Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
8.12 Substituição vs. Eliminação: Identificação do Reagente
8.38 No próximo capítulo vamos aprender um método para preparar alquinos (substâncias que
contêm ligações triplas C#C). Na reação vista a seguir, um dialeto (uma substância com dois
átomos de halogênio) é tratado com um excesso de uma base forte (amida de sódio), resultando
em duas reações E2 sucessivas. Represente um mecanismo para essa transformação.
8.12 Substituição vs. Eliminação: Identificação
do Reagente
As reações de substituição e eliminação estão quase sempre competindo
uma com a outra. A fim de prever os produtos de uma reação, é necessário
determinar quais os mecanismos que são suscetíveis de ocorrer. Em alguns
casos, apenas um mecanismo predomina:
Em outros casos, dois ou mais mecanismos competirão; por exemplo:
Não caia na armadilha de pensar que sempre tem que existir um claro
vencedor. Às vezes é isso que ocorre, mas às vezes há vários produtos. O
objetivo é prever todos os produtos e prever quais os produtos principais e
quais os secundários. Para atingir esta meta, são necessárias três etapas:
1. Determinar a função do reagente.
2. Analisar o substrato e determinar o(s) mecanismo(s) esperado(s).
3. Considerar quaisquer requisitos regioquímico e estereoquímicos
relevantes.
Cada uma dessas três etapas será explorada, em detalhes, no restante deste
capítulo. Esta seção será focada nas habilidades necessárias para alcançar a
primeira etapa, enquanto a segunda e terceira etapas serão discutidas nas
seções seguintes. O objetivo final é a proficiência na previsão de produtos, e
o aprendizado desta seção representa a primeira etapa para alcançar esse
objetivo.
Vimos anteriormente neste capítulo que a principal diferença entre as
reações de substituição e eliminação é a função do reagente. Uma reação de
substituição ocorre quando o reagente se comporta como um nucleófilo,
enquanto uma reação de eliminação ocorre quando o reagente se comporta
como uma base. Portanto, a primeira etapa em qualquer caso específico é
determinar se o reagente é um nucleófilo forte ou um nucleófilo fraco e se é
uma base forte ou uma base fraca. Nucleofilicidade e basicidade não são os
mesmos conceitos, como descrito inicialmente na Seção 6.7.
Nucleofilicidade é um fenômeno cinético e refere-se à velocidade da reação,
enquanto basicidade é um fenômeno termodinâmico e refere-se à posição de equilíbrio. Veremos em breve que é possível para um reagente ser um
nucleófilo fraco e uma base forte. Do mesmo modo, é possível que um
reagente seja um nucleófilo forte e uma base fraca. Isto é, a basicidade e a
nucleofilicidade nem sempre são paralelas entre si. Vamos agora explorar a
nucleofilicidade e a basicidade em mais detalhes, a fim de desenvolver o
conhecimento necessário para identificar a função esperada de um reagente.
Nucleofilicidade
Nucleofilicidade refere-se à velocidade com que determinado nucleófilo
atacará um eletrófilo. Há muitos fatores que contribuem para a
nucleofilicidade, como descrito inicialmente na Seção 6.7. Um desses
fatores é a carga, o que pode ser ilustrado através da comparação de um íon
hidróxido com a água. O hidróxido é um nucleófilo forte, enquanto a água é
um nucleófilo fraco, como pode ser visto na Seção 7.8.
Outro fator que afeta a nucleofilicidade é a polarizabilidade, que muitas
vezes é ainda mais importante do que a carga. Lembre-se de que a
polarizabilidade descreve a capacidade de um átomo em distribuir a sua
densidade eletrônica de forma desigual, como um resultado de influências
externas (Seção 6.7). A polarizabilidade está diretamente relacionada ao
tamanho do átomo e, mais especificamente, ao número de elétrons que estão
distantes do núcleo. Um átomo de enxofre é muito grande e tem muitos
elétrons que estão distantes do núcleo e, portanto, é altamente polarizado. A
maioria dos halogênios compartilha essa mesma característica. Por essa
razão, o H2S é um nucleófilo muito mais forte do que o H2O:
Observe que o H 2S carece de uma carga negativa, mas é, no entanto, um
nucleófilo forte, porque é altamente polarizável. A relação entre a
polarizabilidade e nucleofilicidade também explica por que o íon hidreto
(H−) do NaH não se comporta como um nucleófilo, mesmo tendo uma carga
negativa. O íon hidreto é extremamente pequeno (o hidrogênio é o menor
dos átomos), e não é suficientemente polarizável para se comportar como
um nucleófilo. Veremos, no entanto, que o íon hidreto se comporta como
uma base muito forte. Vamos analisar agora os fatores que afetam a
basicidade.
Basicidade
Ao contrário da nucleofilicidade, a basicidade não é um fenômeno cinético
e não está associada à velocidade de um processo. Em vez disso, basicidade
é um fenômeno termodinâmico e refere-se à posição de equilíbrio:
Em um processo de transferência de próton, o equilíbrio vai favorecer a
base fraca.
Existem vários métodos para determinar se uma base é forte ou fraca.
No Capítulo 3 discutimos dois desses métodos: uma abordagem quantitativa
e uma abordagem qualitativa. A primeira exige que tenhamos acesso a
valores de pKa. Especificamente, a força de uma base é determinada pela
avaliação do pKa do seu ácido conjugado. Por exemplo, um íon cloreto é
uma base muito fraca, porque o seu ácido conjugado (HCl) é fortemente ácido (pKa = −7). A outra abordagem, o método qualitativo, foi descrito na
Seção 3.4 e envolve a utilização de quatro fatores para a determinação da
estabilidade relativa de uma base contendo uma carga negativa. Por
exemplo, um íon cloreto tem uma carga negativa sobre um átomo
eletronegativo grande e é, portanto, altamente estabilizado (uma base fraca).
Observe que tanto a abordagem quantitativa quanto a abordagem qualitativa
fornecem a mesma previsão: a de que um íon cloreto é uma base fraca.
Como outro exemplo, considere o íon bissulfato (HSO − 4). A abordagem
quantitativa identifica este íon como uma base fraca, porque o seu ácido
conjugado é fortemente ácido (pKa = −9). A abordagem qualitativa dá uma
previsão semelhante, porque o íon bissulfato é altamente estabilizado por
ressonância:
Observe mais uma vez que as abordagens quantitativa e qualitativa são
consistentes. Qualquer abordagem pode ser utilizada. O caso específico
geralmente vai ditar qual é o método mais fácil de usar.
Nucleofilicidade vs. Basicidade
Depois de analisar os principais fatores que contribuem para a
nucleofilicidade e a basicidade, podemos classificar todos os reagentes em
quatro grupos (Figura 8.25). Vamos rever rapidamente cada um desses
quatro grupos. O primeiro grupo inclui os reagentes que se comportam
apenas como nucleófilos. Isto é, eles são nucleófilos fortes porque são
altamente polarizáveis, mas eles são bases fracas porque os seus ácidos
conjugados são bastante ácidos. A utilização de um reagente deste grupo significa que uma reação de substituição está ocorrendo (não de
eliminação).
FIGURA 8.25
Classificação de reagentes comuns utilizados para as reações de substituição/eliminação.
OLHANDO PARA O FUTURO
O íon hidreto será utilizado como uma base forte em outras aplicações ao longo deste livro.
O segundo grupo inclui reagentes que se comportam apenas como bases,
não como nucleófilos. O primeiro reagente neste grupo é o íon hidreto,
geralmente mostrado na forma NaH, em que o Na+ é o contraíon. Como
mencionado anteriormente, o íon hidreto não é um nucleófilo, porque não é
suficientemente polarizável; no entanto, é uma base muito forte porque o
seu ácido conjugado (H—H) é um ácido exremamente fraco. A utilização
de um íon hidreto como reagente indica que ocorrerá eliminação em vez de
substituição. De fato, há muitos reagentes além do hidreto que também se
comportam exclusivamente como bases (e não como nucleófilos). Dois
exemplos frequentemente utilizados são o DBN e o DBU:
Estas duas substâncias são muito semelhantes em termos de estrutura.
Quando qualquer uma destas substâncias é protonada, a carga positiva
resultante é estabilizada por ressonância:
A carga positiva está distribuída por dois átomos de nitrogênio, em vez de
um. O ácido conjugado é estabilizado e, portanto, não é muito ácido. Como
resultado, ambos, o DBN e o DBU, são fortemente básicos. Esses exemplos
demonstram que é possível uma substância neutra ser uma base forte.
O terceiro grupo na Figura 8.25 contém reagentes que são nucleófilos
fortes e bases fortes. Estes reagentes incluem os íon hidróxido (HO−) e
alcóxido (RO−). Estes reagentes são geralmente utilizados para processos
bimoleculars (S N2 e E2).
O quarto, e último, grupo contém reagentes que são nucleófilos fracos e
bases fracas. Estes reagentes incluem a água (H 2O) e os álcoois (ROH). Tais
reagentes são geralmente utilizados para processos unimoleculares (SN1 e
E1).
A fim de prever os produtos de uma reação, a primeira etapa é a
determinação da identidade e da natureza do reagente. Ou seja, você deve
analisar o reagente e determinar a que grupo ele pertence. Vamos começar
praticando este procedimento crítico.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
8.10 DETERMINAÇÃO DA FUNÇÃO DE UM REAGENTE
APRENDIZAGEM
Considere o íon fenolato. Vamos explorar a reatividade deste íon no Capítulo 19. A partir da lista
vista a seguir, identi camos a que grupo o íon fenolato pertence.
(a) Nucleó lo forte e base fraca
(b) Nucleó lo fraco e base forte
(c) Nucleó lo forte e base forte
(d) Nucleó lo fraco e base fraca
SOLUÇÃO
Vamos começar a explorar a sua nucleo licidade. Veri camos a carga e a polarizabilidade. O
reagente certamente tem uma carga negativa, o que deve torná-lo um nucleó lo forte. O átomo
de oxigênio não é altamente polarizável, mas ele também não é um átomo su cientemente
pequeno (como o hidrogênio) para não ser um nucleó lo. Consequentemente, prevemos que o
íon fenolato deve ser um nucleó lo relativamente forte. Esta característica será um aspecto
importante da sua reatividade no Capítulo 19.
ETAPA 1
Determinação se o reagente é um nucleó lo forte ou se ele não é, olhando para a carga e/ou a
polarizabilidade.
Em seguida, vamos explorar a basicidade do íon fenolato. Existem dois métodos que podem
ser usados, e os seus resultados devem ser concordantes. Usando a abordagem quantitativa,
olhamos o valor do pKa do ácido conjugado (chamado fenol):
ETAPA 2
Determinação se o reagente é uma base forte ou ele não é, utilizando o método quantitativo ou
o método qualitativo.
A Tabela 3.1 indica que o pKa do fenol é de 9,9, que é muito mais ácido do que um álcool típico
(um ROH geralmente tem um pKa na faixa de 16-18). Como o fenol é bastante ácido, esperamos
que o íon fenolato seja uma base bastante fraca. Alternativamente, poderíamos tirar a mesma
conclusão usando a abordagem qualitativa. Especi camente, observa-se que o íon fenolato é
estabilizado por ressonância:
Como resultado, o íon fenolato é esperado ser uma base mais fraca (mais estável) de um íon
alcóxido comum (RO−). Concluindo, nossa análise prevê que o íon fenolato deve ser um
nucleó lo relativamente forte e uma base relativamente fraca.
PRATICANDO
o que você aprendeu
8.39 Identi que se cada um dos reagentes vistos a seguir seria um nucleó lo forte ou um
nucleó lo fraco e também indique se ele seria uma base forte ou uma base fraca:
(e) LiOH
(f) MeOH