Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
11.1 Radicais
• Entalpia (Seção 6.1)
• Entropia (Seção 6.2)
• Energia Livre de Gibbs (Seção 6.3)
• Interpretação de Diagramas de Energia Livre (Seção 6.6)
11.1 Radicais
Introdução aos Radicais
Na Seção 6.1, mencionamos que uma ligação pode ser rompida de dois
modos diferentes: clivagem heterolítica formando íons e clivagem
homolítica formando radicais (Figura 11.1). Até o presente momento,
centralizamos a nossa atenção principalmente em reações iônicas – isto é,
exploramos mecanismos que envolvem íons. Este capítulo focará
exclusivamente em radicais. Olhe atentamente as setas curvas utilizadas nos
dois processos vistos a seguir. Especificamente, um processo iônico utiliza
setas curvas com duas farpas, enquanto um processo radicalar utiliza setas
curvas com uma única farpa (Figura 11.2). Uma seta curva com duas farpas
representa o movimento de dois elétrons, enquanto uma seta curva com
uma farpa representa o movimento de um único elétron. Setas com uma
única farpa são chamadas setas anzóis em função da sua aparência. Neste
capítulo utilizaremos apenas setas anzóis.
FIGURA 11.1
Uma ilustração da diferença entre clivagem homolítica e heterolítica de ligações químicas.
FIGURA 11.2
As setas utilizadas em mecanismos iônicos têm duas farpas, enquanto as setas utilizadas em mecanismos radicalares têm uma única farpa.
Estrutura e Geometria dos Radicais
De modo a compreender a estrutura e geometria dos radicais, precisamos
rever rapidamente as estruturas de carbocátions e carbânions (Figura 11.3).
Um carbocátion possui hibridação sp2 e geometria plana triangular,
enquanto um carbânion apresenta hibridação sp3 e geometria piramidal
triangular. A diferença na geometria resulta da diferença no número de
elétrons não ligantes. Um carbocátion não possui elétrons não ligantes,
enquanto um carbânion possui dois elétrons não ligantes. Um radical no
carbono está entre estes dois casos, porque possui apenas um elétron não
ligante. É razoável, portanto, esperar que a geometria de um radical no
carbono esteja entre plana triangular e piramidal triangular. Dados
experimentais sugerem que radicais no carbono sejam planos triangulares
ou apresentem uma geometria piramidal bastante planificada (quase plana)
com uma barreira de inversão pequena (Figura 11.4). De qualquer modo,
radicais no carbono são tratados como espécies planas triangulares. Esta
geometria terá importância mais tarde neste capítulo quando tratarmos com
as respostas estereoquímicas das reações radicalares.
FIGURA 11.3
Comparação entre as geometrias de um carbocátion e de um carbânion.
FIGURA 11.4
A geometria de um radical no carbono.
A ordem de estabilidade dos radicais segue a mesma tendência dos
carbocátions, ou seja, os radicais terciários são mais estáveis que os radicais
secundários, que por sua vez são mais estáveis que os radicais primários
(Figura 11.5). A explicação para esta tendência é semelhante à explicação para a estabilidade dos carbocátions. Especificamente, grupos alquila são
capazes de estabilizar o elétron desemparelhado através de um efeito de
deslocalização, chamado de hiperconjugação. Esta tendência na estabilidade
é corroborada pela comparação das energias de dissociação de ligações
(EDLs). Observamos que a energia de dissociação de ligação é menor para
a ligação C —H envolvendo um carbono terciário (Figura 11.6), indicando
que é mais fácil romper homoliticamente esta ligação. Estes valores
observados para a EDL sugerem que um radical terciário é
aproximadamente 16 kJ/mol mais estável que um radical secundário.
RELEMBRANDO
Para um a revisão sobre a estabilidade de carbocátions e hiperconjugação veja a Seção
6.8.
FIGURA 11.5
A ordem de estabilidade para radicais no carbono.
FIGURA 11.6
Energia de dissociação de ligação para diferentes ligações C—H.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
11.1 Classi que os radicais vistos a seguir em ordem de estabilidade:
Estruturas de Ressonância de Radicais
No Capítulo 2 vimos cinco padrões para representação de estruturas de
ressonância. Existem também vários padrões para a representação de
estruturas de ressonância de radicais. Entretanto, a maioria das situações
requer apenas um padrão, que é caracterizado pela presença de um elétron
desemparelhado vizinho a uma ligação π, em uma posição alílica.
Neste caso, o elétron desemparelhado é estabilizado por ressonância, e três
setas com uma farpa são utilizadas para representar a estrutura de
ressonância.
Posições benzílicas também apresentam o mesmo padrão, com diversas
estruturas de ressonância contribuindo para o híbrido global.
Radicais estabilizados por ressonância são ainda mais estáveis que radicais
terciários, como podemos ver comparando os valores de EDL na Figura
11.7. A ligação C—H em uma posição benzílica ou alílica é mais
facilmente rompida que uma ligação C —H em uma posição terciária.
Estes valores de EDL observados sugerem que radicais estabilizados por
ressonância são cerca de 70-80 kJ/mol mais estáveis que radicais terciários.
Essa é uma diferença grande quando comparada com a diferença de 16 kJ
entre os radicais terciário e secundário.
FIGURA 11.7
Energia de dissociação de ligação para várias ligações C—H.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
11.1 REPRESENTAÇÃO DE ESTRUTURAS DE RESSONÂNCIA DE RADICAIS
APRENDIZAGEM
Represente todas as estruturas de ressonância para o radical visto a seguir, e certi que-se de
mostrar as setas anzóis:
SOLUÇÃO
Quando representamos a estrutura de ressonância de um radical, procuramos por um elétron
desemparelhado próximo a uma ligação π. Neste caso, o elétron desemparelhado está de fato
localizado em uma posição alílica, de modo que representamos as três setas com uma farpa
vistas a seguir:
ETAPA 1
Procura por um elétron desemparelhado próximo a uma ligação π.
A nova estrutura de ressonância apresenta um elétron desemparelhado em posição alílica em
relação a outra ligação π, de modo que representamos novamente três setas com uma farpa
para chegarmos à representação de outra estrutura de ressonância:
ETAPA 2
Representação de três setas com uma farpa e, a seguir, representação da estrutura de
ressonância correspondente.
No total, existem três estruturas de ressonância:
PRATICANDO
o que você aprendeu
11.2 Represente as estruturas de ressonância para cada um dos radicais vistos a seguir:
(a)
(b)
(c)
(d)
APLICANDO
o que você aprendeu
11.3 O radical trifenilmetila foi o primeiro radical a ser observado. Represente todas as
estruturas de ressonância para este radical, e explique por que este radical é muito estável:
11.4 O 5-metilciclopentadieno sofre clivagem homolítica de uma ligação C —H para formar
um radical que apresenta cinco estruturas de ressonância. Determine qual o hidrogênio
abstraído e represente todas as cinco estruturas de ressonância do radical resultante.
é necessário PRATICAR MAIS? Tente Resolver os Problemas 11.22,11.25
Nesta seção, vimos que radicais alílicos e benzílicos são estabilizados
por ressonância. Ao analisar a estabilidade de um radical, certifique-se de
não confundir a posição alílica com a vinílica:
Um radical vinílico não é estabilizado por ressonância e não tem estruturas
de ressonância:
De fato, um radical vinílico é ainda menos estável que um radical primário.
Isso pode ser observado comparando-se os valores de EDL (Figura 11.8).
Uma ligação C —H em uma posição vinílica necessita de ainda mais
energia para sua clivagem do que uma ligação C—H em uma posição
primária. Esses valores observados de EDL sugerem que um radical vinílico
é aproximadamente 50 kJ/mol maior em energia do que um radical primário
(uma diferença muito elevada).
FIGURA 11.8
Energias de dissociação de ligação para várias ligações C —H.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
11.2 IDENTIFICAÇÃO DA LIGAÇÃO C —H MAIS FRACA EM UMA SUBSTÂNCIA
APRENDIZAGEM
Identi que a ligação C —H mais fraca na seguinte substância:
SOLUÇÃO
Imaginamos a clivagem homolítica de cada tipo diferente de ligação C—H na substância. Isso
produziria os seguintes radicais:
ETAPA 1
Consideração de todos os radicais possíveis que resultariam da clivagem homolítica de uma
ligação C—H.
De todas as possibilidades o radical alílico é o radical mais estável. A ligação C —H mais fraca é
a que conduz ao radical mais estável. Portanto, a ligação C—H na posição alílica é a ligação C
—H mais fraca. Ela é a ligação mais fácil de sofrer uma clivagem homolítica.
ETAPA 2
Identi cação do radical mais estável
ETAPA 3
Determinação de qual ligação é mais fraca.
PRATICANDO
o que você aprendeu
11.5 Identi que a ligação C —H mais fraca em cada uma das seguintes substâncias:
(a)
(b)