeto” em vez de “éter”.
Sulfetos mais complexos são nomeados sistematicamente de modo parecido
com os éteres, sendo o grupo alcóxi substituído por um grupo alquiltio.
Sulfetos podem ser preparados a partir de tióis da maneira vista a seguir.
Esse processo é essencialmente o análogo do enxofre da síntese de éter de
Williamson (Mecanismo 14.8).
MECANISMO 14.8 PREPARAÇÃO DE SULFETOS A PARTIR DE TIÓIS
Na primeira etapa, é usado hidróxido para desprotonar o tiol e produzir um
íon tiolato. A seguir, o íon tiolato se comporta como um nucleófilo e ataca
um haleto de alquila produzindo o sulfeto. O processo segue um caminho
reacional SN2, de modo a aplicar as restrições normais. A reação que se
comporta bem com haletos de metila e haletos de alquila primários pode
frequentemente ser realizada com haletos de alquila secundários, mas não
ocorre para os haletos de alquila terciários.
Uma vez que os sulfetos são estruturalmente semelhantes aos éteres,
poderíamos esperar que os sulfetos seriam tão inertes quanto os éteres, mas
isto não é o caso. Sulfetos sofrem várias reações importantes.
1. Sulfetos irão atacar os haletos de alquila em um processo SN2.
O produto desta etapa é um agente alquilante potente, pois é capaz de
transferir um grupo metila para um nucleófilo.
RELEMBRANDO
Para uma revisão das reações de alquilação com SAM, veja a Seção 7.4.
Nós já vimos um exemplo desse processo no Capítulo 7. Lembre-se de
que SAM é um agente de metilação biológica.
2. Sulfetos também sofrem oxidação formando sulfóxidos e, em seguida,
sulfonas.
O produto inicial é um sulfóxido. Se o agente de oxidação for
suficientemente forte e estiver presente em excesso, então o sulfóxido é
oxidado para dar origem a uma sulfona. Para bons rendimentos do
sulfóxido sem oxidação adicional para sulfona, é necessário a utilização
de um reagente de oxidação que não oxidará o sulfóxido. Muitos desses
reagentes estão disponíveis, incluindo o meta-periodato de sódio, NaIO4.
Se a sulfona é o produto desejado, então dois equivalentes de peróxido
de hidrogênio são usados.
As ligações S =O em sulfóxidos e sulfonas têm, na verdade, um pouco
do caráter de ligação dupla. O orbital 3p de um átomo de enxofre é
muito maior do que o orbital 2p de um átomo de oxigênio e, portanto, a
sobreposição orbital da ligação π entre esses dois átomos não é efetiva.
Consequentemente, sulfóxidos e sulfonas são muitas vezes
representados com cada ligação S—O como uma ligação simples.
A facilidade com que os sulfetos são oxidados faz com que eles sejam
os agentes redutores ideais em uma ampla variedade de aplicações. Por
exemplo, relembre que o DMS (sulfeto de dimetila ou dimetil sulfeto) é